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17/01/2018
ECONOMIA

Deflação dos alimentos que derrubou IPCA foi boa para atravessadores

Pequenos produtores rurais familiares pagam a conta da inflação de 2,95% alardeada pelo governo e forjada pela perda de renda da população
Por Flávio Ilha
Artifício: inflação divulgada pela equipe econômica é resultado da redução no consumo e impacta os pequenos produtores rurais familiares, que abastecem a mesa de 70% dos brasileiros

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Artifício: inflação divulgada pela equipe econômica é resultado da redução no consumo e impacta os pequenos produtores rurais familiares, que abastecem a mesa de 70% dos brasileiros

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Nunca os preços dos alimentos caíram tanto em um ano”. Foi com essa propaganda grandiloquente – e imprecisa – que o governo federal comemorou a queda geral no preço dos alimentos que ajudaram a derrubar a inflação medida pelo IPCA, índice oficial calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em média, segundo o Instituto, os alimentos ficaram 4,85% mais baratos no ano passado – um recorde, diz o governo. A inflação de 2,95% foi a mais baixa desde 1998, ano do Plano Real, e ficou abaixo do piso da meta do Banco Central, que era de 3%.

Há, entretanto, uma pegadinha nesses dados: a queda foi resultado de uma perda geral de renda da população em 2017, o que fez com que o consumo baixasse. Mas mais grave ainda é o impacto dessa deflação dos alimentos na vida dos pequenos produtores rurais familiares, que abastecem a mesa de 70% dos brasileiros. Para eles, a renda despencou ainda mais com a redução da margem de remuneração imposta pelos atacadistas.

“Funciona assim: quando o consumo cai, o distribuidor não quer perder de jeito nenhum. Então, ele tira do produtor pagando menos na origem e transferindo apenas uma parte dessa perda para o preço final. É a velha lógica de comprar barato e vender caro. Tem produtor de leite, por exemplo, recebendo menos da metade pelo litro do que há um ano”, explica o coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Miqueli Schiavon.

De acordo com o portal Agrolink, que mede as cotações de diversas commodities agrícolas, o litro pago ao produtor nas bacias leiteiras do RS varia de R$ 0,65 a R$ 0,96 – há pouco mais de um ano esse mesmo litro era comprado, em média, por R$ 1,32. Só que nas gôndolas essa redução nem chegou perto desse índice, ficando em média 20% sobre o preço final. Ou pouco mais de 4%.

Com o arroz ocorreu mais ou menos a mesma coisa: a cotação paga ao produtor caiu quase de R$ 15 entre setembro de 2016 e janeiro de 2018 numa redução de 28%. Para o consumidor, essa queda simplesmente não existiu, pois o preço teve reajuste de até 6% no final da safra, em meados de junho do ano passado. Os produtores culpam as indústrias, que arrocham os agricultores mas mantém suas margens de rentabilidade no processamento.

Pequenos produtores pagam a conta com endividamento, desemprego e desestruturação das famílias no campo, diz o orizicultor Kochenborger

Foto: Divulgação

Pequenos produtores pagam a conta com endividamento, desemprego e desestruturação das famílias no campo, diz o orizicultor Kochenborger

Foto: Divulgação

“Conheço dezenas de agricultores que vão abandonar a atividade porque estão quebrados. O saldo dessa situação de arrocho é aumento no endividamento, desemprego e desestruturação das famílias no campo”, diz o orizicultor Ademar Kochenborger, de Cachoeira do Sul. “Na cadeia do leite há uma debandada geral”, completa Schiavon.

SUPERSAFRA – Entre janeiro de 2012 e fevereiro de 2017, a inflação acumulada dos alimentos ficou quase sempre acima do IPCA geral. Ou seja, o quesito alimentos e bebidas, que representa cerca de 25% da composição do índice, passou todo esse período puxando a inflação para cima.

Diferentemente de produtos manufaturados ou dos serviços, a produção de alimentos sofre muito mais variação de oferta. E essa variação é pouco previsível ou controlável, já que depende de fatores como o clima.

A queda atípica dos preços dos alimentos que acabou puxando para baixo o IPCA em 2017 foi atribuída à supersafra. Divulgado em novembro, o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE estima que a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas será de 241,9 milhões de toneladas em 2017. Uma alta de 30,2% em relação à obtida em 2016 (185,8 milhões de toneladas). Em tese, mais oferta de produtos, preço menor.

De fato, o grupo de alimentos e bebidas acumulou queda de preços de 1,87% em 2017, enquanto o item “alimentação no domicílio” registrou deflação de 4,85% no ano passado. O presidente do Banco Central Ilan Goldfajn chegou a comemorar a queda da inflação dos alimentos dizendo que era “uma boa notícia para a sociedade”.

Só que em dezembro o índice voltou a subir quase meio ponto percentual por conta da pressão de alta sobre alimentos industrializados, como carnes e pães. Significa, para os especialistas, que a trégua provocada pela boa produção agrícola que se manifestou durante os últimos sete meses está acabando.

“A safra de 2017 foi muito boa e contribuiu para a redução dos preços dos alimentos, isso é verdade. Mas esse efeito vem diminuindo nos últimos dois meses, embora em certos produtos ainda seja sentido”, analisou por e-mail o gerente do IPCA do IBGE, Fernando Gonçalves.

O IPC-10 de janeiro, que mede o comportamento dos preços nos dez primeiros dias de cada mês, já confirmou essa impressão: mostrou alta de 0,66% ante uma queda, no mesmo período do mês anterior, de 0,16%. Hortaliças e legumes, segundo o levantamento, subiram 5,78% em média neste ano.

“A tal deflação dos alimentos, diante do empobrecimento geral da população, serviu só para concentrar ainda mais a renda dos atravessadores e atacadistas, que pressionaram os produtores e não repassaram o desconto integral para a ponta do consumidor. E para o governo, claro, que pôde fazer propaganda da inflação baixa sem dizer que está relacionada à estagnação econômica”, disse o economista Raul Ristow Krauser.

O índice médio de preços nem sempre reflete a inflação na vida real, adverte o economista André Braz

Foto: Divulgação

O índice médio de preços nem sempre reflete a inflação na vida real, adverte o economista André Braz

Foto: Divulgação

Em junho de 2017, quando o IPCA chegou a ser negativo no resultado do mês, o economista André Braz, que pesquisa inflação na Fundação Getulio Vargas, observou o impacto que os alimentos tinham no resultado. Depois disso, a inflação de alimentos continuou caindo e o índice acumulado em 12 meses passou a ser negativo em julho.

“Isso significa que, na média, os alimentos e bebidas estão mais baratos do que estavam um ano atrás. Mas é uma queda relativa, pois o patamar de comparação, de 2016, é muito alto. Para o consumidor a diferença não é tão grande, já que outros itens como combustíveis, energia e gás subiram acima da média”, afirmou.

A inflação de alimentos e bebidas caiu mais e mais rápido que o IPCA geral devido à queda no consumo. O índice acumulado de alta em 12 meses era de 13,9% em agosto de 2016 e passou a ser, em agosto do ano passado, de -2%. Isso, segundo Braz, não é só resultado da safra, mas também do baixo consumo e da pressão sobre os produtores. Em um ano a inflação de alimentos recuou 15,93 pontos percentuais.

“O ano passado foi de fato bom para a agricultura e a oferta de alimentos ajudou a conter o avanço dos preços. Só que uma coisa é o índice médio de preços, uma conta complexa e cheia de itens. Outra é a vida real, onde a prática nem sempre respeita a teoria”, avaliou Braz.

A inflação oficial no Brasil é medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), um indicador que é divulgado todos os meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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