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Nº 185 | Ano 19 | Jul 2014
MARCOS ROLIM

Impaciência do juízo

Por Marcos Rolim*

Impaciência do juízo

Ilustração: Pedro Alice

Ilustração: Pedro Alice

Há um fenômeno novo na cultura traduzido pela impaciência do juízo. Ele se tornou visível nas redes sociais, em comentários insensíveis e superficiais, mas diz respeito, muito provavelmente, a dinâmicas mais amplas, relativas a nossa época.

Refiro-me à circunstância disseminada que autoriza as pessoas a emitirem opiniões definitivas sobre qualquer tema, incluindo aqueles que não conhecem sequer por aproximação.

O debate público exige que os participantes tenham presente, de início, seus campos de ignorância. Somos todos ignorantes sobre muitas coisas e ter uma ideia – aproximada, pelo menos – daquilo que ignoramos é muito útil (digo “aproximada”, porque é impossível mesmo para o mais sábio ter uma real dimensão do que ignora).

Há, aliás, uma dialética entre o conhecido e o desconhecido que se manifesta pela ampliação do campo do não saber a cada novo conhecimento alcançado. Saber mais amplia também as fronteiras do desconhecido, o que permite situar a tragédia do ignorante completo que sequer suspeita o que não conhece.

A precaução frente ao desconhecido nos afastará do arrependimento daquele que se descobre titular de posição infame e que se tornou pública por ausência de equilíbrio ou autocrítica. Defini vários destes campos, há muito, como áreas para meu silêncio. Eles envolvem temas cruciais como, por exemplo, a economia. Por isso, não escrevo sobre o livro de Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, nem sobre como evitar os riscos inflacionários. Se o fizesse, seria uma fraude. A mesma precaução vale para muitos outros campos, do conflito na Ucrânia à física quântica, passando pelas Guerras Púnicas, pela fórmula de Bhaskara ou pelo Aquífero Guarani.

As pessoas de bom senso parecem seguir este mesmo cuidado. Elas falam sobre temas que conhecem razoavelmente e sobre assuntos que dominam. Sabem que há sempre algo de muito incerto no que conhecem e espaços suficientes para revisar o que é tido como incontroverso mesmo em suas especialidades. Quando estas pessoas interagem sobre questões de natureza política e moral, então, são as primeiras a admitir a provisoriedade de suas intuições. Não casualmente, pessoas de bom senso valorizam a escuta e argumentam respeitosamente.

É preciso estar atento, entretanto, para como estão se comportando as pessoas de “mau senso”, até porque elas podem ser a maioria. O que as diferencia parece ser, primeiramente, a incapacidade de se surpreenderem. Para elas, tudo está já completamente explicado e compreendido. Para cada fenômeno complexo, o mau senso identifica uma causa simples. Os mistérios se dissolvem no juízo impaciente e o próprio argumento é dispensável porque o mau senso não suporta a razão crítica. Ele só sobrevive na atmosfera lodosa do preconceito, no ambiente tortuoso das acusações sem provas, na gramática mortificada pela repetição dos chavões e no charlatanismo das receitas que curam tudo, do crime à asma, da crise energética ao ataque do Grêmio.

Por infelicidade nossa, parte importante da mídia no Brasil – e não apenas entre a mídia tradicional – aposta no mau senso. O juízo impaciente não dialoga, sentencia. Não oferece evidências que o amparem e despreza solenemente a ciência. Pessoas com este mau senso tomam como suficientes suas próprias experiências, como se elas fossem capazes de revelar “a verdade”. O mau senso sequer desconfia que o sentido da experiência não reside nela e que todo o sentido é sempre uma atribuição precária feita pelo sujeito. Que a verdade sobre o que se passa traduz, também e sobretudo, os limites de nossos esquemas de conhecimento, nossos valores culturais e os “pontos cegos” pressupostos.

Assim, se todo ponto de vista é a vista desde um ponto, então importa muito a multiplicação destes pontos e a relação entre eles em um espaço público permeado pela lógica argumentativa ao invés de pelos ataques pessoais (Argumentum ad hominem). De onde, a propósito, deriva a relevância da democracia como o regime político capaz de diminuir a margem de erro pelo fortalecimento e pela qualificação do debate público. As campanhas eleitorais que se aproximam deveriam ser o ponto culminante para este debate, em torno de programas de governo e de dados concretos sobre políticas públicas, reformas necessárias e desafios a serem vencidos. Tudo leva a crer, entretanto, que elas serão novamente uma disputa impiedosa pelo juízo impaciente. É possível contribuir para contrastar esta tendência? O que podemos oferecer como professores e cidadãos?

*Jornalista, sociólogo e professor do IPA.

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