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Nº 187 | Ano 19 | Set 2014
POLÍTICA

A grenalização das urnas

Entre várias questões, está em jogo, principalmente, de que forma o próximo governo tratará as finanças do Estado e uma dívida bilionária, cuja origem remonta ao governo Britto
Por Flávio Ilha

A grenalização das urnas

Foto Tarso: Alina Souza/Palácio Piratini / Foto Ana Amélia: Geraldo Magela/Agêcia Senado

Foto Tarso: Alina Souza/Palácio Piratini / Foto Ana Amélia: Geraldo Magela/Agêcia Senado

Polarizada e ainda indefinida, a eleição de 2014 no Rio Grande do Sul promete tra­zer de volta a velha grenalização da política gaúcha – como se nós não pudéssemos viver sem um antagonista, sem um Gre-Nal, sem uma boa briga para mostrar o quanto somos diferen­tes. Depois das “novidades” de 2006 e 2010 – respec­tivamente quando Yeda Crusius (PSDB) venceu, de­pois de aparecer nas primeiras pesquisas com menos de 5% dos votos, e após Tarso Genro (PT) bater os adversários já no primeiro turno, um feito inédito na nossa história – é hora de retomar a trajetória de du­alidade. Tarso, que tenta a reeleição, e a senadora Ana Amélia Lemos (PP), além de aparecerem empatados tecnicamente , representam projetos totalmente dis­tintos de política, gestão e estilo. Não é pouco.

Em 2006, a tucana Yeda Crusius apareceu como uma miragem de terceira via e empolgou os eleitores na reta final da campanha – a candidata nunca apareceu como favorita nas pesquisas. Fez um governo conservador, se envolveu em denúncias de corrupção, virou ré e, quatro anos depois, sequer foi ao segundo turno. Em 2010, a opção de esquerda moderada de Tarso Genro venceu no primeiro tur­no – fato até então inédito no Rio Grande do Sul – mas não conseguiu fazer um governo marcante e, a um mês da eleição, ainda corre atrás da conserva­dora Amélia Lemos.

É bom lembrar, também, que nunca o estado reelegeu um governador desde a primeira eleição da era democrática, em 1982. A polarização entre dois candidatos, histórica nos pleitos gaúchos, não acon­tecia com tanta força no primeiro turno desde 1998, quando duelaram o desafiante Olívio Dutra (PT) e o então governador Antônio Britto (PMDB), can­didato à reeleição. E a briga não se resume ao gover­no. Está também na eleição para o Senado, na qual Olívio Dutra (PT) e Lasier Martins (PDT) estão tecnicamente empatados e à espera dos índices de Pedro Simon (PMDB), confirmado no dia 25 de agosto como candidato – a 40 dias da eleição.

A professora de pós-graduação em Ciência Po­lítica da Ufrgs, Silvana Krause, aponta o comporta­mento dos eleitores nas duas últimas eleições como sendo surpreendentes. “O acirramento no estado não é novidade e a tendência é de que a polarização se mantenha. As últimas eleições é que foram exce­ções à regra. Para que a divisão em dois blocos vol­tasse com força ao pleito gaúcho, foi determinante a postura dos candidatos. Nenhum deles se apresenta com convicção como uma terceira via e, sendo as­sim, o debate fica centrado em posições contrárias ou favoráveis a determinadas políticas públicas”, ex­plica.

A questão da dívida do estado, por exemplo. Negociada em 1998 pelo então governador Antô­nio Britto, apareceu como um problema solucio­nado mas, passados 15 anos da assinatura do con­trato, o fantasma se tornou ainda maior. A dívida consolidada (estoque) é duas vezes maior do que a receita anual do estado. Em nenhum outro estado o nível de endividamento é tão alto. Segundo dados da Secretaria da Fazenda, a conta já ultrapassou R$ 47,1 bilhões. E nesse valor não estão incluídos os precatórios (R$ 4 bilhões) e nem o déficit anual do Instituto de Previdência do Estado (IPE), ainda que o Rio Grande do Sul tenha passado a última década pagando 13% de sua receita corrente líquida – ou algo em torno de R$ 2,7 bilhões ao ano – para a União a título de pagamento da dívida. Quando foi renegociada, a dívida era inferior a R$ 5 bilhões.

A forma de abordar esse problema é sintomá­tica do nível de polarização da atual disputa eleito­ral. Enquanto Ana Amélia defende um choque de gestão no estado, com a fórmula ambígua de “não gastar mais do que arrecada”, Tarso diz que a re­negociação desse passivo está bem encaminhada e permitirá que o Rio Grande desafogue suas finan­ças a partir de 2015 “O projeto de renegociação da dívida, com a troca do índice de reajuste do INPC para o IPCA, será votado em novembro, pelo acordo que fizemos com a base do governo. Isso baixará o montante da dívida em R$ 15 bilhões, o que é uma ótima notícia porque nos dá margem de obter mais financiamentos externos para investir em infraes­trutura” afirma o governador.

Ana Amélia retruca e diz que o “alinhamen­to das estrelas” – figura de linguagem usada pelo PT na eleição de 2010, que indicaria vantagens na relação entre governos do mesmo partido em ní­vel estadual e federal – não trouxe avanços para a solução do problema. “Por que, em quatro anos, os governos petistas não fizeram as mudanças neces­sárias na questão da dívida? A sangria nas finanças do estado causada pelos juros compromete as ações públicas do Rio Grande do Sul” critica.

Apesar das negativas públicas de praxe, tanto Ana Amélia como Tarso sabiam que seriam can­didatos bem antes de 2014. A senadora, que em 2010 anunciou que cumpriria apenas um mandato no Senado, adotou a estratégia de escolher o go­verno petista como adversário. A candidata bate nas mesmas teclas da receita neoliberal: promete diminuir o número de secretarias e de cargos em comissão, acena com a implantação de parcerias público-privadas em diferentes áreas, tem afini­dade com o agronegócio e a simpatia dos princi­pais setores empresariais do Rio Grande do Sul. O bordão preferido da candidata é de que o estado deve se comportar como se fosse uma unidade de economia doméstica: não gastar mais do que o or­çamento permite.

Na outra ponta, Tarso carimba Ana Amélia como candidata de direita. O governador aponta um caminho absolutamente diverso: diz que vai manter o estado forte e fazer parcerias público-pri­vadas somente quando elas forem vantajosas para o poder público. Sempre que tem oportunidade, associa a adversária aos governos de Antônio Brit­to (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB). O primeiro é lembrado pela política de privatizações, incluindo a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) e de parte da CEEE. Yeda, por sua vez, é mencionada devido aos seguidos escândalos de corrupção – o mais célebre deles envolvendo desvio de recursos públicos no Detran.

O PMDB, por sua vez, demo­rou a apresentar uma candidatura ao governo e, ainda por cima, se dividiu em relação à eleição presi­dencial. José Ivo Sartori, que tem perfil discreto e pouco interesse em polêmicas, tem como princi­pal bandeira duas gestões à frente da prefeitura de Caxias do Sul – pouco para a dimensão do desafio. “Estou em uma campanha eleitoral e não em um ringue de boxe. E vou continuar assim, apresentando propos­tas e me recusando a fazer críticas mais contundentes. Nossa campa­nha é proposi­tiva” afirma.

Mesmo por esse cami­nho é pequena a possibilidade de Sartori desempenhar um bom papel nas eleições. Em relação à segurança pública, um dos temas que mais aflige os gaúchos, é evasivo: o candidato propõe que os órgãos do go­verno trabalhem de forma integrada “para evitar desperdícios e melhorar a qualidade do serviço”. Sartori também propõe que o estado aumente o efetivo policial, mas não explica como isso poderia ser feito diante da penúria das finanças públicas.

O candidato do PDT, Vieira da Cunha, se apresenta como oposição a Tarso depois de ter apoiado o candidato do PMDB em 2010 e de ter participado do governo até pouco antes da eleição. Além disso, aliou-se ao DEM e ao PSC – legen­das ultraconservadoras – e já avisou que não apoia a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) – apesar de decisão contrária do Diretório Nacional dos trabalhistas. Vieira diz que fará um “governo austero” e se recusa a assumir compromissos po­lêmicos, como o pagamento do piso nacional do magistério.

“Eu não tenho, hoje, como assumir o compro­misso de que vou pagar o piso porque essa situação de precariedade, de desorganização, de caos das finanças públicas impede que eu ou qualquer can­didato sério e responsável assuma esse tipo de com­promisso. O que nós podemos assumir, desde já, é que nós vamos tomar todas as medidas necessárias para que o Rio Grande do Sul possa recuperar seu equilíbrio financeiro e, assim, cumprir suas obriga­ções, começando pela lei federal do piso nacional do magistério” argumenta Vieira da Cunha.

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