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Nº 211 | Ano 22 | MAR 2017
FRAGA
COLUNISTA

Herança

Eu, Estados Unidos do Brasil, vulgo Pindorama, 516 anos, residente na América do Sul, venho a público declarar o que segue.

Tendo em vista a situação precária em que me encontro (com doenças endêmicas e epidêmicas, falido e combalido, inseguro e desgovernado) resolvi antecipar meu testamento. Vai que eu não resista numa emergência do SUS ou seja novamente golpeado nas eleições de 2018.

Do que resta do meu pobre e vilipendiado patrimônio, determino assim a partilha aos seguintes destinatários:

Aos sem-terra, deixo todos os latifúndios improdutivos que o Incra há décadas mantém intocáveis. Além dessas grandes áreas, deixo também glebas, acres, hectares, campinhos e quaisquer terrenos baldios, sejam nas áreas urbanas ou na zona rural. Será, enfim, uma reforma agrária, ainda que póstuma.

Ilustração: Sica

Ilustração: Sica

Aos sem-teto, deixo como abrigo definitivo todo o conjunto dos prédios dos ministérios em Brasília, quase sem serventia atualmente. Também o Senado e a Câmara, todas as Assembleias Legislativas estaduais, idem as câmaras municipais, ambientes pouco frequentados e muito mal aproveitados.

Aos povos indígenas, deixo toda a Amazônia e arredores, mais as minhas matas, bosques e matagais, meus rios e cascatas, onde a Funai não mais terá gerência, ingerências, nem a incompetência das demarcações.

Aos sem  transporte, deixo minha desconjuntada malha ferroviária, para que seja recuperada e usufruída pela população sem carro.
Além dos trens, transfiro aos pedestres todas as concessões do transporte público, para pôr fim à interminável e injusta exploração do empresariado abusado.

Aos alunos, estudantes e professores, deixo toda a rede de escolas públicas (municipais, estaduais, federais) para começarem uma experiência de autogestão, inclusive com a adoção do modelo escola com partido. As universidades federais e estaduais também passam para a livre gestão do corpo docente e discente.

Aos desfavorecidos deixo a liberdade de aproveitar meus restos mortais, como matérias primas e recursos naturais, e assim produzir riquezas para todos, tal como antes das capitanias hereditárias. Que seja o fim desse maldito dna.

Para a classe política não deixo nada, pois já me tirou tudo: a saúde, a educação, a segurança, até a esperança.

Essa é a minha vontade, com a qual firmo este documento.  (Se eu vier a faltar, cumpra-se.)

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