Suspeito de emitir diplomas falsos no Brasil tem prisão cautelar solicitada no Paraguai

O gaúcho Ismael Fenner, gestor da FICS-ISICS, pode ficar proibido de sair do país. Pedido do Ministério Público ocorre após busca e apreensão durante aula com cerca de 100 brasileiros em Assunção
Dono de faculdade suspeita de emitir diplomas falsos no Brasil tem prisão cautelar solicitada no Paraguai

Operação policial ocorreu durante aula presencial com cerca de 100 estudantes brasileiros em hotel em Assunção. No detalhe, o gaúcho de Taquara Ismael Fenner, que teve prisão cautelar solicitada pelo Ministério Público paraguaio

Foto: Reprodução/MP-PY

O Ministério Público do Paraguai (MP-PY) pediu à Justiça a prisão cautelar e a proibição de saída do país do brasileiro Ismael Fenner. Ele é apontado como mentor de uma Instituição de Ensino Superior (IES) paraguaia investigada e suspeito fraudes na oferta cursos de mestrado e doutorado a brasileiros sem autorização das autoridades educacionais do país.

O pedido foi formalizado na quinta-feira, 16, após operação de busca e apreensão realizada durante um seminário com cerca de uma centena de estudantes brasileiros no Hotel Crowne Plaza, em Assunção. A organização de Fenner e outras IES estrangeiras (também suspeitas de fraudes) vêm sendo expostas pela série de reportagens Fábrica de Diplomas, do Extra Classe, desde agosto do ano passado.

Dono de faculdade suspeita de emitir diplomas falsos no Brasil tem prisão cautelar solicitada no Paraguai

Dono de faculdade suspeita de emitir diplomas falsos no Brasil tem prisão cautelar solicitada no Paraguai

Foto: Reprodução/ MP-PY

O evento intitulado Imersão ISICS foi promovido pelo agrupamento que se apresentava no Brasil como Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) e hoje se divulga como Instituto Superior Interamericano de Ciencias Sociales (ISICS). A atividade havia começado na segunda-feira, 13, com previsão de encerramento no sábado, 18.

Sob o comando do promotor de Justiça Aldo Cantero, agentes do MP, com apoio da Polícia Nacional do Paraguai, acompanhados de representantes do MEC-PY e do Cones, encontraram cerca de cem cidadãos brasileiros que participavam de palestras e aulas presenciais no segundo andar do hotel.

Segundo Cantero, não havia estudantes paraguaios no local, e os brasileiros foram liberados após serem identificados. Os organizadores do evento serão processados.

De acordo com o MP paraguaio, a ação desta quinta-feira foi desencadeada após denúncias recebidas na última terça-feira, 14, por uma série de autoridades paraguaias, entre elas o Ministério da Educação e Ciência (MEC-Py), o Conselho Nacional de Educação Superior (Cones) e a Agência Nacional de Avaliação e Acreditação da Educação Superior (Aneaes).

Foram apreendidos documentos, atas de avaliação e equipamentos eletrônicos que servirão para investigar os bastidores da Instituição de Ensino Superior (IES).

Na mesma terça-feira, após obter informações sobre a Imersão ISICS, o Extra Classe já mantinha contato com autoridades educacionais do país e com o gabinete do senador Patrick Kemper, presidente da comissão que apura, no Congresso paraguaio, o escândalo da falsificação de diplomas do ensino superior.

O disfarce da legalidade

Em coletiva após a operação, Cantero detalhou o esquema. Segundo o promotor, o atrativo para os estudantes era a alegação de que a organização estaria habilitada pelo Cones e pelo Ministério da Educação do Paraguai.

Isso ocorria por meio do uso indevido do nome de uma IES realmente habilitada por esses órgãos. Assim, seria dada aparência de legalidade aos diplomas, permitindo aos alunos validá-los em seus países de origem.

O promotor disse ainda que uma diretora do MEC-Py relatou que o Instituto teria mudado de controle e que, no momento, há uma disputa pelo uso do nome da instituição.

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Aldo Cantero, promotor de justiça do Paraguai

Foto: Reprodução/YouTube

Cantero afirmou investigar os crimes de fraude documental e estelionato. Ele classificou os estudantes como vítimas do esquema, informando que resoluções de habilitação do MEC-Py eram forjadas e apresentadas para dar credibilidade ao que chama de golpe.

O promotor confirmou o nome do brasileiro, natural de Taquara, Ismael Fenner como proprietário da organização. Fenner, segundo ele, não foi encontrado durante a operação e responde a diversas ações judiciais.

Estudantes e o “credencialismo”

Questionado sobre a relação entre o caso dos brasileiros e o escândalo do chamado credencialismo que atinge o Paraguai, Cantero disse que boa parte dos estudantes abordados pelo MP e pela Polícia Nacional ocupa cargos públicos no Brasil. Para ele, ficou evidente a busca por melhores remunerações por meio dos títulos de mestre ou doutor.

O termo credencialismo descreve a valorização crescente de certificados e diplomas como requisito para promoções funcionais, concursos públicos e progressão salarial, independentemente da qualidade da formação recebida.

Formado em Direito, um dos alunos ouvidos pela imprensa paraguaia durante a cobertura da ação do MP relatou que sabia de uma disputa societária entre os antigos donos do instituto.

“Os dois sócios tiveram uma briga, um se separou e o outro ficou”, disse.

Acrescentou que hoje permanecem à frente da instituição os sócios que mantêm os direitos sobre a marca.

Ele disse ainda ter optado por cursar o doutorado no Paraguai porque as vagas no Brasil são escassas, sobretudo nas universidades públicas, e porque as opções privadas “custam muito mais caro”.

Ex-padre acusado de abuso

Um detalhe passou quase despercebido. Em uma das mesas de apresentação de trabalhos do evento, interrompida pela chegada dos promotores e da polícia, quem coordenava os trabalhos era Carlos Richard Ibáñez.

Trata-se de um ex-sacerdote católico acusado de abuso sexual de menores. As acusações contra Ibáñez foram publicadas pelo jornal paraguaio La Nación em abril de 2016.

Dono de faculdade suspeita de emitir diplomas falsos no Brasil tem prisão cautelar solicitada no Paraguai

Carlos Richard Ibáñez, sentado ao fundo, é um ex-sacerdote católico acusado de abuso sexual de menores na Argentina

Foto: MP/PY

Segundo a reportagem, ele foi acusado de abusar sexualmente de pelo menos dez adolescentes na Argentina. O caso levou a Interpol a emitir um mandado de prisão internacional contra ele.

Ibáñez chegou a ser preso em Ciudad del Este e foi levado para a penitenciária de Tacumbú em 8 de agosto de 1995. À época, já estava foragido e atuava como padre no Paraguai, mesmo suspenso do exercício do ministério pela Diocese de Villa María, na Argentina.

Após 11 meses detido, conseguiu arquivar o pedido de extradição e, em seguida, mergulhou nos meios acadêmicos e religiosos paraguaios. Trabalhou em pequenas paróquias de áreas carentes na região central do país e em Assunção, onde celebrava missas, casamentos e batismos.

De acordo com levantamento do La Nación, Ibáñez possuía ao menos 23 títulos acadêmicos, entre doutorados, pós-graduações e especializações. Vários deles estão sob suspeita de falsificação.

Também atuou como examinador em defesas de teses e lecionou por anos, principalmente na área da educação, além de se associar em outros negócios ao advogado Ricardo Antar Morel, sócio de Ismael Fenner.

O dono de quase mil diplomas suspeitos

O auto de autuação do MP paraguaio, diante da série de evidências até agora coletadas, solicitou a prisão domiciliar de Ismael Fenner, com a “expressa proibição de abandonar o imóvel indicado como residência sem autorização judicial”. Ele também deve ser impedido de deixar o Paraguai.

O MP ainda pede que a Justiça imponha uma fiança real equivalente a um imóvel avaliado em 22 bilhões de guaranis. O valor equivale a cerca de R$ 1,7 milhão.

Gaúcho radicado no Paraguai, Fenner não apareceu nas peças de divulgação da Imersão ISICS destinadas aos brasileiros que estavam no Crowne Plaza Assunción. Tampouco aparece no novo site que substituiu o antigo endereço da FICS.

Apesar disso, não há dúvidas de que é o principal agente da suposta IES, que chegou a somar 915 diplomas de mestrado e doutorado chancelados por universidades brasileiras na Plataforma Carolina Bori.

Na Plataforma Carolina Bori, sistema do Ministério da Educação (MEC) destinado ao reconhecimento e à revalidação de títulos obtidos no exterior, são 124 doutorados e 791 mestrados. Desses, 113 foram anulados pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). O fato tem gerado questionamentos judiciais de ex-estudantes que se sentiram lesados.

No campo penal, Fenner firmou, em setembro de 2025, um Acordo de Não Persecução Penal com o Ministério Público do Paraná, confessando a falsificação de diplomas da suposta Universidade Francis Xavier, formalizados em cartório de Foz do Iguaçu.

Na esfera cível, levantamento do Extra Classe identificou ao menos 48 processos contra a FICS, Fenner e parceiros em 14 estados brasileiros. A maioria pede ressarcimento e anulação de contratos.

Para o criminalista Thiago Jordace, o padrão de atuação (hierarquia, coordenação e repetição sistemática) se aproxima da definição de organização criminosa, com indícios de estelionato e falsidade documental.

A narrativa de Fenner foi mudando ao longo do tempo. Da “confusão de nomes” entre o suposto nome fantasia FICS e a razão social ISICS, passou a afirmar ser vítima de usurpação de marca, alegando deter 65% do Instituto.

Em outubro de 2025, Fenner pediu o registro de uma marca idêntica à do ISICS no órgão de propriedade intelectual paraguaio, mas para serviços comerciais e publicitários, não educacionais. No Brasil, a captação de alunos segue por meio de representantes regionais.

Fenner também abriu, na Flórida, a empresa Universidad Interamericana de Ciencias Sociales (UICS LLC). A mesma lógica entre nome fantasia e razão social reaparece na International University of Social Sciences (IUSS), outra suposta instituição de ensino superior divulgada pelo grupo.

A crise paraguaia

A operação desta quinta-feira ocorre no contexto do escândalo mais amplo dos diplomas irregulares e falsos no Paraguai. O caso teve origem na confirmação, pelo Ministério da Educação e Ciência do país (MEC-Py), de ao menos 250 diplomas fraudulentos utilizados para ingresso na docência pública ou progressões salariais nas carreiras de servidores.

Em coletiva realizada em 13 de julho, o ministro Luis Ramírez atualizou os números para uma “cifra recorde”: 283 servidores respondendo a sindicâncias internas (nove deles em cargos de direção ligados ao registro de diplomas), 13 casos já remetidos ao Ministério Público para ações criminais e mais de mil usuários que acessaram o sistema sem autorização, responsáveis por 130 mil “atos irregulares”.

Ramírez negou invasão hacker. Segundo ele, o sistema apenas ocultava o IP de origem dos acessos.

O titular do MEC-Py estava ao lado do presidente da comissão que apura o caso no Congresso, o senador Patrick Kemper. A cena demonstra a dimensão política do escândalo, que também alcança o Brasil.

O ministro confirmou que o esquema incluiu a falsificação de resoluções do MEC-Py para viabilizar esquemas que estão sob investigação da Polícia Federal (PF) brasileira.

A denúncia foi protocolada em abril e reiterada agora. É justamente essa rota Paraguai-Brasil, entre outras, que a série Fábrica de Diplomas, do Extra Classe, documenta desde agosto do ano passado no caso FICS/ISICS.

A guerra pela marca ISICS

O ISICS foi criado em 2006 e, em 2018, teve as atividades suspensas pelo Cones. À época, sob o comando de Fenner, o Instituto só tinha autorização para o curso de Relações Internacionais, mas emitia diplomas em Educação e até Neurociências.

Desde 2025, a marca ISICS é disputada por dois grupos. De um lado, a rede Calidad Educativa, com Christian Elpidio Acevedo Alvarenga (diretor-geral) e Brígida Raquel Rodríguez Galeano (secretária-geral), responsável pela reabilitação formal da instituição.

Foi esse grupo que, em 26 de junho, foi alvo de busca e apreensão determinada pelo promotor Carlos Acuña. A suspeita é de que tenha registrado 313 diplomas de licenciatura em apenas 17 dias pelo Instituto, prazo incompatível com a duração mínima das formações.

A defesa da IES sustenta que os diplomas correspondem a alunos oriundos de outras instituições que aproveitaram até 90% das disciplinas já cursadas.

Do outro lado está Fenner, que, ao lado de Ricardo Antar Morel, se apresenta como “legítimo proprietário” do ISICS desde 2006. Foi ele quem apresentou a denúncia que resultou na operação de junho passado contra a Calidad Educativa.

Antes, ele e Antar Morel haviam ajuizado pedido para retomar o controle do ISICS. Sem análise do mérito, a ação foi rejeitada em janeiro de 2026.

Nas barbas das autoridades

Em 31 de março, o Cones já havia fiscalizado um imóvel em Assunção após denúncia apresentada pela direção do ISICS vinculada à Calidad Educativa. O local funcionava sem chancela do Conselho e do MEC-Py e ostentava as marcas ISICS e IUSS. O imóvel que abrigava as IES irregulares era ligado a Fenner.

Dias depois, em 8 de abril, o ISICS oficialmente reconhecido publicou nota se desvinculando de Fenner e da FICS, reafirmando que sua sede fica em Fernando de la Mora, o mesmo endereço que seria alvo de busca e apreensão dois meses depois, em 26 de junho, desta vez contra o grupo da Calidad Educativa.

Mesmo com esse histórico de fiscalizações e investigações que já apontavam para o esquema de Fenner, a Imersão ISICS transcorreu normalmente por quatro dias, com estudantes brasileiros cumprindo carga horária presencial e até se preparando para defender trabalhos de conclusão. Somente no dia 16 as autoridades intervieram.

A organização responsável pela imersão é a mesma que se apresenta como vítima de uma fraude praticada pela atual direção do ISICS.

Nos bastidores, um dos principais atores desse esquema, que já confessou um crime de falsificação de diplomas no Brasil, responde a inúmeras ações civis e tem quase mil diplomas sob suspeita na Plataforma Carolina Bori, seguiu por meses driblando a fiscalização paraguaia até ser finalmente flagrado nesta quinta-feira.

É o fenômeno que, no Paraguai e em sua crise de fabricação em série de diplomas, passou a ser chamado de “credencialismo” e que, ao atravessar a fronteira, representa mais um elo da cadeia que une o país guarani ao Brasil.

Extra Classe procurou a agência de assessoria de imprensa que representava a ISICS/FICS no Brasil para obter informações sobre a imersão realizada no Hotel Crowne Plaza Assunción. A resposta foi de que a empresa já não presta serviços à suposta IES.

 

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