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Nº 220 | Ano 22 | DEZ 2017
SAÚDE

Movimento de conscientização da população busca reverter percentual de 100% de negativa familiar para doação de órgãos no município
Por Clarinha Glock

Foto: André Herzer / Jornal Ibiá

Foto: André Herzer / Jornal Ibiá

Renato Jacob Fell, 52 anos, é caminhoneiro de profissão, e até dois anos atrás viajar pelo Brasil de ponta a ponta era sua maior felicidade. “De uma hora para a outra”, conta, “os pés incharam”. Fell foi diagnosticado com uma doença renal crônica secundária, a Diabete Melito. Em outras palavras, os rins não estavam funcionando direito e ele precisava fazer hemodiálise, procedimento em que tinha de ficar ligado a uma máquina que fazia o papel do órgão doente: limpava e filtrava o sangue. De julho de 2015 a setembro de 2016 foi o que Fell fez. Deixou a estrada, passou a comparecer três vezes por semana para fazer sessões de hemodiálise em Montenegro, a 18 km de sua cidade Pareci Novo, e entrou na lista de espera por um transplante. Em setembro de 2016, recebeu um rim de um doador falecido em Ijuí. Fell teve sorte, porque uma família consentiu a doação em um momento extremamente doloroso e difícil que é o da morte de quem se ama. Mas outras pessoas podem não ter a mesma felicidade de recobrar a vida com um transplante, se não houver consentimento de familiares dos doadores.  Montenegro, cidade em que Fell foi diagnosticado, é um dos poucos municípios do Rio Grande do Sul em que foi registrado 100% de negativa familiar para doação de órgãos.

Em função desta realidade, ao longo de 2018 a população de Montenegro, localizada na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS) vai ouvir falar (e muito) de doação e órgãos e tecidos. O objetivo, segundo a nefrologista Tatiana Michelon, diretora clínica do Hospital Montenegro, que atende 100% SUS, é levar informação e conhecimento para todos os níveis da sociedade: às escolas, às comunidades rurais e urbanas, aos centros de saúde, à Câmara de Vereadores, em eventos e atividades junto às Secretarias de Saúde, Educação e Cultura. “A impressão que temos é que ninguém fala no assunto porque morte é um tema difícil de conversar. Mas doar é algo bom. Queremos desenvolver uma cultura nas comunidades”, explica Tatiana.

Somente neste ano, houve sete casos de morte encefálica no Hospital 100% SUS, e todos podiam ter sido doadores se as famílias tivessem autorizado a doação, lembrou a médica Fernanda Bonow, coordenadora da Organização de Procura de Órgãos (OPO) 1, com sede na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, que atua na Região Metropolitana de Porto Alegre, incluindo BR 116 até as cidades de Montenegro e Taquara. Cabe às OPOs organizar o processo de doação de órgãos nos hospitais, desde a confirmação da morte encefálica até a entrevista com familiares e retirada dos órgãos doados. As OPOs fazem treinamentos, campanhas, e identificam as dificuldades em cada região. “Muitas vezes, a negativa das famílias pode decorrer da sensação de que seu familiar não tenha recebido o melhor atendimento em um determinado hospital. Mas no Hospital Montenegro essa não tem sido uma queixa das famílias, pelo contrário, a maioria relata satisfação com o atendimento. Além disso, o hospital tem uma boa estrutura de UTI, equipes treinadas para fazer a identificação da morte cerebral, e equipamentos”, constatou. Portanto, cogita que a falta de informação pode ser a causa do alto índice de negativas.

O Hospital Montenegro pertence à Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas. Foi o primeiro do Brasil a assumir, em 2012, o modelo 100% SUS. Foi também o primeiro do interior do Rio Grande do Sul a oferecer hemodiálise contínua 24 horas, e desde setembro de 2016 é credenciado na Rede Brasil AVC – sendo que Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Trauma Crânio-encefálico são as principais causas de morte encefálica. Para ampliar e agilizar os processos de doação, estão sendo feitas capacitações das equipes e em breve vai começar a funcionar ali uma Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT). Essa Comissão vai atuar junto com a OPO 1.

ECARTA – A Fundação Ecarta, que desde 2012 realiza o projeto Cultura Doadora, vai ser parceira no processo de sensibilização da população. “Vamos convidar médicos e transplantados para falar sobre o tema para estudantes e professores, e em escolas técnicas de Enfermagem da região”, informa Glaci Salusse Borges, coordenadora do projeto. Também o jornal Ibiá, com tiragem diária de 5 mil exemplares, que tem leitores em Montenegro e em outras seis cidades do Vale do Caí, está se engajando na proposta. Durante o mês de dezembro de 2017, o jornal vai publicar no seu suplemento semanal Ibiá Saúde, às sextas-feiras, e no portal da internet, reportagens sobre doação de órgãos e tecidos. “Depois, a gente vai seguir acompanhando as movimentações da sociedade civil e do poder público sobre o assunto em 2018”, diz o subeditor, Marcelo Ricardo Fiori, que teve a ideia após assistir a uma palestra da médica Tatiana.

“Este é um projeto aberto, e convidamos todo mundo a participar, porque doação é vida, e até quem nunca teve contato com um paciente transplantado pode contribuir. Temos que falar a linguagem de todas as pessoas, e queremos compartilhar ao máximo o conhecimento”, enfatiza Tatiana.

É essa também a percepção de Fell depois do transplante.  Enquanto se recupera para voltar a viajar pelo país, que é o seu grande sonho, ele aproveita para espalhar para quem conhece a alegria que é estar vivo graças à doação de órgãos. “Peço para todos serem doadores, porque o ser humano só dá valor na hora que precisa”, explica. Na lista de agradecimentos, além da equipe da Santa Casa de Porto Alegre que o acolheu e segue dando apoio, Fell salienta: “Agradeço à família do doador que me deu uma nova oportunidade de vida”.

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