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Nº 203 | Ano 21 | Mai 2016
FRAGA
COLUNISTA

Nomes, names, nombres

Nomes, names, nombres

Ilustração: Sica

Ilustração: Sica

Homófobo é um hidrófobo que não lembra que é composto de 70% de água.

Tenho uma tese (são trocentas mas agora só cabe uma): não é só anatomia que é destino (segundo o Sigmund, que não ousou imaginar a vinda de transgêneros). Nome de batismo também pode ser.

Que tal William Shakespeare? 400 anos de bagagem a partir da perfeita junção de um prenome muito comum e um sobrenome nem tanto. Tire o William, ponha Maicon, Maicon Shakespeare. Agora teste quantas peças clássicas do bardo resistem à nova autoria. Ouça as vaias.

O próximo na minha tese é outro quatrocentão, Miguel de Cervantes. Leia alguém como Miguel Decer Vantes. Não cola: Dom Quixote encalharia na primeira edição!

Na ficção, nome é tudo. Basta trocadilhar um casal e a tragédia vira comédia, o maior amor do mundo acaba nas declarações: – Eu te amo, Rometa Capulecchio! – Eu também, Julieu Monteto!

Mas há exceções, claro. Os pioneiros nas proezas espaciais, até com pilhéria soariam como nomes eternos. A gente inverte os heróis, e a memória e a homenagem continuam: Neil Gagarin e Yuri Armstrong. Lembra deles?

Além de Fraga, sou Guaraci, sol em tupi-guarani. Guaraci encontrei muitos e algumas Guaraci me encontraram. Uma delas, vizinha e mais velha, era mais que Guaraci – era dona Guaraci. Diante dela, meu Guaraci se desorganizava, a Guaraci dela comandava. Perto dela, minha masculinidade se ambiguava, até uma voz mental murmurar: Guaraci, essa dona Guaraci, com esse nome, também não é muito feminina. A identidade se firmou na raridade desses encontros: desde o outro século nunca mais vi esses e essas Guaracis hermafroditas. Quase não há mais senhor Guaraci nem senhora Guaraci, dubiedades nominais fora de moda. Minha mãe, que escolheu Guaraci, quase incluiu uma Guaraci na família. Fomos salvos, o irmão mais velho e a irmã caçula, pelo anagrama também indígena: Guacira, um amor de pessoa.

Idem as coisas: elas dependem muito do rótulo vocabular perfeito, exato. E se em vez de socorro fosse mixórdia? Calcule a mortandade por falta de ajuda. Se se chamassem paralelepípedos, os merengues seriam tão deliciosos? Trégua pede paz mas eu acho que anágua pacificaria muito mais. Extraordinário é quando algo inominável ganha pronúncia, como trique-trique rolimã – não diz nada nem carece explicação.

Na audácia da denominação, até pra dar nome aos bois ou passarinhos há que ter noção. Pra você confirmar o poder dos nomes, avalie comigo: não é bom que o papa seja Francisco e o Jair, Bolsonaro? Puizé.

 

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