Opinião
A praga das bets
O Brasil gasta mais em apostas virtuais do que em saúde pública. O gasto com…

Foto promocional do filme Cidadão Kane, de 1941, dirigido, produzido, coescrito e estrelado por Orson Welles. O filme representa como a mídia e o dinheiro podem ser usados para moldar a opinião pública e o discurso político
Foto: Alexander Kahle/RKO Radio Pictures/Domínio público
Em 20 de fevereiro de 1909, o poeta italiano Filippo Marinetti publicou seu Manifesto Futurista nas páginas do jornal francês Le Figaro, lançando as bases para o Futurismo, uma das mais influentes vanguardas artísticas do início do século XX, que, pouco depois, viria a ser o braço estético do fascismo italiano.
Exaltando a velocidade da vida moderna, associada à racionalização técnica e à produção industrial, entre os predicados da arte futurista também constavam a glorificação da guerra “– única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher”, assim como a apologia à destruição dos museus, bibliotecas e academias de toda natureza, o combate ao moralismo e ao feminismo.
Embora tenha havido respostas vanguardistas mais alinhadas à esquerda, como o Cubismo e o Surrealismo, por exemplo, o componente bélico inerente à apropriação do termo militar vanguarda – o corpo de soldados que encabeçava as formações de combate, atacando o inimigo e abrindo caminho para a passagem das tropas – deu tom a formas de expressão profundamente militantes e engajadas, cujo desprezo à cultura institucional e humanista levava seus entusiastas a proporem a destruição e a substituição das elites culturais e do capital simbólico acumulado por novos modos de expressão, muitas vezes irracionais e virulentos, nos quais, como no caso do Futurismo, entravam em jogo o desprezo ao fraco e o enaltecimento da força, da vontade e do domínio sobre os demais.
Nesse contexto, não só o fascismo italiano como também o nazismo alemão e demais regimes totalitários souberam apropriar-se de correntes estéticas, aliando-se a artistas e pensadores, a fim de elaborar a narrativa, a imagem e a propaganda de seus governos.
Ainda que as principais formas de vanguarda remontem ao período entre Guerras do século XX, para além da apologia à guerra como higiene do mundo e do desprezo às minorias, sua linguagem e estratégias têm afinidades e comungam com agentes e governos da extrema direita global, em especial em se tratando da administração Trump nos EUA com seu assalto e sequestro de presidentes, asfixiamento de ilhas e invasão arbitrária de países não alinhados.
Assim como por trás da ideia de “dilatar fé e império”, presente em Os Lusíadas, a epopeia colonialista de Camões, qualquer propaganda estadunidense que promulgue a exportação da democracia e a libertação da tirania apenas dá palavras de efeito a aventuras de pilhagem, apropriação de petróleo, demonstração da força bruta visando à reorganização de zonas de vassalagem e influência, bem como ao silenciamento e à pacificação de tensões domésticas.
Segundo o professor Fernando Cabral Martins, da Universidade Nova de Lisboa, há em comum nas vanguardas a recusa da autonomia da arte; a valorização do novo; e o regresso à origem enquanto a fonte, ao mesmo tempo, do originário e do original.
Nesse sentido, movimentos como o Maga (Make America Great Again), embora muitas vezes submetido ao Miga (Make Israel Great Again), se atualizam na história por meio de uma retórica violenta e segregacionista, na qual as injustiças inerentes à divisão de classes e ao modo de produção neoliberal cujos efeitos são a precarização da vida e adoecimento mental são substituídos por formas de discursos do nós contra eles em que o principal vetor de diferença é a nacionalidade.
O sociólogo Didier Eribon, na obra Retorno a Reims, discute como a classe operária francesa substituiu sua mobilização política, pautada até os anos 1980 por um claro recorte da luta de classes (os proletários contra as elites dirigentes) por um pertencimento de base racial no qual se apagam as diferenças econômicas que, por sua vez, promovem a pauperização das classes trabalhadoras, transformando o campo político numa disputa entre os franceses e imigrantes.
Esse tipo de discurso estético (gerador de efeitos e sensações, visando dominar e despertar paixões, corações e mentes) tem um profundo viés utilitarista: ou seja, existe nele claramente uma função social, destinada a mobilizar as massas, assim como vislumbra-se entre suas ideias o retorno a alguma fonte segura e mítica de identidade e de élan vital cuja redescoberta seria capaz de apontar e gerar novos caminhos para aquilo que estava estagnado.
Embora caracterize a vanguarda o desprezo pela intelectualidade e o status quo, ao recorrerem a nomes e ideias do passado, seus agentes e ideólogos também estão interessados na formação de novas bases intelectuais e narrativas alternativas para o presente, uma vez que é o presente quem cria o passado, recortando e selecionando fatos das ruínas dessa matéria móvel, a fim de escrever a versão que melhor dê contorno à atualidade e suas demandas.
É por isso que o passado nunca está morto, mas representa um imaginário elástico e mobilizável. E é nessa direção que se deve entender a retomada de Trump da doutrina Monroe, cujo slogan A América para os americanos segregava não só os elementos estrangeiros como outorgava aos EUA o status de um império autorizado a dominar e subalternizar a América Latina, sua principal zona de influência.
A associação da extrema direita às vanguardas permite entender modos de uso e apropriação de discursos orientados à produção de efeitos, demarcação clara de diferenças, criação de inimigos e bodes expiatórios, além da manipulação do entusiasmo das massas.
Não é à toa que seu principal representante hoje tenha vindo do Show Business, se comunique por meio de redes sociais e tenha mostrado o quanto a performance é a outra face do poder, na medida em que o poder para se autorizar e ser autorizado também é um exercício de performance.
Apesar do mau gosto inerente a certas formas de expressão, ao contrário da esquerda radical e da esquerda institucionalizada, a extrema direita tem sabido se colocar no campo político mobilizando multidões e articular para seus fins diferentes órgãos de imprensa, artistas e lideranças religiosas.
Embora prometa um mundo novo no qual mais sobe à tona o cheiro bolorento do passado, não se pode dizer que suas ideias não empolguem, oferecendo movimento e dinamismo a vidas estagnadas e expropriadas pelo próprio sistema que a extrema direita defende.
Seus desdobramentos no Brasil são conhecidos e encabeçados pelo clã de sobrenome italiano de um ocupante da Papuda. No imaginário da vanguarda tupiniquim, a exaltação da pátria e a mitologização de uma liderança carismática de perfil messiânico confundem-se com o louvor à violência, à agressão, à família, a Deus e à propriedade.
Conquanto alinhado aos movimentos da extrema direita global, as raízes do fascismo brasileiro remontam, em parte, a intelectuais modernistas como Plínio Salgado, participante do Modernismo de 1922 e criador do maior movimento fascista fora da Europa, o Integralismo Brasileiro, do qual participou Augusto Rademaker, vice-presidente do Brasil durante o governo Médici, o que revela como, subrepticiamente, o integralismo sobreviveu e se manteve entre nós, seja nas casernas, seja na nossa própria família.
Fazer frente a essas performances e discursos requer mais do que apenas o bom senso e promessas de frentes amplas para manter as estruturas institucionais. Não é com a linguagem das instituições burguesas que se pode competir com a belicosidade e o entusiasmo extremistas. Mas com ideias e linguagem novas que declarem quem são nossos inimigos, quais são as nossas lutas e as formas com as quais poderemos reivindicar modos de vida mais justos, coletivos e responsáveis, para não dizer libertários em relação a toda forma de opressão.
Qualquer resistência que não passe por um uso radical da linguagem e pela proposição de novos modos de organização social vai apenas retardar o tempo daqueles que como Marinetti querem “exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco”.
O movimento histórico já mostrou até onde eles foram capazes de chegar.
Arthur Telló é professor de Literatura Portuguesa da Ufrgs.