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Nº 216 | Ano 22 | AGO 2017
EDITORIAL

Temer comprou arquivamento na Câmara por R$ 4,2 bi

O exemplo extremo de que nossos mandatários parecem viver num planeta diferente daquele onde vivem seus súditos são os discursos e as práticas

O exemplo extremo de que nossos mandatários parecem viver num planeta diferente daquele onde vivem seus súditos são os discursos e as práticas.

Tivemos uma mostra disso na noite de 2 de agosto, quando o presidente Michel Temer, logo após a Câmara dos Deputados rejeitar a denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) por 263 votos a 227, por ter sido flagrado em conversa clandestina com o empresário Joesley Batista em temas nada republicanos, discursou à nação, alegando tratar-se de uma vitória do povo e não uma conquista pessoal.

Ele falou com desenvoltura para a nação como se os votos dos deputados não tivessem custado bilhões em emendas para as regiões dos parlamentares e cargos, sem contar todo tipo de chantagem feita a céu aberto e nenhum pudor.

Mas quando Temer fala à nação em nome da democracia deixa de dizer que o engavetamento das acusações teve um alto custo financeiro para o governo, em uma sessão tumultuada e repleta de acusações proferidas por deputados da oposição de que houve compra de votos por parte do governo para que parlamentares se alinhassem à base governista. De acordo com a Organização Não Governamental (ONG) Contas Abertas, entre o início de junho e o final de julho, foram liberados mais de R$ 4,2 bilhões para os deputados. Em um comparativo, no período de janeiro até maio, antes de o caso da JBS vir à público envolvendo diretamente o presidente Temer, o governo havia liberado um montante de apenas R$ 102,5 milhões.

Durante a própria realização da sessão, há informações de que representantes do Planalto ainda negociavam a liberação de emendas parlamentares para garantir a votação favorável ao arquivamento da denúncia. Não por coincidência, Temer exonerou dez ministros de seu governo, para que eles retornassem à Câmara a tempo de votar pelo arquivamento da denúncia. Teve até deputado preso em regime semiaberto, Celso Jacob (PMDB-RJ), que saiu da cadeia para votar a favor de Temer, emitindo um singelo “Sim”. Ele atua na Câmara durante o expediente e se recolhe ao presídio após o trabalho.

Ainda assim, o presidente foi para a frente das câmeras após a sessão, sereno, como de costume, gesticulando, as mãos parecem ter vontade própria enquanto fala e sempre se movem de forma estranha ao corpo: “quero fazer um breve pronunciamento no dia em que a Câmara dos Deputados, que representa o povo brasileiro, manifestou-se de forma clara e incontestável. A decisão soberana do Parlamento não é uma vitória pessoal de quem quer que seja, mas é uma conquista do Estado democrático, da força das instituições e da própria Constituição”. Claramente, queria dizer que o resultado não era uma medida para livrar-lhe do STF, mas que era uma conquista do povo. Não satisfeito, Temer se comprometeu em construir um Brasil “melhor, pacificado, justo, sem ódio ou rancor”, pois segundo ele, “erram” aqueles que querem “dividir” os brasileiros. E para arrematar, “nosso destino é ser um grande país. É preciso acabar com os muros que nos separam”. Temer pinta um país de fantasia: do futuro, moderno e sem burocracia tal qual querem o agronegócio, a Fiesp e seus aliados. Boa leitura.

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