Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 067 | Ano 7 | Nov 2002
L. F. VERÍSSIMO

Por que vou votar no Tarso

Luis Fernando Verissimo

Não sei quais são os planos do Tarso Genro, mas, se ele concorrer de novo a governador do Estado, tem o meu voto. Acho que havia muita coisa no governo Olívio a ser continuada e muita coisa a ser corrigida, por isso votei no Tarso, e votarei outra vez. Isto não é um prejulgamento do Rigotto, um homem decente que pode fazer um governo decente.

É apenas coerência. Cada um tire a sua lição dos quatro anos do Olívio e do episódio eleitoral que passou. Para mim, fica mais um exemplo da incapacidade da esquerda gaúcha de entender o momento e entender a si mesma.

Parece mentira, né? Lula presidente. Para quem, como eu, votou nele desde a primeira tentativa, é um pouco como dar adeus a um velho hábito. Já estávamos acostumados à decepção, a perder de quatro em quatro anos só para concluir de novo que o Brasil não tinha jeito mesmo, que alguém como ele jamais seria eleito, que a maioria oprimida jamais teria vez, porque as elites, porque o capital internacional, porque os americanos… E não é que o homem me ganha? Mas o ceticismo entranhado custa a morrer. Depois dos festejos, vem a desconfiança. O que deu errado desta vez? Ou, mais intrigante: o que deu certo?

A primeira tentação é a de invocar o filósofo Marx, Groucho Marx, e alertar o Lula sobre o risco de entrar num clube que aceita sócios como ele assim tão facilmente. O segundo pensamento é mais especulativo, e otimista: e se o clube mudou? E se o Lula ganhou o apoio de gente que antes assustava não apenas porque a barba preta ficou grisalha e o discurso abrandou mas porque há um sentimento generalizado de que algo está desmoronando, algo está chegando ao fim, e que é preciso colocar outra coisa pelo menos organizada no seu lugar, antes que a pura raiva antitudo tome conta? O anti-Lula desta vez não se criou porque o sistema desanimou cedo. O Serra foi um produto do desânimo do sistema.

Fala-se muito que o governo Lula terá pouco espaço de manobra para fazer o que pretende, com os compromissos que herdará. Mas o sistema internacional também está em crise, também há luta dentro do clube deles sobre o que é conveniente e o que é negociável para que o sistema sobreviva à sua própria irracionalidade, e talvez também haja interesse em facilitar a vida do novo sócio. Que, afinal, já declarou que não vai limpar os sapatos com o guardanapo, só quer mais consideração e justiça.

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