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Nº 159 | Ano 17 | Nov 2011
CIÊNCIA

Pesquisas associam lesões genéticas ao trabalho

Alterações atípicas de células foram detectadas em trabalhadores expostos a agrotóxicos nas lavouras de fumo de Venâncio Aires e a agentes químicos nas minas de carvão de Candiota
Por Gilson Camargo
Fernanda Rabaioli e Paula Rohr, da Ufrgs, que investigam danos em células de trabalhadores

Foto: Igor Sperotto

Fernanda Rabaioli e Paula Rohr, da Ufrgs, que investigam danos em células de trabalhadores

Foto: Igor Sperotto

A bióloga Fernanda Rabaioli da Silva, 31 anos, concluiu mais um estudo acadêmico da série realizada pelo grupo de pesquisas da Ufrgs, que investiga danos genéticos provocados em trabalhadores de diversos setores da economia gaúcha.

Os estudos são desenvolvidos por acadêmicos de Biologia e pós-graduandos em Genética da Ufrgs e da Ulbra, e mesmo as sondagens que ainda estão em andamento já apresentam evidências preocupantes de que as lesões nas células estão diretamente associadas ao trabalho insalubre.

As pesquisas são coordenadas pela bióloga e doutora em Genética Juliana da Silva, professora da pós-graduação em Genética e Toxicologia Aplicada da Ulbra. Já foram constatadas lesões no material genético coletado de agricultores das lavouras de fumo e soja, operários das minas de carvão e das indústrias coureiro-calçadistas, entre outras atividades onde existe a exposição a agentes tóxicos. Esses efeitos ainda são agravados com a exposição prolongada a agentes químicos e a falta de uso de equipamentos de proteção ou políticas de saúde laboral.

“Não podemos afirmar se essas pessoas terão câncer por conta dessas lesões, mas elas são um alerta”, explica Juliana. No caso dos agricultores da viticultura, a comprovação de que o contato com agrotóxicos estava comprometendo a saúde dos trabalhadores de Caxias do Sul motivou entidades de classe a promover palestras com a geneticista sobre políticas de prevenção e uso de equipamentos de proteção individual.

No final de outubro, sob sua orientação, a acadêmica Fernanda Rabaioli obteve o título de doutora em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs com a tese sobre mutações genéticas em trabalhadores do setor fumageiro de Venâncio Aires. Iniciada em 2007, a pesquisa abrangeu 116 agricultores das lavouras de fumo do município.

Amostras de sangue e da mucosa oral dos voluntários foram analisadas por meio de “ensaio cometa” e “teste de micronúcleos”, dois procedimentos de verificação de danos no DNA. Os mesmos testes foram feitos com amostras de células de pessoas que vivem no município, mas não trabalham com o fumo (grupo de controle) para comparação dos resultados. Os voluntários são homens com idade média de 40 anos.

De acordo com a pesquisadora, o material genético coletado de agricultores que manuseiam folhas de fumo impregnadas de agrotóxicos durante a colheita apresentou em média duas vezes mais lesões. “O dano celular em uma pessoa saudável é um processo natural e reversível e varia de 5% a 10%. Nesses trabalhadores, verificamos até 20% de células com lesões. Não sabemos se essas lesões mais acentuadas serão reparadas, pois isso depende do fenótipo (características da pessoa, determinadas pela sua constituição genética e pelas condições ambientais) de cada um”, explica Fernanda.

Já a pesquisa que está sendo desenvolvida desde 2009, pela bióloga Paula Rohr com operários das minas de carvão em Candiota, enfrenta problemas na coleta do material biológico dos mineiros no ambiente de trabalho. No início de setembro, devido às dificuldades na coleta de amostras biológicas de trabalhadores da região de Candiota, as pesquisadoras entraram em contato com o procurador Gilberto Souza, do Ministério Público do Trabalho, em Porto Alegre, buscando apoio para o estudo.

Para Juliana da Silva, lesões indicam urgência das políticas de prevenção

Foto: Igor Sperotto

Para Juliana da Silva, lesões indicam urgência das políticas de prevenção

Foto: Igor Sperotto

Segundo a pesquisadora da Ufrgs, as análises das amostras de material genético dos primeiros 70 mineiros mostraram mais lesões do que o esperado em células de indivíduos saudáveis. “Os danos provocados pela exposição a substâncias químicas podem ser reparados pelo organismo, mas mostram que a forma de proteção desses trabalhadores está, no mínimo, inadequada”, alerta.

MINAS DE CARVÃO – Empresa de economia mista controlada pelo governo do estado, com previsão de faturamento líquido de R$ 144 milhões em 2011, a Companhia Riograndense de Mineração (CRM), gerou 1,8 milhão de toneladas de carvão no ano passado, com produção de 21,77 toneladas diárias por trabalhador. A companhia informou que emprega 420 funcionários nas unidades de Candiota, Minas do Leão e Porto Alegre.

A empresa informou que não costuma barrar o acesso aos trabalhadores. “Tendo em vista a operacionalidade da mina, sempre que houver necessidade de qualquer pessoa estranha à atividade entrar no ambiente de trabalho, deve ser encaminhada solicitação, que será detalhadamente examinada. O pedido será deferido se não houver prejuízos aos trabalhos da unidade. Esse é um procedimento padrão, desenvolvido para todas as solicitações recebidas”, explicou o presidente da CRM, Isaias Porto. Quanto aos programas de saúde ocupacional, a empresa informou que mantém um projeto de qualidade de vida no trabalho que engloba ginástica laboral, caminhadas e academia, treinamento, ergonomia e prevenção ao uso de drogas e álcool.

A base dos operários, segundo o Sindicato dos Mineiros de Candiota, é de cerca de 600 trabalhadores. O presidente da entidade, Wagner Lopes Pinto, se diz surpreso com a constatação inicial de lesões genéticas nos mineiros. “Havendo comprovação de danos genéticos relacionados ao ambiente de trabalho, o problema será incluído nas políticas do Sindicato, mas vamos esperar que a pesquisa seja concluída”, avalia. Segundo o dirigente, houve um caso de intoxicação com sílica nos últimos 15 anos.

Em meio a uma campanha deflagrada por empresários do setor carbonífero para reinserir o carvão gaúcho na matriz energética do país, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Carvão do RS, Oniro Camilo, por sua vez, não admite questionamentos acerca da saúde ocupacional. Visto com frequência em encontros com parlamentares e lobistas do setor em Brasília, como mostram fotos suas em sites pró-carvão da região, ele afirma que “saúde de trabalhador é uma questão a ser resolvida entre médico e paciente”. “Eles têm plano de saúde, não pegam nem resfriado”, vociferou antes de bater o telefone. Ironicamente, o principal argumento que os lobistas fazem circular entre parlamentares, visando à inclusão das usinas termelétricas a carvão no leilão de energia A-5, que promove a comercialização da energia produzida no país e será realizado em 20 de dezembro, faz referência justamente à suposta capacidade que o setor teria de preservar o meio ambiente e a saúde dos seus trabalhadores.

 

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