Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 178 | Ano 18 | Out 2013
MARCOS ROLIM

O teste de Bechdel

Por Marcos Rolim*
"Era estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas somente em relação ao outro sexo. E que parcela mínima da vida de uma mulher é isso!" (Virginia Woolf)

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“Era estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas somente em relação ao outro sexo. E que parcela mínima da vida de uma mulher é isso!” (Virginia Woolf)

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Em 1929, em seu ensaio Um teto todo seu (disponível aqui), Virginia Woolf introduziu no mundo a “irmã de Shakespeare”. Chamou-a de Judith, sugerindo que ela teria um enorme talento para a poesia. Então, diante desta ficção, solicitou que se imaginasse o que teria ocorrido caso a personagem tivesse tentado, de fato, ser escritora. Ela, então, assinala que Shakespeare deve ter aprendido latim lendo Ovídio, Virgílio e Horácio, mas sua irmã não foi sequer mandada à escola. Ainda que desejasse conhecer os clássicos, sua família a impedia de ler, pois havia meias a remendar e uma cozinha para tomar conta. Talvez, se ela rabiscasse algumas páginas, se esconderia no sótão. Depois, queimaria as folhas, para não ser punida. O texto mostra que nem o maior talento faria de Judith uma escritora em plena Idade Média. O argumento retira a hierarquia de gênero da natureza, situando-a onde ela sempre esteve: na história, entre as normas e os preconceitos das sociedades patriarcais.

Neste mesmo trabalho, referindo-se à maneira pela qual as mulheres aparecem na literatura, Woolf assinala:

“Todas estas relações entre mulheres, pensei, recordando rapidamente a esplêndida galeria de personagens femininas, são simples demais. Muita coisa foi deixada de fora, sem ser experimentada. E tentei recordar-me de algum caso, no curso de minha leitura, em que duas mulheres fossem representadas como amigas. Há uma tentativa em Diana of the crossways. Há confidentes, é claro, em Racine e nas tragédias gregas. Vez por outra, são mães e filhas. Mas, quase sem exceção, elas são mostradas em suas relações com os homens. Era estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas somente em relação ao outro sexo. E que parcela mínima da vida de uma mulher é isso!”

A passagem carrega uma crítica radical cuja importância talvez não tenha ainda sido suficientemente destacada. Virgínia Woolf está nos dizendo que os homens possuem uma visão distorcida sobre as mulheres e que esta distorção, uma vez transposta para a cultura, “naturaliza- -se”, fortalecendo os estereótipos. Um parágrafo, em síntese, no qual é possível antever toda a moderna crítica feminista.

É preciso retomar e atualizar esta perspectiva crítica para construir um mundo onde a igualdade entre homens e mulheres seja mais do que uma formalidade jurídica. Para isto, é preciso estar atento à produção cultural. O teste de Bechdel (Bechdel Test, Bechdel-Wallace Test ou Mo Movie Measure) é um instrumento que pode auxiliar esta tarefa. O nome foi dado em homenagem à cartunista americana Alison Bechdel que, em uma de suas histórias em quadrinhos, tratou da forma como as mulheres são retratadas no cinema. O teste de Bechdel tem sido aplicado basicamente a filmes, mas pode valer para outros produtos culturais. Para que a obra “passe no teste” é preciso atender a três critérios:

1) Deve incluir pelo menos duas mulheres com nomes próprios…

2) que devem manter pelo menos uma conversação…

3) sobre qualquer coisa que não se refira a homens.

Simples, não? Aparentemente, tais pontos não ofereceriam qualquer dificuldade. O que ocorre, entretanto, é que a maioria dos filmes não passa no teste. Sejam filmes bons ou ruins, o que os resultados evidenciam é que o paradigma da indústria cultural segue sendo basicamente masculino e heterossexual, ainda quando os filmes possuem personagens femininas fortes. Seria possível, ainda, com razão, acrescentar a palavra “branco” neste paradigma, o que, entretanto, avançaria para além de nosso tema aqui.

O teste não é suficiente para uma avaliação da qualidade das obras, nem tem esta pretensão. Um determinado filme, por exemplo, pode cumprir os três requisitos e seguir sendo sexista ou misógino. O reverso também é verdadeiro. Um filme que não passe no teste pode até ter um sentido geral feminista (embora seja pouco provável que isto ocorra). O que importa no teste é o padrão. Se a maioria das obras não cumpre os três quesitos, estamos diante de outro fenômeno quase sempre invisível: os fatos são narrados de acordo com um olhar masculino. Trata-se de uma “leitura” do mundo, mas não no sentido de que toda obra é uma interpretação e, portanto, a criação de uma nova realidade. O problema consiste, precisamente, em perceber o quanto há de reprodução irrefletida de sentidos aqui, processo pelo qual metade dos seres humanos aparece não a partir dos seus olhares e sensibilidades, mas a partir do olhar do outro; daquele que, historicamente, impediu que as mulheres alcançassem a plenitude de sua condição humana.

Uma parte importante da violência contra as mulheres, uma parte da obstinada vocação de tantos homens ao domínio e à opressão cotidiana, uma parte da covardia dos que ameaçam, dos que gritam, dos que agridem e dos que matam começa no sequestro cultural da subjetividade feminina. Não se trata do filme, então, mas da vida.

* Jornalista, sociólogo e professor do IPA.

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