Colunistas
Espantástico
O assombro sobre os ombros não pesa, não cheira, mas muitas e muitas vezes é…

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Com grande satisfação, recebi o convite da direção do Sindicato dos Professores (Sinpro/RS) para assinar uma coluna de política neste prestigiado jornal Extra Classe que completa 30 anos. Por estas páginas passaram colunistas de altíssimo calibre. Entre eles, destaco nosso querido Luis Fernando Verissimo e meu estimado colega e amigo Gabriel Grabowski, duas perdas irreparáveis. Se esse convite me enche de orgulho, também me cobra a responsabilidade de escrever para leitores críticos e sofisticados do Brasil e do mundo afora.
Diante desse desafio, pareceu-me mais adequado, primeiramente, delinear os pressupostos teóricos que orientarão minhas análises neste espaço. Thomas Kuhn, argumentava que aquilo que uma pessoa vê, depende da sua experiência conceitual prévia. A gente vê através de nossos conceitos. Dessa forma, deixo claro ao leitor os limites, mas também, as minhas possibilidades de compreensão do mundo.
Esta coluna será profundamente ancorada no realismo político maquiaveliano. O que importa aqui é a verdade efetiva das coisas: o mundo como ele é e não como deveria ser. Como cientista político, busco compreender correlações de forças, com base em dados e evidências. A natureza humana será tomada como egoísta, não como afirmação ontológica ou juízo moral, mas como pressuposto metodológico para a análise do jogo político. Não há grandes homens, mas grandes projetos de mundo em disputa. Neste sentido, o bem comum é sempre um efeito colateral.
Nesse mundo real, conflitivo e contingente, utilizarei os contornos do liberalismo político, aqui entendidos como afirmação de direitos, separação de poderes e mecanismos de freios e contrapesos. Pois, o poder é sempre potencialmente perigoso quando concentrado. Sabemos bem disso, nós convivemos, desde a Proclamação da República, sob a sombra política do poder militar. A partir da Constituição de 1988 e com a descredibilização crescente dos poderes executivo e legislativo, o judiciário entrou em cena como um novo ator político. Hoje, com a judicialização da política e o ativismo judicial, ninguém mais sabe a escalação da seleção brasileira, mas sabe quem são os ministros do Supremo Tribunal Federal.
Contudo, apesar do Estado ainda organizar a sociedade de forma muito desigual, weberianamente falando, o Brasil melhorou. Onde a democracia e o capitalismo chegaram, produziu-se uma sociedade muito melhor para se viver, gostemos ou não desse diagnóstico: um operário hoje vive mais do que um rei na Idade Média. Angus Deaton, Nobel de Economia, lembra que a humanidade atualmente morre mais de obesidade do que de fome. Não é à toa que os dinamarqueses impulsionam seu PIB com as canetas emagrecedoras. Você já comprou a sua?
Isso não significa ignorar, muito menos negar, os enormes problemas enfrentados pelo capitalismo: mudanças climáticas, ameaça da inteligência artificial, desinformação e as profundas desigualdades sociais que marcam nosso tempo. Nesse sentido, estou plenamente de acordo com o velho Bobbio, para quem, enquanto houver sociedades desiguais, sempre haverá alguém à esquerda disposto a tornar os desiguais mais iguais.
Nessa perspectiva, o comunitarismo, crítico tanto do estatismo quanto do atomismo do mercado, tal como formulado por Putnam e Etzioni, parece inovar o debate polarizado ao defender comunidades reais: sindicatos, movimentos sociais, universidades, como instâncias de mediação entre o indivíduo e o Estado. Fortalecer estas comunidades é, portanto, uma estratégia realista de enraizamento democrático e de desenvolvimento material sustentável, por meio do equilíbrio entre Estado, mercado e comunidade. Essa sustentação só é possível com democracia.
Nesta coluna, a democracia será vista como uma invenção global e não uma criação ocidental. Ela não pertence a um povo, a um continente ou a uma tradição cultural específica. Costumamos lembrar das grandes revoluções francesa e inglesa da era moderna, ou da independência dos Estados Unidos, mas a democracia já estava presente muito antes disso: em Atenas, na Antiguidade, na Índia com os antigos conselhos budistas voltados à deliberação e à resolução de controvérsias, ou no Japão em 604 d.c, como lembra Amartya Sen: o príncipe Shotoku estabeleceu que assuntos importantes não deveriam ser decididos por uma única pessoa, mas por muitas. Também aparece nas experiências tribais africanas que forjaram um Nelson Mandela. Assim como, nas reduções jesuíticas guaranis no Rio Grande do Sul no século 17, onde comunidades indígenas praticavam formas de autogoverno e se protegiam da escravização. A tradição do debate público atravessa culturas e épocas. Apesar disso, a democracia permanece como um arranjo institucional frágil, que requer nossa contante vigilância. Neste início de século 21, em ano eleitoral importante, ela segue sob ataque cerrado de seus inimigos jurados, aqui no Brasil e no mundo, como veremos.
Everton Rodrigo Santos é cientista político e professor titular da Universidade Feevale. Pesquisador e consultor Capes/Cnpq/Fapergs/WVS. Autor de Ciência Política: Lições sobre o jogo do poder, escreve mensalmente no Extra Classe.