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21/09/2016
MOISÉS MENDES

É possível destruir Lula?

É possível destruir Lula?

Ricardo Stuckert/Divulgação/Pública

Ricardo Stuckert/Divulgação/Pública

Vencida a etapa do golpe que derrubou Dilma Rousseff, via Congresso, na articulação de políticos, empresários e mídia, cumpre-se agora a etapa seguinte, da destruição de Lula via Judiciário. Para que o cerco seja completo, falta apenas que a esquerda, o PT, o lulismo e todo o entorno sofram também um ataque das igrejas e do que elas dizem representar.

Só as religiões, os santos e o demônio não entraram ainda na cruzada contra a corrupção inventada pelo partido que chegou ao poder em 2002 e desde então não permitiu que a direita vencesse uma eleição. O diabo pode estar à espreita, ou a inquisição será incompleta.

Tudo passa a ser rápido, urgente, contra Lula. O juiz Sergio Moro precisou de cinco dias, desde o recebimento da denúncia contra o ex-presidente, para anunciar que agora o caso é com ele.

Nunca a Justiça foi tão rápida quanto em Curitiba. Lula é seu réu. O grande troféu cai finalmente nas mãos do juiz idolatrado pelos golpistas.

Vale observar algumas sutilezas formais da cruzada contra Lula. Na apresentação da denúncia, em coletiva-show no dia 14, o procurador-chefe da Lava-Jato, Deltan Dallagnoll, afirmou que Lula era o “comandante máximo” do esquema de corrupção na Petrobras.

O procurador apresentou um esquema de bolinhas, com Lula ao centro de uma rosácea ridicularizada nas redes sociais. O petista seria o chefe da quadrilha, mas Dallagnol não o denunciou como tal. Lula foi acusado pelo MP de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O juiz, ao acolher a denúncia, socorreu o procurador. Disse que a acusação por associação criminosa não constava da denúncia por detalhe técnico, apesar de frustrar expectativas pela “argumentação constante na primeira parte da denúncia”.

“A omissão encontra justificativa plausível, pois esse fato está em apuração perante o Egrégio Supremo Tribunal Federal (Inquérito 3989), pois a suposta associação também envolveria agentes que detêm foro por prerrogativa de função e em relação ao ex-presidente não teria havido desmembramento quanto a este crime”, disse Sergio Moro.

Moro ofereceu uma muleta à denúncia de Dallagnol, bombardeada desde a tal coletiva pelos juristas. Mas isso não importa. O que interessa é que algo mais vem aí contra Lula, além do processo aberto por Moro e do outro processo – por obstrução de Justiça – que já corre desde julho na 10ª Vara Federal de Brasília.

Moro conseguiu o que esperava ansiosamente: ficará finalmente diante de Lula. E Lula passa a enfrentar dois processos, tendo pela frente a perspectiva de um terceiro. Deflagra-se o que pretende ser o desfecho do massacre para destruí-lo antes das eleições de 2018.

A conjuntura econômica, a performance do ocupante do Palácio do Jaburu, a capacidade de mobilização contra o golpe, tudo isso, com conexões entre si, formará o cenário em que se dará a etapa final da tentativa de desconstituição de Lula.

Teremos vazamentos? Como o juiz Moro – tão parceiro de uma certa imprensa na divulgação de grampos e informações selecionadas – vai se comportar diante de Lula? Qual será a medida dos ataques, para que o juiz e o Jornal Nacional não passem do ponto?

Getúlio, Juscelino (que resistiu) e Jango são os exemplos clássicos de massacrados do século 20. Dilma e Lula são os primeiros do século 21. O que a atual investida deve levar em conta é que traumas anteriores não se prestam para quase mais nada como referência na política de hoje.

O lastro social e crítico construído pelo PT e outros partidos de esquerda não ficarão num vácuo, como possam imaginar os que se articulam no Congresso, no empresariado, na mídia, no Ministério Público e no Judiciário.

Seria ingênuo demais pensar que a destruição de Lula teria, como consequência automática, a aniquilação de forças sociais com capacidade de reação que ainda não foram testadas.

A direita sabia que, para destruiu Lula, antes teria que golpear Dilma. E talvez pense que, destruindo Lula, destruirá tudo que ele ainda representa, mesmo que de forma aparentemente precária.

O juiz Moro disse no acolhimento da denúncia que sua decisão pode “dar azo a celeumas de toda a espécie”, desde que fora do processo.

Azo, na linguagem do século 19, quer dizer pretexto, desculpa. Um juiz dado a celeumas não quer mais saber delas, num país de “muitos Judiciários”, na definição da ministra Cármen Lúcia, presidente do STF.

Muitos Judiciários em que uma maioria olha e age apenas em uma direção. Nesse ambiente vergonhoso, celeuma é pouco para o que uma democracia permite e pode vir a acontecer.

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