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Nº 182 | Ano 19 | Abr 2014
WEISSHEIMER

A Primavera Árabe e o fracasso das revoltas 2.0

Por Marco Weissheimer

No dia 24 de março um tribunal egípcio condenou à morte 529 membros da Irmandade Muçulmana, sob acusações de homicídio e outros supostos crimes cometidos contra o governo militar que derrubou o primeiro presidente democraticamente eleito da história do país, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Desde o golpe desferido no dia 3 de julho de 2013, milhares de seguidores do grupo foram detidos e dezenas deles condenados, mas até agora a pena de morte não tinha sido decretada. O veredito representa a maior condenação em massa à pena capital na história moderna do Egito, segundo advogados envolvidos no caso, e deve contribuir para um aumento da instabilidade no país. Além disso, anuncia um desfecho trágico para a chamada Primavera Árabe, apontada por alguns como um exemplo de um novo tipo de revolução fortemente baseada na internet e nas novas tecnologias da informação.

Até o final do ano passado, havia um grande entusiasmo em setores da esquerda pelas potencialidades abertas pelas revoltas 2.0, que estavam levando milhões de jovens para as ruas em várias cidades do mundo. O saldo político dessas revoltas até aqui, porém, é profundamente conservador. A grande revolução da praça Tahir, que derrubou o ditador Hosni Mubarak, acabou fazendo um círculo, devorando sua própria criação, um governo eleito pelo voto, e entregando de novo o poder a uma ditadura militar, que agora condena seus opositores à morte, podendo lançar o país numa guerra civil.

A instabilidade política anda de mãos dadas com a deterioração econômica. Segundo a agência oficial de estatísticas do Egito, Capmas, o desemprego no país chegou a 12,7% da população economicamente ativa em 2012. Cerca de 242 mil pessoas perderam o emprego no ano passado, o que elevou para 3,4 milhões o total de pessoas sem trabalho no país.

A Primavera Árabee o fracasso das revoltas 2.0

Ilustração: Ricardo Machado

Ilustração: Ricardo Machado

 

Sistema financeiro está “protegido”da democracia
As manifestações de rua, seja no Egito, na Espanha, na Ucrânia, Turquia, Venezuela ou Brasil estão ocorrendo neste contexto. Elas não são fenômenos a históricos, descolados da atual situação econômica e política internacional. E esse quadro vem registrando avanços conservadores na Europa e uma tentativa da direita latino-americana recuperar o terreno perdido na última década.

Para Francisco Louçã, um dos fatores-chave para se acompanhar essa conjuntura é o sistema financeiro internacional, um sistema que tem a particularidade de estar totalmente “protegido” da democracia. “Os governos podem ser substituídos, sob a condição de que qualquer governo obedeça ao sistema financeiro, cobrando de seu povo o custo da dívida crescente”, observa o economista e dirigente político do Bloco de Esquerda em Portugal.

Esse sistema, até aqui, permanece intocado diante das revoluções ou revoltas 2.0. Elas vêm produzindo muito barulho e gerando muitas expectativas, mas, objetivamente, até aqui, só tiveram como resultado político o fortalecimento dos setores mais conservadores. O que está acontecendo no Egito é a face mais trágica e preocupante
desse fracasso.

O avanço da extrema-direita na Europa
Na Espanha, outro país que foi cenário de grandes manifestações de rua, a direita venceu as eleições e o país segue mergulhado hoje em uma grave crise econômica. Na França, a Frente Nacional, de extrema-direita, consolidou-se como um dos partidos mais votados nas eleições municipais realizadas em março deste ano, vencendo em pelo menos seis cidades e elegendo cerca de 1.200 vereadores. Há partidos neonazistas com representação parlamentar na Grécia e, agora, no novo governo da Ucrânia.

Na avaliação do economista português Francisco Louçã, o que estamos vendo hoje na Europa é a implementação de um processo de extração de mais valia absoluta dos trabalhadores, com corte de salários, aumento de impostos, diminuição de aposentadorias e aumento da jornada de trabalhadores. Ou seja, todos estão sendo convocados a trabalhar mais e a ganhar menos. Isso no caso de quem tem trabalho, é claro. Os números sobre o desemprego na Europa são estarrecedores.

Segundo dados da agência de estatísticas Eurostat, o índice de desemprego dos 27 países da UE atingiu 9,8% em outubro de 2012, o maior patamar da série histórica, iniciada em 1995. São 23 milhões sem emprego e esse número já aumentou. A maioria (cerca de 16 milhões) está nos 17 países que compõem a zona do euro, cujo índice atingiu 10,3%, o maior desde a criação do euro, em 1999. No final de 2012, a Espanha apresentou o impressionante índice de 22,8%. Superou até a Grécia, que registrou desemprego de 17,7% no terceiro trimestre. Não parece ser casual o crescimento da extrema-direita neste cenário.

Alguns países, como a Grécia, assinala ainda Louçã, vivem uma situação de catástrofe social que coloca o mundo inteiro frente a uma situação muito perigosa. Quando houve a primeira grande depressão, nos anos 1930, ela produziu o fascismo, o nazismo e a guerra. Há autores que acreditam que estamos começando a viver uma segunda grande depressão. Em alguns países, como Portugal, Grécia e outros, estamos no nono trimestre de recessão, no terceiro ano consecutivo de recessão. Estamos, portanto, diante de um quadro perigosíssimo do ponto de vista social e político.

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