Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 184 | Ano 19 | Jun 2014
MARCOS ROLIM

Minha Empregada

Por Marcos Rolim

Minha Empregada

Ilustração

Ilustração

As desigualdades sociais sempre foram tão impressionantes no Brasil que as famílias mais bastadas, tanto quanto as de classe média, tiveram à disposição, além de uma série de privilégios, uma ou mais empregadas domésticas. Formou-se, assim, um mercado muito especial – sempre marcado por extraordinária precariedade – para a prestação de serviços de cozinha, limpeza e manutenção, além daqueles da guarda de idosos e do cuidado das crianças. Por esta circunstância histórica, parte expressiva de nossas elites nunca precisou perder seu tempo com o trabalho braçal, sequer em seu espaço privado.

As servas modernas, agenciadas por um capitalismo de opereta, costumam, como se sabe, não ter horário definido de trabalho e, não raro, dormem no emprego, respondendo a todas as demandas até que seus amos adormeçam. São exploradas como se vivessem em uma gleba medieval, resultado facilitado pelo mascaramento das relações profissionais e pelo conveniente mito de que seriam “quase” integrantes da família. Às adotadas, entretanto, se reservou entradas laterais, elevadores de serviço e banheiros convenientemente afastados das áreas de convívio e circulação. “Quase da família”, ma non tropo.

A servidão doméstica só se tornou possível por conta do exército de reserva entre os desvalidos e os sem educação formal, o que rebaixou o valor da força de trabalho e permitiu que qualquer dondoca se considerasse benemérita pelo simples fato de empregar mulheres muito pobres, a maioria delas negras e pardas. Ao contrário da tradição dos países de língua inglesa onde se estimula a cultura do “faça você mesmo” (“do it yourself”) e da grande maioria das democracias desenvolvidas onde serviços de limpeza e manutenção são oferecidos por empresas ou por profissionais – homens e mulheres – que chegam às residências dirigindo os seus carros e cobram por hora de serviço (e bem), nossas elites se acostumaram em oferecer migalhas em troca de uma vida de roupas passadas, pratos lavados, chão escovado, banheiros higienizados, jardins bem cuidados e comidinha de boa qualidade servida à mesa, não raro ao comando de sinetas.

Nos últimos anos, graças à elevação real do salário mínimo e da introdução de garantias trabalhistas às empregadas, o mercado da servidão tem se reduzido. É possível que, no futuro, tenhamos em torno das tarefas domésticas relações efetivamente profissionais, com trabalho regular e contraprestação salarial, carteira assinada, hora-extra, licença-maternidade etc.

Por enquanto, importa perceber a herança de desrespeito e humilhação contra a Senzala reproduzida na escala moral da Casa Grande. Para isso, vale acessar a página do Twitter A Minha Empregada ou o perfil do Facebook. Ambos os espaços foram criados para denunciar o conteúdo racista e violento de postagens a respeito das empregadas domésticas que circulam pelas redes sociais. Na verdade, não há nada nelas sobre as empregadas, mas muito sobre seus patrões e seus filhotes fascistas. Há quem poste coisas como:

@familybieberbr:“eu to aqui no ar condicionado e to de porta fechada e dai a anta da minha empregada ao invés de bater na porta ela abre com tudo”.
@dopedoardo: “minha empregada abriu a janela do meu quarto a luz do sol entrou quase fiquei cego 100 chicotadas nessa preta”.
@CaaueDias:“minha empregada é muito vadia ela foi lava a minha berma da hang loose e tinha uma caneta no bolso que eu esqueci ai ta toda manchada” .
@marcellalops: “Minha empregada não chega, disse que tá sem ônibus, minha casa tá imunda vadia vem andando!!”

Não são uns amores? Boa parte dos que postam coisas do tipo nas redes sociais são adolescentes. Quase todos são estudantes. Há coisa ainda pior, claro. Quem tiver estômago, pode conferir páginas no Facebook como “@NãoSouHomofobico” e “@NãoSouRacista” que fazem o mesmo tipo de denúncia, mostrando o tipo de discurso de ódio que se amplia pela internet.

Fico pensando, o que ensinam a estes jovens nas escolas? Serão seus professores tão alienados a ponto de não perceber a dimensão do abismo moral em que rastejam esses alunos? É claro que uma dimensão tão desavergonhada de racismo e violência só pode se produzir mediante um compartilhamento de valores familiares.

Quando um adolescente prescreve chibatadas para sua empregada negra, é a Casa Grande inteira que fala por ele. Mas, precisamente por isso, é que a escola é decisiva. Para que a herança de barbárie não se imponha pelo silêncio. Para tanto, não basta ensinar fórmulas, datas ou regras gramaticais. É preciso ensinar civilização e transmitir humanidade, o que se faz com professores comprometidos com estes valores.

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