AMBIENTE

Agricultor jurado de morte por grileiros e fazendeiros teve de sair da sua cidade

De Anapu, no Pará, Erasmo Alves Teófilo é liderança local e presidente de cooperativa do município. Em dezembro, duas lideranças foram assassinadas na região
Por Clarinha Glock / Publicado em 7 de janeiro de 2020
O agricultor Erasmo Alves Teófilo, liderança na Amazônia, luta contra o poder de destruição da grilagem

Foto: Jonathan Watts

O agricultor Erasmo Alves Teófilo, liderança na Amazônia, luta contra o poder da grilagem institucionalizada

Foto: Jonathan Watts

Pequeno agricultor de Anapu, no Pará, Erasmo Alves Teófilo teve de sair da cidade porque está ameaçado de morte. Só em dezembro de 2019, duas lideranças da região foram assassinadas porque defendiam os direitos da população local, e uma cometeu suicídio. Ali, e em outros pontos do Brasil, indígenas e ribeirinhos enfrentam o avanço das milícias de fazendeiros, madeireiros e grileiros que contam com a impunidade e com o avanço de leis aprovadas pelo Governo Federal para derrubar matas e tirar à força os povos originais e colonos de seus territórios (veja no quadro que acompanha esta entrevista).
Teófilo, 31 anos, é presidente da Cooperativa da Volta Grande do Xingu e da Associação dos Moradores do Flamingo Sul, no km 80 da Transamazônica. Também representa as comunidades dos lotes 96 e 97 da Gleba Bacajá, no interior de Anapu, no Pará. Até dezembro de 2019 vivia em Anapu, hoje está foragido devido à ameaça de morte que recebeu de grileiros e fazendeiros da região conhecidos de toda a população como o “sindicato do crime”.
São as mesmas pessoas que, direta ou indiretamente, foram arroladas pela Justiça por participação no assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2005, e, mais recentemente, se tornaram suspeitos pela morte, em 4 de dezembro de 2019, do líder dos sem-terra na cidade, Márcio Rodrigues dos Reis, e, em 9 de dezembro de 2019, do ex-vereador e conselheiro tutelar Paulo Anacleto – amigo de Teófilo.
Nesta entrevista feita por telefone, Teófilo explica por que está sendo ameaçado e diz que teme pela continuidade de uma luta que não é só sua, é pela natureza e pelo direito de viver de todos e todas.

Extra Classe – Qual é a tua luta hoje?
Erasmo Alves Teófilo – Quando nós chegamos na região de Anapu – eu e minha família, a gente era de Altamira – nós começamos a trabalhar com polpa de fruta. Fundamos a Cooperativa e organizamos os moradores para que vendessem direto para o mercado, sem atravessadores. A área em que eu morava era também de ocupação, mas há aproximadamente cinco anos o Incra fez os assentamentos e a gente regularizou. Depois disso, fui convidado a conhecer os Lotes 96 e 97, da Gleba Bacajá, que é no mesmo Travessão, só que no Ramal – uma estrada fora da principal, a mais ou menos seis quilômetros. Lá existe uma comunidade de 54 famílias que estavam ocupando a terra de forma desorganizada, sem nada produzir, sem documento. Eu milito no movimento social desde os meus 16 anos, então sou apaixonado por isso. Quando vi as famílias, com as crianças, adotei a causa. Eu conseguia um projeto para a Cooperativa no meu Travessão e repassava para eles. Há quatro anos peguei essa área para trabalhar e não tive mais paz. Comecei a ser ameaçado.

EC – Por quê? A quem interessa essa área, quem está te ameaçando?
Teófilo – É um fazendeiro (evita falar o nome) bem conhecido na região. Ele tem um patrimônio altíssimo e grilou 12 quilômetros quadrados de terra onde estão as 54 famílias.

EC – É a mesma pessoa acusada da morte da missionária Dorothy Stang?
Teófilo – Ele também foi arrolado no processo, porque a morte da Dorothy foi planejada por um grupo, não foi só uma pessoa. Eles agem geralmente assim, é chamado de “sindicato da morte”. Aconteceu agora comigo, por isso tive de sair.

EC – As ameaças vêm de que forma?
Teófilo – As ameaças vêm pessoalmente mesmo. Tenho vários boletins de ocorrência. Quando falam: “eu vou te matar”, já estão com o assassinato projetado.

EC – Falam de cara aberta para a pessoa?
Teófilo – De cara aberta. Aqui o sistema público trabalha todo para eles.

EC – É a segurança da impunidade…
Teófilo – Com certeza. Por isso meus companheiros fizeram questão de me resgatar lá de dentro, porque em um mês – dezembro, que era para ser de comemoração – fui a três velórios seguidos, e sofri uma tentativa. O pessoal veio tentar me matar em casa.

“Eu só quero viver bem e em paz. Mas não consigo viver só eu “bem”, quero passar esse “bem” pros outros. Então essa é a função do meu trabalho, é tentar passar essa visão do que eu vivo pras outras comunidades.”

EC – Como tu escapaste?
Teófilo – Eles cercaram a casa, e chamaram por mim. Xingaram minha mãe, xingaram meu pai de frouxo, de veado, provocaram de todas as formas. Como não saímos, acharam que a gente tava com alguma coisa lá dentro para revidar. Eles fizeram uma baderna na comunidade todinha, fui saber no outro dia. Bateram em uma professora da comunidade. Deram tiro lá em frente de casa. Deram três tiros de pistola. Mas não entraram. No mesmo minuto, eu me comuniquei com o Ministério Público Federal, que se comunicou com o Xingu Vivo.

EC – Márcio Reis e Paulo Anacleto também eram de Anapu?
Teófilo – Sim. Paulo Anacleto era meu amigo pessoal (nesse momento, Teófilo faz uma pausa na fala, está emocionado). Aqui, se mexer com questões de terra, é muito difícil. O Paulo Anacleto foi duas vezes vereador, era um cara excepcional, agora era conselheiro tutelar, e era pobre – apesar de ter sido vereador. Precisa de 22 crianças para poder fazer um colégio dentro da comunidade, aí eu tive a ideia de procurar o Paulo para ver se, como conselheiro tutelar, poderia ajudar. O Paulo foi até a comunidade, e fez um documento que mostrou que há 46 crianças sem escola. Com esse documento, ele deu entrada no Ministério Público. Fiz uma foto com o Paulo na comunidade e botei no meu perfil no Facebook. Assim que botei a foto, ele começou a ser ameaçado.

EC – O que te faz manter essa luta?
Teófilo – Principalmente a situação dos agricultores. Você fala de 54 vidas, e da Volta Grande do Xingu, que é onde atuo. É calamidade pública, é bem pobre. Mas o pobre de lá não passa fome, é diferente. Na cidade grande, na capital, as pessoas passam fome. Lá no Xingu, com um espacinho de terra, se tiver uma pessoa igual eu pra coordenar, tem milho, tem arroz, tem feijão, tem peixe e tem carne. A pessoa não é rica de políticas públicas – não tem acesso a colégio, a posto de saúde, a hospital, a segurança -, mas tem o que comer, o que fazer, tem o básico. Eu me apaixonei pelo Lote 96 porque tudo ali é feito comunitariamente. Se vai um grupo pescar, ou caçar, ou coletar arroz, feijão, entregam para o grupo. O conflito se acirrou no lote, porque tá no final do processo na Justiça, e os agricultores estão ganhando o direito à posse da terra. O juiz deu quatro meses para o fazendeiro tirar qualquer coisa que ele tivesse na área. O prazo vence em 20 de janeiro de 2020. O grileiro disse que não vai acatar a ordem judicial. Estou fazendo uma mobilização junto aos movimentos sociais e ao Ministério Público para pressionar o Estado para acabar com o litígio. Esse processo já tem 10 anos, tá passando da hora de ser resolvido.

Durante evento Amazônia Centro do Mundo, em novembro de 2019, ativistas, movimentos sociais, indígenas, quilombolas, agricultores fizeram uma marcha pelo centro de Altamira (PA) para alertar sobre a destruição da floresta e ameaças

Foto: Clarinha Glock

Escultura na entrada da UFPA, durante evento Amazônia Centro do Mundo, lembrou os assassinatos de indígenas e agricultores

Foto: Clarinha Glock

“Se eu tombar, toda aquela
região, de uma certa forma, morre junto”

EC – Que mensagem tu enviarias para a população que está aqui no Sul, e desconhece essa realidade?
Teófilo – A mensagem que eu posso passar é…de coração. Onde eu morava – moro ainda, vou voltar para lá para fazer o meu trabalho – é um lugar lindo, de natureza sem igual, talvez até que vocês não conheçam aí do Sul. É um lugar em que as famílias, apesar de toda a tragédia, de toda a luta, da falta de política pública, conseguem sobreviver e prosperar respeitando a natureza. Mas é um lugar também que é ameaçado e sufocado por grilagens de terra, por fazendeiros, por grandes projetos. Eu moro com meu pai, minha mãe e minha mulher num lote de 16 alqueires de terras (cada alqueire, nos estados do Norte costumam ter aproximadamente 2,72 hectares), que é abaixo do lote do Incra, de 20 alqueires. E nós vivemos muito bem – temos o que comer, o que beber, respeitando o meio ambiente. Não vou ser um milionário devido ao meu trabalho. Eu só quero viver bem e em paz. Mas não consigo viver só eu “bem”, quero passar esse “bem” pros outros. Então essa é a função do meu trabalho, é tentar passar essa visão do que eu vivo pras outras comunidades. E aí existem os grandes projetos que não visam o bem estar do pessoal, nem da Natureza, só o lucro. Infelizmente, aqui o Estado trabalha em função dos mais ricos. O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), depois do encontro Amazônia Centro do Mundo, foi agredido. Quando foi registrar o Boletim de Ocorrência, o mesmo agressor entrou na delegacia e agrediu de novo. Se fosse eu que desse um tapa numa pessoa dentro da delegacia, ficaria preso sem fiança por vários meses. Então essa é a diferença.

EC – E a polícia por que não atua?
Teófilo – O fazendeiro e o grileiro contratam um pistoleiro, e a polícia sabe quem são, mas fecha os olhos e deixa acontecer. Quando acontece, dizem que não tem a ver com a situação, que foi uma briga, um assalto, como aconteceu com o Márcio Reis. Eu mesmo fui na delegacia e não quiseram registrar Boletim de Ocorrência, tive que ir na Corregedoria. O delegado falou que não gosta de mim. Pra ele, invasor de terra é a mesma coisa que bandido. Só que ninguém invadiu. Eram áreas com documento falso, que a União pediu de volta para colonização, e a comunidade ocupou. A maioria é pasto. Eu sempre falo que pasto não pode valer mais do que um ser humano. E aqui é a Amazônia! Moro num lugar lindo que já foi estuprado por Belo Monte e por grileiros. (O presidente Jair) Bolsonaro vai facilitar os projetos de destruição da Amazônia. Destruir um milhão de alqueires para plantio de soja e capim onde é mata nativa, onde nós, colonos, não precisamos derrubar um palmo para conseguir o que comer! Se eu for morto, não sei se existe mais gente com coragem de peitar essas situações. Penso todo dia nisso. Se eu tombar, toda aquela região, de uma certa forma, morre junto.

Gráfico: Reprodução

Gráfico: Reprodução

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