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16/06/2016
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

Em quem você confia?

Fui uma das vítimas do poder de hipnose de Otávio Marques Azevedo, o presidente da Andrade Gutierrez, mantido em prisão domiciliar com uma tornozeleira. Há uns três anos, comecei a ver uma entrevista de Azevedo na Globo News, no exato momento em que o jornalista e o chefe da empreiteira discutiam modelos de liderança nas corporações.

O entrevistador perguntou por quanto tempo um executivo considerado líder em uma empresa pode enganar os superiores, até que um dia descobrem que seus modos – em especial os que envolvem ética – não condizem com a postura de alguém em papel de liderança.

Em quem você confia?

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Azevedo disse então que um falso líder pode enganar por até dois anos. Eu, sem nada pra fazer, desperdicei mais de meia hora de um sábado ouvindo as lições de um “líder legítimo” (porque ele sabia identificar um falso líder) sobre empatia, disseminação de valores, moralidade, honestidade e outros predicados. No fundo, eu sabia que meu ócio era consumido por um propagador de mentiras.

Mas quem sabia, até ali, da dimensão das pilantragens que envolviam Azevedo? Ele, seus colegas executivos de empreiteiras, seus chefes empreiteiros, os similares de empreiteiros e outros assemelhados ainda à espera de identificação criminal nunca foram líderes legítimos de nada.

Os empreiteiros tentaram nos enganar por tanto tempo porque desfrutavam do conluio dos que acolhiam e difundiam suas pretensas sabedorias como empreendedores e benfeitores do país. E assim eles consumiam nossa paciência com aulas de ética escritas em manuais.

Os corruptores e suas lições empresariais tiveram, por décadas, a pretensão de substituir até os professores como referência de conhecimento nos mais variados assuntos. Eram embusteiros da gestão organizacional, de modismos e de picaretagens vendidas como holismo.

Foi a partir da identificação de falsos líderes como Azevedo que o Brasil destampou outras farsas. E nos defrontamos agora com a pergunta que, por décadas, tentaremos responder: em que líder, afinal, você confia?

Você não confia mais nos empreiteiros, mas confia nos ministros do Supremo? Confia que Gilmar Mendes é de fato um ministro distanciado politicamente das decisões da mais alta Corte do país?

Você confia no juiz Sergio Moro? Acha que Moro chegará ao fim da sua missão desfazendo todas as dúvidas construídas a seu respeito?

Você confia nos sindicalistas que se aliaram ao golpe para, dizem eles, defender os direitos de quem trabalha? Em quem você confia, se não podemos confiar mais nem no talento dos marqueteiros que nos induziram a acreditar no japonês da Federal?

Você confia em procuradores que produzem discursos religiosos, em tom de pregação, contra o mal da corrupção? Você confia em Lula e na Dilma? Agora, confia no Michel Temer? Confia no Padilha, no Moreira Franco? Mas você sabe quem tentou fazer você confiar até no Eduardo Cunha.

Você confia na Câmara dos Deputados dos pais de família, no Senado do delatado diário Aécio Neves, no Tribunal de Contas da União que nunca havia visto pedaladas, no Tribunal Superior Eleitoral (comandando pelo Gilmar Mendes), no tribunal de Justiça do seu Estado? No seu provedor de internet, você confia? No banco? Nos delatores?

Em meio a tanta indigência, ao esfarelamento das instituições, à destruição de reputações pessoais, de grupos, de partidos, de empresas, em quem você confia? Em que sobras de éticas íntegras ou esfarrapadas você ainda se agarra para dizer que confia nesse ou naquele? Faça a sua lista.

Eu confio no pipoqueiro, no cara do algodão doce, nos bombeiros, na senhora que vende toalhas rendadas no Brique da Redenção. Ainda confio muito no poder civilizatório de um colégio, na sala de aula e no pátio.

E confio nos professores, nos alunos que ocuparam escolas para produzir mudanças, nos que não ocuparam mas acompanharam de perto, inquietos e indecisos, e confio em todos os que me ajudam a desconfiar cada vez mais de gente como Otávio Marques Azevedo e seus assemelhados nas empresas, na política, nos sindicatos adesistas – por toda parte, inclusive nos tribunais.

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