MOVIMENTO

Sem a Amazônia não há controle do superaquecimento global

Indígenas, quilombolas, ativistas, lideranças do movimento social e ambiental, ongs e cientistas de vários países, reunidos no Pará, nesta semana, pedem união em defesa da floresta e da vida
Por Clarinha Glock, de Altamira, Pará / Publicado em 20 de novembro de 2019
Raoni: é preciso unir forças para continuar a defesa do planeta. Porque a floresta, o rio, o igarapé é nossa vida

Foto: Clarinha Glock

Raoni: é preciso unir forças para continuar a defesa do planeta. Porque a floresta, o rio, o igarapé é nossa vida

Foto: Clarinha Glock

Na época da emergência climática, a Amazônia é o centro do mundo. Sem manter a maior floresta tropical do planeta viva, não há como controlar o superaquecimento global. Assim começa o manifesto construído por muitas mãos e vozes, lançado na noite desta terça-feira, 19 de novembro, em Altamira, Pará. O documento é um grito pela vida e contra as ameaças e assassinatos que há anos vêm tentando calar quem quer denunciar a destruição provocada pelo agronegócio, pela grilagem de terras, por madeireiras e por empreendimentos como a hidrelétrica de Belo Monte e a mineradora Belo Sun.

Altamira, que já recebeu o título de cidade mais violenta do Brasil, sediou o mais simbólico e importante encontro deste início de século para discutir o futuro do planeta. A abertura oficial do evento Amazônia Centro do Mundo coincidiu com a divulgação, no dia 18, do último relatório do Inpe que indica o maior aumento da taxa de desmatamento da Amazônia desde 2008: 9.762 quilômetros quadrados de vegetação nativa, entre agosto de 2018 e julho de 2019, o equivalente a cerca de 30% em relação ao período anterior.

Representantes dos povos da floresta, de movimentos sociais, acadêmicos, ativistas, ONGs, quilombolas e indígenas de outros estados se reuniram no campus da Universidade Federal do Pará, na beira do rio Xingu, para dizer NÃO, em todas as línguas e formas – da arte, da cultura, da educação, do envolvimento,  à politica racista, misógina, LGBTfóbica, genocida e ecocida do Governo Federal; e afirmar que estão dispostos a lutar contra todas as formas de desigualdade, construindo alianças para, nas diferenças, combater a colonização de almas e mentes. Como diz o documento: somar conhecimentos, fazer o diálogo das identidades, respeitando todos os corpos e apostando na educação e na troca de saberes.

Essa luta se travou inclusive ao longo do evento, quando ruralistas e grileiros, incluindo suspeitos de serem mandantes do assassinato da irmã Dorothy Stang, tentaram tumultuar e armar uma farsa midiática, assediando participantes do encontro, provocando com gestos e palavras, e divulgando que o cacique kayapó Raoni Metuktire havia agredido um deles. Ninguém se intimidou.

Raoni, mais de uma vez, falou durante o encontro para seus parentes indígenas de vários grupos do Brasil, para não indígenas e sobretudo para jovens – incluindo integrantes do Extintion Rebellion e do Fridays for Future presentes  –, que é preciso unir forças para continuar a defesa do planeta. “Porque a floresta, o rio, o igarapé é nossa vida”, repetiu.

Levantando uma garrafa plástica de água, o cientista Antonio Nobre acrescentou: “Não é que tem floresta onde chove. Chove onde tem floresta, e já estamos medindo a diminuição de fluxo de água na Amazônia”, Por isso, lembrou Nobre, “se acabar a água, acabou a vida, e sem vida, acabou o lucro!”, acrescentou.

Ana Rosa Calado Cyrus, 23 anos, da ONG Engajamento: A representatividade precisa existir. Eu sou da Amazônia, e os espaços de voz aqui são muito escassos para a juventude. Se nossos passos agora não forem firmes, o que vai acontecer no nosso futuro?

Foto: Clarinha Glock

Ana Rosa Calado Cyrus, 23 anos, da ONG Engajamundo: A representatividade precisa existir. Eu sou da Amazônia, e os espaços de voz aqui são muito escassos para a juventude. Se nossos passos agora não forem firmes, o que vai acontecer no nosso futuro?

Foto: Clarinha Glock

O encontro deixou sementes de vários tipos. De árvores, através das 62 mudas plantadas para lembrar as vítimas do massacre no Presídio de Altamira, e de sonhos. Entre o grupo de jovens da ONG Engajamundo, que ajudou a organizar o evento, a voz de Ana Rosa Calado Cyrus, 23 anos, natural de Belém do Pará – mulher, negra – pedagoga e mestranda em Geografia, ajuda a entender o tamanho do comprometimento que o evento ajudou a pautar.

“A representatividade precisa existir. Eu sou da Amazônia, e os espaços de voz aqui são muito escassos para a juventude. Se nossos passos agora não forem firmes, o que vai acontecer no nosso futuro? É como uma indígena falou: o bonito lá na frente não sabe o que tá acontecendo na terra. Somos um país que está se construindo”. Ana é amiga de Matsipaya Waura Txucarramãe, 25 anos, que é neto de Raoni, e que começa a conhecer outros jovens do Engajamundo. Está terminando o ensino médio para “entender a cultura do branco, e para sobreviver diante do mundo que a cada dia vem mudando, sempre querendo matar a cultura indígena”. Matsi, como é conhecido,sabe que os impactos da economia e da colonização podem ser combatidos também com informação, educação e formação de outros jovens. Quer aprender a usar ferramentas de não indígenas para associar ao conhecimento recebido dos mais velhos e assim ocupar os espaços de decisão e política. “Hoje a gente enfrenta o agrotóxico presente nos rios e na mata. Estamos montando uma rede de comunicação para pautar os direitos indígenas e a maior participação”, avisou.

Amazônia é o centro do mundo

Foto: Clarinha Glcok

Amazônia Centro do Mundo: grupo reunido para a primeira leitura do manifesto

Foto: Clarinha Glcok

Confira a íntegra do documento escrito pelos participantes do evento:

Manifesto da Amazônia Centro do Mundo

Na época da emergência climática, a Amazônia é o centro do mundo. Sem manter a maior floresta tropical do planeta viva, não há como controlar o superaquecimento global. Ao transpirar, a floresta lança 20 trilhões de litros de água na atmosfera a cada 24 horas. A floresta cria rios voadores sobre as nossas cabeças maiores do que o Amazonas. O suor da floresta salva o planeta todos os dias. Mas esta floresta está sendo destruída aceleradamente pelo desenvolvimento predatório e corre o risco de alcançar o ponto de não retorno em alguns anos. Diante da catástrofe em curso, nós, movimentos sociais e sociedade organizada, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, cientistas e ativistas climáticos do Brasil e do Mundo vencemos muros e barreiras para unirmos nossas vozes em torno de um objetivo comum: salvar a floresta e lutar contra a extinção das vidas no planeta.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:
– Diante da emergência climática, estamos todos no mesmo barco?

E declaramos:
Não.

A maioria tem um barco de papel, uma minoria um transatlântico. Aqueles que provocaram a crise climática serão os menos afetados por ela. Aqueles e aquelas que não a provocaram já estão sofrendo e são os que mais sofrerão os impactos e também os que sofrerão primeiro. Já sofrem. Deslocaremos o que é centro e o que é periferia, unindo as comunidades urbanas às comunidades da floresta, para que assumam o lugar ao qual pertencem: o centro. Combateremos o apartheid climático e o racismo ambiental que tenta cercar o planeta com muros para os mais afetados não poderem entrar. Não permitiremos que este planeta se torne um condomínio. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que soberania é esta em que uma empresa, a Norte Energia S.A., controla a água do rio Xingu para mover a Usina Hidrelétrica de Belo Monte? E, assim, tem poder de vida e morte sobres povos e ecossistemas inteiros? E declaramos: Isso não é soberania, isso é ecocídio. E é também genocídio. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que nacionalismo é este que pretende entregar a Volta Grande do Xingu para uma mineradora canadense, a Belo Sun, explorar ouro e depois deixar como legado um cemitério tóxico para o Brasil?

E declaramos:

Isso não é nacionalismo, é submissão. E é crime. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que governo é este que suspendeu as demarcações das terras indígenas, públicas, e pretende abrir as terras já demarcadas para exploração e lucros privados?

E declaramos:

Este não é um governo para todos os brasileiros, mas uma ação entre amigos. Exigimos que o governo demarque as terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas de acordo com a constituição. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Que desenvolvimento para a Amazônia é este, que reduz milhões de espécies a soja, boi, minério, especulação de terras e obras de destruição?

E declaramos:

Isso não é desenvolvimento. É predação. Lucro de poucos à custa da morte de muitos. Em vez de desenvolvimento, queremos envolvimento. Queremos Consulta Livre prévia e Informada. Queremos salvaguardas para os povos nas negociações climáticas. É a floresta e a economia da floresta que precisam crescer. Agricultores familiares e produtores rurais que respeitam os limites legais e estão buscando modelos de múltiplas espécies para um envolvimento ajustado a tempos de crise climática, devem ser valorizados. Reflorestemos as áreas destruídas. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Como a supremacia branca e patriarcal determinou a violência contra a Amazônia e contra as mulheres?

E declaramos:

Parte das elites políticas e econômicas do Brasil enxergam a floresta da mesma forma que enxergam as mulheres: como um corpo para violação e exploração. As mulheres lideram as lutas na Amazônia e, como a floresta, são também, junto com a juventude negra e pobre, as que mais sofrem violência. Precisamos barrar a violação dos corpos. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Quem são vocês, os que cortam as árvores e as vidas, os que envenenam os rios e as matas com agrotóxicos, mercúrio e cianeto, os que secam as águas, osque arrancam as crianças da florestas e as jogam nas periferias urbanas destituídas de tudo e também de memória?

E declaramos:

Vocês veem a floresta e os rios como mercadoria, como recursos a serem explorados. Vocês veem os humanos e os não humanos como descartáveis. Vocês são os que tiveram a alma asfixiada por concreto. Vocês são os que não amam nem mesmo os próprios filhos porque não se importam se eles não tiverem futuro. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Quem somos nós?

Nós somos aqueles e aquelas que não possuem a floresta. Nós somos floresta. Nós somos aqueles e aquelas que não destruímos a natureza. Nós somos natureza. Nós somos aqueles e aquelas que temos várias cores e formas e línguas e sexualidades e cosmologias e culturas. Somos também aqueles e aquelas que fazemos das diferenças a nossa força. Os que respeitam todas as gentes, as humanas e as não humanas. Aqueles e aquelas que querem viver e fazer viver. Somos também aqueles e aquelas que sabem que não há os de dentro e os de fora. Somos todos e todas de dentro na única casa que temos. Nós somos aqueles e aquelas que queremos garantir um futuro até mesmo para os filhos daquele que tentam nos destruir.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– Qual é a nossa aliança?

E declaramos:

Nossa aliança é pela descolonização de almas e mentes. Unidos no centro do mundo, somaremos o conhecimento dos intelectuais da floresta ao dos intelectuais da universidade; articularemos a experiência dos mais velhos à potência dos mais jovens; faremos o diálogo das identidades; respeitaremos todos os corpos. Sonhamos uma educação com a comunidade e não para a comunidade. Sabemos que só existirá floresta enquanto existirem os povos da floresta. Estaremos juntos, como múltiplos de um, nas lutas de todas as Amazônias. Onde a floresta sangrar, nós estaremos. Lutaremos contra todas as formas de morte.

Nós, que nos unimos no centro do mundo, perguntamos:

– O que queremos?

E declaramos:

Queremos amazonizar o mundo e amazonizar a nós mesmos. Liderados pelos povos da floresta, queremos refundar o que chamamos de humano e voltar a imaginar um futuro onde possamos viver.

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