Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 094 | Ano 10 | Ago 2005
NEI LISBOA

As bruxas de Garanhuns

Eaí chegamos ao fatídico agosto, mês do suicídio do Getúlio, da renúncia do Jânio, do impeachment do Collor. E com esse tamanho enrosco de mensalão e outras mais acontecendo, saravá, mizifiu, que a coisa agora só não vai pros finalmente se o santo do Lula for muito forte. Dizem que jogando umas quantas edições de Veja, Época e IstoÉ num caldeirão, e mexendo até levantar fervura, dá num mingau grosso e verde e que de repente surge, na fumaceira, um sapo barbudo com uma mala de dinheiro na mão. Sendo o que dizem, não duvido, que ultimamente basta declarar-se algo ou denunciar alguém para que o dito se inscreva de imediato como fato e verdade universal no noticiário da TV e na opinião pública.

Nunca foi tão fácil caluniar alguém. Escolha aí o nome de um desafeto seu qualquer e distribua o boato de que ele recebeu dinheiro do Marcos Valério. Pronto. Linchamento instantâneo. Desemprego automático, ruína sem escalas, descrédito eterno e retroativo a cinco gerações de ancestralidade. Há inclusive uma boa probabilidade de que o boato se revele verdadeiro, em especial se o acusado for deputado federal ou ex-dirigente do PT, mas não chega a fazer grande diferença quando se sabe que a carreira do distinto já estará de toda forma arruinada.

Não estou dizendo, nem de longe, que se deva poupar qualquer um de ser celebridade no noticiário policial se assim fizer por merecer. Esse merecimento é medida que a mídia conhece muito bem, o que não quer dizer que respeite da mesma forma. Qualquer um percebe que os critérios usados para conferir credibilidade e destaque a uma informação têm tido pouco a ver com a ética e o bom senso.

O noticiário dos grandes jornais, das revistas nacionais, das redes de televisão, sempre esteve atrelado primordialmente aos interesses de seus donos, nenhuma novidade. Mas nisso também sempre demonstrou grande admiração e respeito pelo poder político – qualquer ímpeto investigativo de uma editoria estaria sujeito a esse limite. A novidade de hoje é que o interesse seja derrubar o governo a todo custo. É uma rara conjunção na vida nacional, o aflorar de denúncias de corrupção política com o desejo sincero da mídia de aprofundar investigações. Tão rara quanto vitoriosa, aliás, como provam alguns agostos passados. O Lula vai precisar mais do que ser honesto e parecer honesto, vai precisar é de todas as bruxas de Garanhuns que puder juntar.

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