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Nº 200 | Ano 20 | Dez 2015
ECARTA
ARTIGO

Vinho: cultura além do cálice

Se os registros dão conta da presença de uma bebida milenar enquanto produto consumido em todos os cantos do mundo, há aspectos que vão além do que vemos no cálice e que é a essência da cultura do vinho
Por Doris Couto* e Rinaldo C Dal Pizzol**

Na Antiguidade, o vinho era utilizado como medicamento. Na Idade Média passou a ser aromatizado com ervas como o tomilho, que diziam ser ótimo para combater a anemia, fazendo-se muito popular. Não se pretende aqui entrar no mérito da cura pelo uso do vinho de qualquer que seja o acometimento do corpo, apenas fazemos refe­rência enquanto um aspecto da cultura popular desde os tempos mais remotos da existência humana.

Se os registros dão conta da presença de uma be­bida milenar enquanto produto consumido em todos os cantos do mundo, há aspectos que vão além do que vemos no cálice e que é a essência da cultura do vinho.

Ecomuseu da Cultura do Vinho, em Bento Gonçalves

Foto: Fabiano Mazzotti/Acervo Instituto R Dal Pizzol

Ecomuseu da Cultura do Vinho, em Bento Gonçalves

Foto: Fabiano Mazzotti/Acervo Instituto R Dal Pizzol

O cultivo das vinhas em escala produtiva volta­do à elaboração desta bebida rende paisagens únicas as quais podemos atribuir o conceito de paisagem cultural; aquela formada, em caráter de singularida­de, a partir da intervenção do homem na natureza, em geral fruto do trabalho de ocupação do território e provimento de seu sustento, aliando a transfor­mação paisagística a seus modos de vida. Estas pai­sagens vêm sendo reconhecidas pela Unesco como patrimônio da humanidade. Várias delas são paisa­gens vitivinícolas de regiões da França, Portugal, Alemanha, Hungria e Itália.

Destes modos de produzir, do alimentar-se, do interagir com outros grupos sociais, da preservação de hábitos originários da pátria-mãe, ainda que estes so­fram influências das outras culturas através do tempo, vindo a hibridizar-se, as regiões gaúchas de produção do vinho são um importante lugar de produção sim­bólica, de sentidos e de paisagens únicas no mundo.

Se por um lado o resultado da labuta, da produ­ção e da sociabilidade gera materialidades que vão desde as ferramentas mais rudimentares para arar a terra aos territórios mais surpreendentes, há aspec­tos desta cultura que habitam o mundo das ima­terialidades como o talian – a primeira língua de ori­gem europeia oficializada como segunda língua do Brasil ou a própria gas­tronomia ‒ nos seus jeitos específicos de preparo. Estes acervos de memó­rias imateriais vão sendo em geral transmitidos en­tre as gerações familiares.

Bento Gonçalves, na vivência dos italianos que a desbravaram, a partir de 1875, vem, por esforço de muitos dos seus habitantes/imigrantes, cuidando destas memórias através de produções literárias, re­gistros pictóricos e fotográficos incontáveis e de es­paços com acervos, por vezes modestos e detentores de raridades, por outras estruturados nos padrões requeridos pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), como o Ecomuseu da Cultura do Vinho, idealizado e mantido pelo Instituto R Dal Pizzol e Dal Pizzol Vinhos Finos.

No âmbito dos registros bibliográficos da cul­tura do vinho, recentemente o Instituto lançou a obra Memórias do Vinho Gaúcho, de autoria de seu presidente, Rinaldo Dal Pizzol e Sérgio Inglez de Souza, especialista em vinhos.

Contudo a cultura do vinho está rodeada de questões como as formas de apreciação da bebida, envolta em rituais, que se inserem no contexto cultu­ral e se diversifica a depender da região onde a bebida é consumida: nascem neste ambiente as harmoniza­ções entre tipos de vinhos e gastronomia, fazendo desta uma arte requintada e cada vez mais apreciada.

Os viajantes que se deslocam para regiões produtoras buscam nesses lugares os vestígios da produção em todo o seu ciclo, não se satisfazendo apenas com o líquido vinho que lhes pode ser ofer­tado; buscam as emoções do vinho, suas memórias, história e acima de tudo seus personagens, ritos e símbolos – realmente representativos desta, que é uma atividade econômica, geradora de desenvolvi­mento, fixação do homem em seu território, e da afirmação de suas identidades, onde a propriedade é ao mesmo tempo fonte de renda e elo de vida com os antepassados e a pátria-mãe.

Por mais que o processo de industrialização venha se modernizando, a ciência e a tecnologia aportando novos conhecimentos potencializadores da produti­vidade e da qualidade do vinho, este sempre será um produto carregado de afetividades e cultura indissociá­veis de sua elaboração, ainda que moderna e desenvol­vida em vinícolas assentadas em prédios cada vez mais glamorosos, permanecerá indelével a lembrança da uva amassada com os pés para a produção do mosto, pro­cesso mais histórico de que se tem notícias.

* Produtora Cultural, graduanda em Museologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
**Economista, presidente do Instituto R Dal Pizzol, pesquisador da Cultura do Vinho.

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