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23/01/2018
MOVIMENTO

“Estamos numa resistência democrática”, ressaltou a ex-presidente Dilma, entre as lideranças femininas que se pronunciaram a favor de Lula e contra os ataques ao processo democrático
Por Stela Pastore
Um inusitado corte de energia deslocou a mobilização do auditório Dante Barone para a frente do Palácio Piratini

Um inusitado corte de energia deslocou a mobilização do auditório Dante Barone para a frente do Palácio Piratini

Foto: Igor Sperotto

“Estamos aqui numa resistência democrática. Mais uma vez essa praça e essa Assembleia Legislativa testemunham a resistência”, afirmou a ex-presidente Dilma Rousseff para cerca de 15 mil pessoas na Praça da Matriz, centro de Porto Alegre, durante o ato Mulheres pela Democracia, na manhã desta terça-feira, 23. Marcada no auditório Dante Barone, a partir das 9h30min, a atividade foi transferida para a frente do Palácio Piratini devido a um inusitado corte de energia elétrica, e iniciou às 11h com a chegada de um caminhão de som que se deslocou em meio à multidão.

“A Assembleia Legislativa não teve energia elétrica para receber um ato democrático”, afirmou Dilma, questionando a coincidência da falta de luz num dia de atividades pró-Lula. “Nós mulheres demonstramos mais uma vez junto com todos os companheiros que sabemos resistir a estes atos, deliberados ou muito ocasionais”, registrou logo ao chegar no caminhão e destacar que estava acompanhada de mulheres que fizeram sua segurança.

Dilma: “O golpe, politicamente, fracassou. Qual a liderança dos golpistas que sobrevive ao escrutínio do voto popular?”

Dilma: “O golpe, politicamente, fracassou. Qual a liderança dos golpistas que sobrevive ao escrutínio do voto popular?”

Foto: Igor Sperotto

Dilma enfatizou que o golpe no Brasil é um processo formado por três atos: o primeiro foi o impeachment que a retirou do cargo sem crime; o segundo ato, com o desmonte das políticas sociais e a entrega do patrimônio nacional; e o terceiro, com o impedimento de Lula de ser candidato nas eleições de 2018. A ex-presidente foi a mais aplaudida do conjunto de falas de mais de 15 lideranças femininas dos movimentos de mulheres, parlamentares, ex-ministras, dirigentes sindicais, estudantis e partidárias.

“O golpe foi feito para me destruir, destruir o PT, sobretudo destruir o nosso líder Luiz Inácio Lula da Silva. Esse é o projeto político do golpe. Deu errado, porque o presidente Lula hoje, em qualquer pesquisa tem acima de 40%. O PT é partido reconhecido nacionalmente. Era para estar destruído, mas tem o apoio da sociedade brasileira. Não conseguiram nos destruir e se destruíram. O golpe, politicamente, fracassou. Qual a liderança dos golpistas que sobrevive ao escrutínio do voto popular?”, questionou.

Perseguição política

Para Dilma, o ex-presidente Lula vive um processo de perseguição política. “Sua acusação não tem base. Para ter sentido teria que ter cometido ato de ofício e receber vantagem em troca. Nada disso aconteceu. Se isso não é perseguição, não sei o que é. Se são capazes de fazer isso com Lula são capazes de fazer com qualquer um”, expressou.

Afastada por um processo de impeachment fraudulento em 2016, Dilma convocou o judiciário ao resgate do seu papel na sociedade: “Seja o que for esse julgamento, com todas as suas falhas, espero que o judiciário desse país se resgate nesse dia 24. Resgatar a justiça, não é para Lula, para Greice, pra mim, pra vocês. É bom para todo povo brasileiro. Se é injusta num caso, quem garante que não será em outros casos. Vivemos numa democracia. E se tem uma esfera, uma área de atuação que não pode se tornar suspeita, é a Justiça. Ela tem de ser isenta, cega, não pode condenar inocente. “Aconteça o que acontecer, vamos continuar apoiando o presidente Lula , recorrendo em todas as instâncias e construindo um novo caminho”, concluiu.

Sabemos porque estamos nas ruas

Sabemos que hoje, em Porto Alegre, é momento extremamente importante da nossa história. A luta pela democracia é parte da luta pelas mudanças. O povo brasileiro tem o direito ao voto soberano e de decidir em quem votar”, afirmou Nalu Farias, da Marcha Mundial de Mulheres. “Nós sempre estivemos nas lutas democráticas. Nossa luta é pela vida, contra o capital, o machismo, o patriarcado, pela liberdade e diversidade sexual, pela construção de um mundo de igualdade. Queremos também uma sociedade que respeite a autonomia econômica das mulheres, e isso passa não só pelo salário, mas por uma outra forma de organizar o trabalho de forma que não sejamos as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico”, registrou a ativista.

A socióloga e ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci lembrou que “coube às mulheres a defesa incessante da democracia e de dizer não ao golpe no Brasil”

A socióloga e ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci lembrou que “coube às mulheres a defesa incessante da democracia e de dizer não ao golpe no Brasil”

Foto: Igor Sperotto

“Sabemos das políticas públicas para as mulheres nos governos Lula e Dilma. A ex-presidente foi vítima do maior e mais fraudulento golpe da nossa história. As mulheres sabem por que estão na rua”, afirmou a socióloga e ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci. Para ela, “coube às mulheres a defesa incessante da democracia e de dizer não ao golpe no Brasil”, concluiu, lembrando que estava representando outras ex-ministras como Nelma Flores, Ideli Salvatti e Tereza Campelo, “que ajudaram a tirar o Brasil do mapa da fome”.

“Estamos aqui por palavras femininas: justiça e democracia. O resultado do julgamento não pode diminuir a força que demonstramos em defesa da soberania e da democracia. Diante da mobilização, o único resultado ético e legítimo é a absolvição de Lula”, defendeu a deputada federal Maria do Rosário.

Judicialização da política

Pré-candidata à presidência da República pelo PCdoB, a deputada estadual Manuela Dávila lembrou que Porto Alegre é conhecida por seus vários movimentos de resistência, como o Fórum Social Mundial, e de participação democrática, mas que nesse momento sedia a judicialização da política. “O neoliberalismo não precisa de disfarçar de democrático. Primeiro tiraram a Dilma e agora querem tirar as eleições livres no Brasil. Estamos vendo o desdobramento do golpe e parte do judiciário emite juízo político. O único juízo é o das urnas e é esse o único ao qual o presidente Lula deve ser submetido”.

A senadora Lídice da Mata (PSB-BA) também se pronunciou em defesa da candidatura Lula: “Não há democracia sem que as mulheres possam assumir seu protagonismo e não há eleição sem Lula”, sentenciou.

Ato público reuniu representantes dos mais diversos movimentos sociais

Ato público reuniu representantes dos mais diversos movimentos sociais

Foto: Igor Sperotto

Futuro da juventude 

Lideranças estudantis também marcaram presença no ato e se posicionaram contra a inconsistência do processo contra Lula. “Justiça é diferente de política. É preciso provas, não opinião e convicção”, afirmou Carina Vitral da União da Juventude Socialista, que falou com Mariana Freitas, da UNE, sobre estar nas ruas defendendo o futuro da juventude e a democracia. “Nós, negros e negras, sabemos que Lula e Dilma fizeram a diferença. Temos o dever de lutar da pela participação política plena. Não aceitamos o que estão fazendo com Lula. Não é possível condenar um homem como condenaram Dilma, sem crime. Não aceitamos mais ser escravas das leis injustas, e injustiças que o próprio estado comete contra as mulheres”, afirmou a deputada federal pelo Rio de Janeiro (PT), Benedita da Silva.

 A luz são as mulheres e as forças progressistas

Representando as católicas pelo direito de decidir, Zeca Rosado afirmou que o julgamento e a condenação foram antecipados pelo tratamento dado pela mídia fomentada pela conduta de integrantes de instâncias inferiores do judiciário e corroborada pelo STF. “Não pode haver justiça feita pela televisão, não há justiça quando a condenação é resultado de ato de ofício indeterminado de Sérgio Moro. Juristas do Brasil e do mundo dizem que se não há prova, não é crime”. Lembrando do apagão no parlamento, Zeca disse que queria chamar a atenção de quem apagou a luz pensando que boicotaria o ato para dizer que “a luz dessa nação somos nós, as mulheres, as forças progressistas, que lutamos mesmo quando somos barradas e nos cortam a luz”.

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