Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 128 | Ano 13 | Out 2008
ESPECIAL | QUALIDADE DE VIDA
ENTREVISTA

Qualidade em todas as IDADES

Por Grazieli Gotardo

O Dr. Emílio Moriguchi pertence à terceira geração de uma família de médicos. É coordenador do Centro de Geriatria e Gerontologia do Hospital Moinhos de Vento e trabalha com questões relacionadas à qualidade de vida e longevidade. Sua experiência diz que o mais importante para se ter qualidade de vida é estar feliz. Uma boa “sesta” de, no máximo,1 hora depois do almoço (mais do que isto pode ser negativo), também ajuda, pois está associada a um menor risco de doenças cardiovasculares ao longo da vida e uma maior longevidade. Seu melhor exemplo é a comunidade de Veranópolis, na Serra gaúcha, onde descendentes de italianos são acompanhados semanalmente desde 1994. A cidade é considerada a terra da longevidade, pois segundo dados do IBGE e Ministério da Saúde, o município é o lugar onde existe o maior número de idosos em comparação ao número de habitantes. O Extra Classe conversou o Dr. Moriguchi sobre como lidar com as mudanças que o passar dos anos causam no corpo e cuidados que pessoas de todas as idades podem ter para um envelhecimento saudável.

Extra Classe – O que é qualidade de vida?
Emílio Moriguchi
– Existem vários conceitos, mas para mim, como geriatra, é o paciente estar feliz. Acordar disposto, agradecer que o dia está começando e terminálo bem. É um conceito subjetivo, mas é poder viver bem e com saúde. Basicamente é a postura de vida de querer estar bem, de tomar decisões em termos de dieta, de atividade física. O meu objetivo com meus pacientes é que todos tenham qualidade de vida, ou seja, sintam-se felizes.

EC – A partir de que idade a pessoa deve se preocupar com o envelhecimento?
Moriguchi
– Eu acredito que envelhecimento é um conceito contínuo. As pessoas têm uma idéia de que idoso é alguém depois dos 60 ou 65 anos, mas nós envelhecemos a partir do momento que nascemos e começamos a crescer. Um envelhecimento com saúde inicia com uma gestação saudável. Os hábitos dessa mãe serão transmitidos na primeira infância em termos de educação para a criança. Tudo é um processo educativo.

EC – Como os jovens devem se preparar para o envelhecimento?
Moriguchi
– Acho que está acontecendo uma mudança de percepção, as pessoas sentem que estão vivendo mais. Quando atendo crianças, já tento inserir o conceito de qualidade de vida como opção de alimentação, de atividade física, de relacionamento. Explico, por exemplo, que não dar bola para fofocas pode ser uma forma de manter a qualidade de vida. Também leciono para graduação e pós-graduação e inicialmente os jovens têm dificuldades em falar de envelhecimento, mas depois percebem que é algo que já está acontecendo.

EC – É possível inibir o envelhecimento?
Moriguchi
– Este é um conceito completamente antinatural. É o mesmo que dizer que é possível inibir o crescimento. Nascimento, crescimento, maturação e envelhecimento são fases da vida. Parar o envelhecimento é parar a vida.

EC – Como está o projeto de acompanhamento dos idosos em Veranópolis (RS)?
Moriguchi
– Tenho um projeto com uma mestranda e temos toda a cidade empolgada com a questão da qualidade de vida. Vou uma vez por mês para lá, e quando chego é uma festa. Temos também um trabalho nas escolas públicas onde abordamos a questão da qualidade de vida e falamos de drogas. O acompanhamento dos idosos é feito desde 1994 e conta com apoio da prefeitura que anualmente direciona verbas. Os idosos são acompanhados semanalmente com exames. Também começamos o mesmo tipo de trabalho em Feliz (RS), Ivoti (RS) e Blumenau (SC).

EC – Esse tipo de trabalho funciona nas grandes cidades?
Moriguchi
– Em locais pequenos é mais fácil, mas aqui em Porto Alegre temos alguns projetos do Hospital Moinhos de Vento, na Ilha da Pintada e no Morro da Cruz, onde uma equipe trabalha em termos de promoção de qualidade de vida. São grupos de convivência que funcionam muito bem. Os principais grupos na capital trabalham doenças que geram dependências e demências. As pessoas recebem orientações básicas de como conviver com esses problemas.

EC – Como o senhor trata as restrições e imposições alimentares com seus pacientes?
Moriguchi
– Aqui está a importância de trabalhar isso desde criança. Uma coisa é impor algo que você não quer, outra coisa é se convencer de que aquilo vai te fazer sentir melhor. Uma coisa é colocar um doce na frente da criança e dizer: você não pode comer porque você é gordinho. Outra é dizer: olha, se você comer esse doce vai ficar mais gordinho e vai ter dificuldades para brincar, você pode escolher. Com os adultos se faz a mesma coisa. Eu acho que dá para educar o adulto também. Tenho casos de pessoas que depois dos 70 ou 80 mudaram seu estilo de vida.

EC – O nosso corpo envelhece por inteiro ou algumas partes envelhecem mais rápido?
Moriguchi
– A Medicina tem uma tendência a separar em á reas, mas o fato é que somos uma pessoa só, uma unidade composta de diversidades. O coração pode envelhecer mais rápido se a pessoa tiver um infarto antes do tempo. Mas o ideal é cuidar para que o corpo envelheça harmonicamente. Aqui entra a questão da prevenção.

EC – É possível também tornar longeva a vida sexual de uma pessoa? Quais os benefícios?
Moriguchi
– Com certeza é possível. Atendo casais de 80 ou 90 anos, em que os dois estão bem, que continuam com vida sexual. Certamente não da mesma forma que os jovens de 20 ou 30 anos imaginam. Mas aprender a lidar com isso também faz parte do processo de educação para o envelhecimento. Não é que a pessoa esteja incapaz, é saber se adaptar. Quanto aos medicamentos para disfunção erétil, se forem indicados pelo médico, visto que possuem muitas restrições, funcionam como qualquer outro.

EC – Como o senhor orienta seus pacientes a lidar com dores crônicas?
Moriguchi
– Busco diagnosticar a origem e tratar, pois a dor não é uma coisa boa. A dor leva à depressão e acaba com a qualidade de vida. Hoje existem muitos medicamentos, não é possível aceitar que uma pessoa viva com uma dor para sempre.

EC – A expectativa de vida hoje no Brasil é de 71 anos, segundo o IBGE. Como ela deve se comportar daqui a 30 ou 40 anos?
Moriguchi
– Pode aumentar, mas tem um limite. Países como o Japão, que têm uma expectativa alta de 85 para mulheres e 80 para homens, já começam a ter uma redução. Teoricamente dizem que o ser humano pode atingir 120, mas teoricamente é uma coisa, outra é viver nesse mundo. Qual idoso vai resistir às mudanças climáticas que temos agora? O homem começa a mexer a com a natureza e então é impossível trabalhar com a teoria.

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