Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 127 | Ano 13 | Set 2008
POLÍTICA

Realidades diferentes problemas comuns

Por Flavia Bemfica

A apenas um mês do primeiro turno das eleições municipais e com o recente início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, os candidatos a prefeito e vereador desdobram-se em propostas inovadoras e promessas de solução de problemas. Não raro, os projetos não levam em conta a realidade das cidades. Por isso, o Extra Classe buscou mostrar o que os novos prefeitos dos dez principais colégios eleitorais do estado vão encontrar quando assumirem seus postos. Juntas, as dez cidades representam quase 35% do total do eleitorado e sua realidade concentra o que ocorre no entorno, em municípios quase sempre a elas vinculados.

Foto: René Cabrales / “EcoUrb”, parte da Exposição A cidade, a natureza, o cidadão: um olhar sustentável - Santander Cultural

Foto: René Cabrales

“EcoUrb”, parte da Exposição A cidade, a natureza, o cidadão: um olhar sustentável – Santander Cultural

Foto: René Cabrales

Porto Alegre, Caxias do Sul, Pelotas, Canoas, Santa Maria, Novo Hamburgo, Viamão, São Leopoldo, Rio Grande e Alvorada, nesta ordem, constituem os maiores colégios eleitorais gaúchos. Por coincidência, também são as únicas dez cidades, entre as 496 do estado, com número de eleitores superior a 100 mil. As dez – sete delas pólos regionais – respondem por parte significativa do PIB do Rio Grande do Sul, concentram investimentos em tecnologia ou população atraída por maiores chances de emprego, ou ambos, quase sempre têm instituições de saúde que são referência em suas regiões e abrigam individualmente uma ou mais instituições de Ensino Superior.

São municípios que alavancam desenvolvimento econômico e investimentos, mas também concentram problemas comuns, quase sempre de infra-estrutura. Seu crescimento atraiu uma população que acabou por superpovoar as periferias e aumentar as áreas de ocupação irregular. Outros traços comuns são sistemas de transporte que não conseguem atender de forma adequada às necessidades da população e números muito pobres com relação ao saneamento básico.

Na saúde, atraem demandas do entorno. O resultado são sistemas sobrecarregados, nos quais sucessivos diagnósticos do setor público apontam para a dificuldade de acesso. Na Educação, nenhuma das dez está entre as que apresentam os melhores resultados quando analisado o bloco Educação do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese), formulado para os municípios gaúchos pela Fundação de Economia e Estatística (FEE).

Quando tomado como referência o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), medido pelo Ministério da Educação (MEC), entre as dez apenas Caxias do Sul apresentou média superior a 5,0 (de 5,1) para os anos iniciais do Ensino Fundamental em 2007, o que não se repetiu para os anos finais e, ainda assim, longe da meta do país, que é chegar aos 6,0. “Estas dez cidades possuem características diferentes, mas no que se refere à infraestrutura, apresentam problemas bem semelhantes, até porque as deficiências ocorrem de forma generalizada nos municípios”, resume o chefe do Setor de Informações do IBGE no RS, Ademir Koucher.

ALVORADA
Aumentar os indicadores relativos à renda, combater as conseqüências da pobreza, como a violência urbana, a falta de saneamento básico, o excesso de moradias irregulares, e as deficiências do transporte público são desafios de Alvorada. Também há o histórico funcionamento como cidade-dormitório, o que faz com que a população – que em geral já tem baixo poder aquisitivo – gere renda fora dos limites da cidade.

No saneamento, índices da Corsan indicam que só 14,91% das residências possuem rede coletora de esgotos. Conforme dados da Secretaria Estadual da Saúde, Alvorada tem os mais altos índices de mortalidade infantil da Região Metropolitana. A taxa de analfabetismo é de quase 6%. “Alvorada ainda é muito pobre, apesar de possuir uma localização estratégica na Região Metropolitana. Pelo menos 30% da população trabalha em outras cidades”, destaca Koucher.

CANOAS
Com economia calcada no setor industrial (68,4% do PIB), Canoas tem os problemas da saúde, segurança e desenvolvimento urbano como prioridade na agenda dos candidatos. Mas meio ambiente, transporte e habitação também apresentam deficiências. Detentora do segundo maior PIB do estado (atrás apenas da capital), concentra indústrias de grande porte, como a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) ou a Springer Carrier, que geram um fluxo constante de trabalhadores e cargas.

À concentração industrial, aliase o fato de Canoas ser cortada pela BR-116 e pela linha do Trensurb. Os traçados de ambos, em vez de margearem a área urbana, a atravessam, dividindo a cidade em três. Os problemas no trecho da BR-116, onde conforme os dados do Departamento Nacional de Infra-Estrutura Terrestre (Dnit), passam 130 mil veículos por dia, acabam com reflexos severos na economia e no meio ambiente. Uma empresa detém o monopólio do transporte coletivo urbano dentro do município. O serviço é deficiente, com grandes intervalos de horários e superlotação. Nos horários de pico, a lotação nos trens da Trensurb, alternativa de deslocamento para fora da cidade, é um pesadelo. “Apesar das dificuldades enfrentadas em transporte e saneamento, segurança e saúde ainda são os problemas maiores”, ressalva o professor do curso de Ciência Política da Ulbra e do Mestrado em Inclusão Social da Feevale, Everton Santos. Segundo ele, o desafio de Canoas é o mesmo dos grandes centros: ativar a participação social.

CAXIAS DO SUL
Algumas características diferenciam Caxias do Sul dos outros grandes colégios eleitorais. O tradicional pólo metal-mecânico gaúcho tem a melhor qualidade de vida, quando considerados os dados globais do Idese. Na avaliação dos especialistas, desfruta da confortável situação das cidades de porte médio: acesso a serviços disponíveis em metrópoles e, ao mesmo tempo, manutenção de características de pequenos municípios. A isso se juntam iniciativas diferenciadas em infra-estrutura, como a coleta seletiva do lixo (referência no país) e, no transporte coletivo, o uso de lotações. Na composição do PIB, apesar do destaque da indústria, há equilíbrio entre os três tradicionais setores da economia.

Os bons números acabaram por atrair muita gente em busca de emprego e vida melhor. Entre 1991 e 2000, conforme dados do IBGE, enquanto o RS teve taxa de crescimento demográfico de 1,3% ao ano, em Caxias o índice foi de 2,5% ao ano. O inchaço das periferias é apenas um dos desafios. Os bons indicadores de saneamento são garantidos pela coleta de lixo, uma vez que, conforme dados do Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae), embora a rede para esgoto sanitário cubra 85% da cidade, só 12% dos dejetos são tratados. O item mobilidade urbana é outro problema. Além dos engarrafamentos, há várias deficiências no sistema de ônibus urbanos, a cargo de uma única empresa. Na segurança, os índices de violência assustam: é a terceira cidade em número de homicídios no RS.

NOVO HAMBURGO
Saneamento e preservação do meio ambiente, além de geração de emprego e renda, dominam os debates em Novo Hamburgo. A questão ambiental e do saneamento está relacionada à poluição do Rio dos Sinos, cenário de desastres ambientais. Na economia, a estabilidade do dólar reduziu as exportações de calçados, o que aumentou as demissões e o fechamento de indústrias do setor calçadista. “A cidade se aproxima de Caxias em termos de desenvolvimento econômico, mas está em reversão. Vai precisar de eficiência e tecnologia de ponta”, defende o professor Luis Roque Klering, do Núcleo de Estudos e Tecnologias em Gestão Pública da Escola de Administração da Ufrgs. “Novo Hamburgo não tem só calçados e segue centralizando poder decisório e capital. Se a Região Metropolitana fosse separada em duas partes, elas seriam Porto Alegre e Novo Hamburgo”, acrescenta Ademir Koucher, do IBGE.

PELOTAS
Educação, infra-estrutura, saneamento, emprego e desenvolvimento concentram os debates em Pelotas. Referência do patrimônio histórico e cultural na Metade Sul, o município já ocupou lugar de mais destaque na economia gaúcha e necessita, há décadas, de alternativas para o desenvolvimento. Pelotas possui uma economia voltada para o setor de serviços, mas apresenta alguns indicadores problemáticos. Apesar do contingente populacional equivalente ao de Caxias do Sul, tem um PIB quatro vezes menor. Na Educação, teve a pior avaliação do Ideb para os anos iniciais do Ensino Fundamental em 2007 entre os dez maiores colégios eleitorais: 3,6. Nos anos finais, a média ficou em 2,9. “Pelotas precisa investir em desenvolvimento e modernização, como toda a Metade Sul”, alerta o professor do curso de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, Benedito Tadeu César.

PORTO ALEGRE
Saúde, segurança, mobilidade urbana e emprego dominam os planos dos oito candidatos à prefeitura da maior e economicamente mais importante cidade gaúcha, a capital. A prioridade às áreas não ocorre por acaso. Os candidatos pesquisaram o que os moradores de Porto Alegre desejam e o que julgam que está mal. Ficaram tranqüilos com a questão do saneamento, porque a cidade tem em andamento o Programa Integrado Socioambiental (Pisa), que deverá elevar o percentual de esgoto tratado para 77% até 2012. Hoje, a rede de esgoto cloacal cobre 85% dos domicílios, mas só 27% do esgoto é tratado. No que se refere à ocupação da mão-de-obra, Porto Alegre, além de ser pólo industrial e (cada vez mais) de serviços, pleiteia ser referência na América Latina em tecnologia da informação – com a conclusão do Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), que fabricará chips, na Lomba do Pinheiro. “Mas a cidade precisa procurar melhor sua vocação. Há uma tendência clara no sentido dos serviços e da tecnologia, mas ainda falta infra-estrutura que garanta o desenvolvimento de diversos setores”, avalia o professor Luis Roque Klering, do Núcleo de Estudos e Tecnologias em Gestão Pública (Nutep) da Escola de Administração da Ufrgs.

A mobilidade urbana tornouse outro grande ‘calcanhar-deaquiles’ da capital. Uma série de fatores, entre os quais o aumento da frota de veículos e a falta de meios alternativos de transporte público, transformaram os grandes congestionamentos em um problema diário. A saúde e a segurança não ficam atrás. Para reverter os indicadores negativos na área de segurança pública, quase todos os candidatos prometem a qualificação da guarda municipal e até o direcionamento dos guardas para patrulhamento ostensivo nas ruas. Na saúde, a espera de meses para consultas ou cirurgias de especialidades médicas e as precárias condições do Hospital de Pronto Socorro, que chegou a ter a UTI de Trauma interditada neste ano devido à proliferação de bactérias, ofuscam a fama de cidade referência no tratamento de câncer e na realização de transplantes.

RIO GRANDE
Uma incógnita. É assim que os pesquisadores referem-se à cidade portuária após o início da instalação da plataforma de prospecção de petróleo P-53. O empreendimento já começou a gerar empregos e a movimentar a economia, mas ainda não existem estudos sobre o impacto das mudanças. “Rio Grande parou no tempo por um período, porque os portos foram abandonados, e agora há este grande empreendimento. Tudo indica que haverá uma guinada na economia”, aposta Koucher.

“Ninguém sabe qual o impacto real da instalação da plataforma”, ressalva a coordenadora técnica nacional do Sistema de Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED)/Dieese, Lúcia Garcia. Ela lembra a necessidade de importação de mão-de-obra para atuar na P-53. “É uma força de trabalho qualificada de forma muito específica, que o estado não tem e não terá por anos. No caso dos gestores públicos, é importante que passem a pensar o trabalho como elemento desta reestruturação produtiva”, aconselha.

SANTA MARIA
Dificuldades nos serviços públicos de saúde, saneamento deficiente e com parte das obras em compasso de espera por recursos federais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e perda ou estagnação de posições nos indicadores da Educação são parte da realidade de Santa Maria. Referência na região central e pólo de geração de conhecimento por abrigar a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a cidade tem sua economia alicerçada no setor de serviços (principalmente públicos) e no comércio.

Apesar do porte, Santa Maria ainda se mobiliza para alcançar a gestão plena na saúde. Já as deficiências em Educação se traduzem em números. Entre 2000 e 2004, a cidade perdeu 25 posições no bloco Educação do Idese, passando de 103º para 128° lugar. Em 2005 não houve melhorias. Nesse ano, a avaliação dos anos iniciais do Ensino Fundamental pelo Ideb era de 4,1. Em 2007, passou para 4,2. É inferior à média do RS, de 4,2 e 4,5, respectivamente.

SÃO LEOPOLDO
Com características econômicas semelhantes à vizinha Novo Hamburgo, também debate os problemas de saneamento, preservação dos recursos hídricos e manutenção dos postos de trabalho. A falta de segurança, a proliferação das periferias e das moradias irregulares e as dificuldades no atendimento à saúde completam o quadro de problemas.

“São Leopoldo tem em comum com as demais cidades do seu porte ou maiores os desafios em relação à área social e à infra-estrutura”, avalia o presidente da Federação dos Municípios do RS (Famurs), Elir Girardi. “Uma alternativa interessante para cidades com problemas e perfil econômico semelhantes, e geograficamente próximas, são os consórcios intermunicipais. Eles aumentam as chances dos projetos necessários vingarem”, sinaliza o professor da pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, Benedito Tadeu Cesar.

VIAMÃO
Assim como Alvorada, apresenta grande crescimento populacional, por atrair trabalhadores de diversos outros municípios. Mas, ao contrário da vizinha, tem uma população com poder aquisitivo mais alto, o que minimiza em parte os problemas estruturais. Apesar de também estar na área de abrangência de Porto Alegre, a cidade gravita mais em torno de Gravataí, abrigando trabalhadores que atuam no pólo centralizado pela General Motors. Está entre as dez cidades com os mais elevados índices de violência, conforme levantamentos da Secretaria de Segurança Pública. Os indicadores de Educação e Renda deixam a desejar. “Entre estes dez maiores colégios eleitorais, Viamão e Alvorada estão na ponta de baixo. A questão da renda, na qual possuem indicadores bem ruins, acaba se refletindo em várias outras áreas”, explica o estatístico Rafael Bernardini Santos, um dos responsáveis pela pesquisa do Idese na FEE.

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