Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 095 | Ano 10 | Set 2005
ENTREVISTA | JOSTEIN GAARDER

Filosofia é POP

Clarinha Glock

foto_jostein3A filosofia, quem diria, saiu das escolas e das universidades e virou pop. Liga-se a televisão, e um programa de entretenimento dominical mostra uma filósofa explicando como Platão nos ajuda a interpretar o dia-a-dia. Muda-se o canal, e lá está outra filósofa apresentando um programa dedicado às mulheres. Isso talvez explique também por que uma das estrelas da 11ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto, foi o escritor norueguês Jostein Gaarder, autor de O mundo de Sofia, em que narra a descoberta da filosofia por uma menina de 15 anos e, por meio de cartas, orienta os primeiros passos de seus leitores infantis pelo tema. Professor de Filosofia e de História das Idéias, Gaarder costuma dizer, em suas entrevistas, que o segredo do seu sucesso é saber contar histórias. Gaarder respondeu às perguntas do Extra Classe num breve intervalo de sua concorrida entrevista coletiva. O escritor aproveitou sua estada no Brasil para divulgar seu mais recente livro A garota das Laranjas (Cia. das Letras).

Extra Classe – A filosofia pode explicar tudo na vida?
Jostein Gaarder
– Quando falamos de crianças, é realmente possível manter um diálogo filosófico. As suas mentes são tão limpas para falar sobre o que é justo, o que é certo, porque parece que elas nasceram com raciocínio filosófico. Mas podemos dizer que a filosofia é ainda mais importante para adultos do que para as crianças. Porque as crianças são filósofas, curiosas, fazem perguntas, experenciam esse mundo como algo novo. À medida que crescemos, ficamos tão acostumados ao mundo, que já não nos deslumbramos com ele. Precisamos da filosofia para lembrarmos desse mistério do qual fazemos parte. Para ser um bom filósofo, é preciso estar apto a perguntar sobre as coisas, ser curioso. E ser curioso é uma habilidade com a qual já se nasce. Você pode inclusive ver nos olhos de bebês pequenos quando estão olhando no entorno, eles são curiosos. Temos um fenômeno no nosso país chamado baby swimming – você coloca bebês recém-nascidos numa piscina e eles nadam na água. Claro, porque eles nadaram na água antes de nascer. Se você mantiver essa habilidade, colocando os bebês na água, à medida que crescem, eles não vão precisar ir a uma escola de natação quando tiverem 10 anos de idade.

EC – Como o conhecimento de filosofia pode melhorar a vida das pessoas?
Gaarder
– Existem muitos aspectos, mas um muito importante é se fazer a pergunta: “Quais são os valores reais da vida?”. Os professores deveriam estimular os alunos a responder essa pergunta. Quando eu estava na escola, eu sempre respondia a questões de Matemática, Literatura, Geografia, História, mas nunca a professora propôs discutir qual seria o melhor modo de viver. E também: “O que é o amor?”. Você precisa se perguntar isso para atingir o amor.

EC – Pode-se dizer que os filósofos, de alguma forma, também atuam como psicólogos?
Gaarder
– Sim, existem algumas semelhanças. Os psicólogos fazem terapia para ajudar os indivíduos, por exemplo, contra a depressão, as drogas. Existem filósofos que têm uma prática como psicólogos porque atuam através da comunicação e do diálogo. Eles podem ajudar as pessoas a tentar entender o que é ou não importante. Uma parte da filosofia é justamente a Filosofia dos Valores. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve muitos judeus, por exemplo, vindos dos campos de concentração, que perderam seus parentes e também sua crença nos seres humanos. Um médico, Viktor Frankl, estabeleceu um tratamento muito “filosófico” chamado Logoterapia. Ele escreveu o livro A Man’s search for meaning (traduzido para o português como Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração). Existe ali muito do existencialismo que se encontra também na obra de Sartre. Quando as pessoas têm experiências terríveis, elas precisam, elas próprias, criar uma outra situação para si. Muitas vezes eu encontro jovens e eles reclamam que tudo é muito confuso, que eles têm problemas com seus pais. Provavelmente é verdade. Mas você não pode durante toda a sua vida reclamar sobre isso. Agora que você é adulto, recomece do zero. Sim, eu acredito que a filosofia pode trazer frutos para a vida.

EC – Quais são as principais preocupações dos filósofos atualmente?
Gaarder
– Antes do século XX, a filosofia respondia a perguntas ontológicas, como o que é natureza, o Universo, a existência de Deus. Hoje, essas grandes perguntas estão sendo respondidas pela ciência. Agora a filosofia está se concentrando mais na linguagem, em estética, política, valores. O que é justiça? Existem muitos filósofos importantes que têm tentado responder a estas questões. É muito fácil para a filosofia mostrar às pessoas que estão no poder, como George W. Bush, ou como o primeiro-ministro da Noruega, por exemplo, que essa ou outra política não é justa. Um exemplo muito bom é o filósofo moral americano John Rawls. Ele diz: imagine que você seja membro de um conselho que se reúne para escrever as leis para uma sociedade futura. Todas as pessoas estariam lá para discutir o que seria a sociedade utópica, a melhor que se possa imaginar. Depois que elas assinassem a constituição, iriam morrer e, quando acordassem fariam parte dessa sociedade. Mas elas não saberiam se seriam um homem ou uma mulher, negro ou branco, vivendo no Brasil ou na Noruega, na Índia ou na América. Essa seria uma sociedade justa porque ninguém ousaria nascer como uma mulher em muitas partes do mundo.

EC – Nas suas obras, o senhor fala de valores humanos, sentimentos, mistérios. No mundo de hoje, vivendo com tantos conflitos, os leitores precisam ter contato com textos mais reflexivos como estes?
Gaarder
– Acredito que a literatura sempre esteve na vanguarda da luta pelos direitos humanos. E o ponto alto deste processo foi em 1948, quando foi feita a Declaração Universal dos Direitos Humanos. No século XX, tivemos muitas conquistas importantes em direitos humanos. Mas também vemos mais claramente que agora, no século XXI, não podemos mais nos focar apenas nos direitos humanos, temos que fazer a literatura se tornar uma vanguarda na luta pelo cumprimento das obrigações do homem. Devemos trabalhar para fazer uma Declaração Universal de Obrigações Humanas. Até lá, precisamos ter mais cuidado com esse único planeta que compartilhamos e que vamos deixar de herança para nossos filhos e netos. É possível que o planeta Terra seja o único planeta no universo em que existe uma consciência cósmica. Então, não se trata apenas de uma responsabilidade global, mas de uma responsabilidade cósmica de proteger o planeta da extinção. É importante se dar conta do que é a cultura, o que é a arte, a literatura. Se é a celebração da consciência humana, então não deveriam os artistas, os escritores serem os vanguardistas na proteção da consciência humana contra a extinção?

EC – O que é preciso para transformar a linguagem dos filósofos numa linguagem mais acessível?
Gaarder
– Talvez eu tenha uma crença muito forte no uso de palavras simples, em acreditar que os pensamentos claros podem ser mais facilmente expressos. Eu diria que tenho até um sentimento muito ingênuo… Veja A roupa nova do imperador, história de Hans Christian Andersen. Os adultos, na história, faziam teorias e comentários complexos sobre as roupas do imperador, mas a criança disse: “Ele está pelado”. E era uma espécie de verdade nua e crua. Eu estive recentemente numa conferência onde encontrei uma mãe americana, e ela contou que sua filha de seis anos estava assistindo à televisão, e o presidente George W. Bush, como sempre, disse: “Deus abençoe a América”, ou “Que Deus continue abençoando a América”. A criança perguntou à mãe por que o presidente sempre diz “Deus abençoe a América”, e não “Deus abençoe o mundo?”. Posso afirmar que contar, na estrutura de um romance, toda a história da filosofia em 500 páginas pode ser uma super simplificação, mas quando alguém me diz (e os professores dizem) que eu simplifico, algumas vezes eu respondo que, se você está pedindo carona entre Copenhague (Dinamarca) e Roma (Itália), e um motorista pára o carro e diz que vai até Milão, você não deve reclamar. Ele vai levar você mais do que metade do caminho até Roma, e é de graça. E você pode fazer o resto do caminho de qualquer forma. Então, depois de ler um ensaio de introdução à filosofia, você pode ser encorajado a ler sobre os filósofos com os quais você tem mais afinidade.

EC – Seria esse o motivo por que O mundo de Sofia fez tanto sucesso?
Gaarder
– Ainda estou impressionado pelo interesse tão grande sobre esse livro. Suspeito que teve tantos leitores por três motivos. Primeiro, porque muitas pessoas acham que a filosofia é importante, mas difícil de ler, muito acadêmica. Também acredito que o fato de haver uma história é importante para esse tipo de livro. E porque o cérebro humano é feito para histórias, não para uma enciclopédia.

EC – Como o senhor analisa a influência da tecnologia? Estamos raciocinando mais ou menos?
Gaarder
– A tecnologia moderna dá e tira. Por exemplo: o uso do telefone celular. Claro que é muito prático. Você pode alcançar qualquer pessoa no planeta, e também pode ser contatado por qualquer pessoa. Na Noruega, 90% das crianças entre 12 e 15 anos têm um. Pode-se dizer, além disso, que o celular é o controle remoto das famílias. Às vezes é muito bom viver off-line – eu realmente não me permito ficar o tempo todo on-line (conectado). Eu odeio sentar no metrô ou no ônibus e ouvir as pessoas dizendo o que vão comer no jantar.

À s vezes me perguntam também o que eu acho da televisão. Talvez se possa dizer sobre a televisão o que se diz sobre o álcool – antes eu costumava beber da garrafa, mas agora a garrafa está bebendo de mim. Escrevi alguns livros sobre pessoas que estão deixando a vida, como esse novo, A garota das laranjas, e não acredito que nenhuma delas pensaria: “Ah, eu desejaria ter visto mais televisão”, ou “queria ter visto todos os episódios do Big Brother”. Muita tecnologia moderna, na verdade, pode fazer as pessoas ficarem mais juntas, podendo também funcionar como uma barreira entre a comunicação e a atividade humana – é motivadora, mas deixa as pessoas mais passivas e com mais pressão arterial do que há 30 anos.

EC – O que pode ser feito para estimular o gosto pela leitura entre as crianças?
Gaarder
– A fonte de alimentação são as histórias. Os cientistas não precisam tanto dos livros, porque têm a tradição oral que pode guiá-los. Na sociedade pós-moderna, as histórias que precisamos estão nos livros. Minha definição de um bom professor é um bom contador de histórias, porque a estrutura do cérebro humano é feita para histórias. Se você me contar algum fato que aconteceu no Rio de Janeiro, vou ouvir atentamente, mas esquecer em seguida. Mas, se contar como uma história, vou provavelmente me lembrar por toda a vida. Nosso cérebro não está programado para atuar como uma enciclopédia. As histórias são elos de ligação. Todos precisamos de uma ágora (praça principal nas cidades gregas, local em que aconteciam as assembléias do povo), onde se possa compartilhar histórias. A televisão era a ágora da Noruega. Mas depois que surgiram 20 canais, está servindo para separar as pessoas. Não li Harry Potter, mas acho bom, porque ensinou uma geração de meninos a compartilhar histórias com as meninas, o que é importante.

EC – O senhor uma vez disse que escreve literatura para pensar na vida, nos mistérios do ser humano. Como isso começou?
Gaarder
– Desde os 10 anos de idade, sempre tive essa sensação intensa de fazer parte de um grande mistério. Mesmo como um menino, eu me sentia parte de um enigma. Eu dizia para os pais e adultos: “O que é este mundo? Não acham que é estranho que o mundo exista?”. Acho que vocês vão achar este tipo de “centelha” em praticamente todos os meus livros.

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