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Desenho: Dieferson Trindade
No último dia 22 dedicamos o samba a Ogum no Estude, Trabalhe e Sambe. Ainda nem tínhamos tocado a primeira música quando uma garrafa de cerveja posta sobre a mesa tombou, aparentemente sem motivo. O André brincou:
— O pai já quer beber?
Mas o Vicente, que estava ao meu lado, fez uma interpretação diferente. Vendo que a cerveja tinha derramado na minha direção, comentou, muito sério, que eu devia estar em falta com as minhas obrigações. Reagi como sempre reajo a comentários religiosos: não concordei nem discordei; muito pelo contrário.
Hoje, porém, me dei conta de que, coincidência ou não, o Vicente tinha razão. Estou ouvindo a gravação de Por Todos os Santos do Fundo de Quintal desde que acordei, tentando tirar a harmonia. E aí a ficha caiu.
Foi a Dalva quem primeiro chamou a minha atenção para o fato de que as divindades das religiões de matriz africana, em contraste com as divindades abraâmicas, não tentam representar uma ideia de perfeição ou pureza absoluta, localizada além das possibilidades humanas; ao invés disso, parecem mesmo um espelho da própria humanidade. É por isso que o André não precisou de qualquer solenidade eclesiástica para se referir a Ogum; foi sorrindo e concebendo-o como um igual que o fez.
E essa cosmovisão que não distingue sagrado e mundano está lá, com toda a sua potência, na letra de Por Todos os Santos. Desesperado de solidão e saudade, sentimentos que conheço bem, o personagem da canção pede socorro aos seus santos, entre os quais alguns orixás — Ogum, Oxossi, Omolu, Nanã, Yansã, Xangô —, mas também figuras como Marçal, o mestre de baterias de escolas de samba; Candeia, o partideiro; Anastácia, a escravizada que se recusou a ter relações sexuais com o seu escravizador; Dandara e Zumbi, os líderes quilombolas.
Naquele dia 22, já fazia algum tempo que eu vinha empurrando com a barriga o compromisso de encarar o luto e escrever este doloroso texto em homenagem ao querido Marquinhos, que terminou sua epopeia, foi oló, desencarnou. O Vicente tinha razão, portanto. Eu estava em falta com as minhas obrigações. A ficha caiu.
E, falando em ficha que cai, foi justamente assim que conheci o Marquinhos, numa noite de maio do ano passado. Àquela altura da sua epopeia, ele já estava em situação de rua, mas trabalhava ainda ajudando a Jussara no Eski, que viria a ser o meu bar de jogar sinuca. Eu tinha colocado uma ficha na mesa e a maldita não descia, até que surgiu o Marquinhos para dar um tabefe na gaveta.
— Não é jeito: é força — explicou.
Foi o primeiro milagre dele que testemunhei. E o segundo, ainda mais impressionante, foi apenas algumas noites depois.
— Ah, é, que tu vai matar essa bola!
Eu tinha os meus motivos para duvidar, quando vi ele mirando aquela preta. Era impossível encaçapá-la. Ou pelo menos assim me parecia.
— Então, pega ela lá, querido! — foi o que ele disse, antes de dar uma paulada e fazer a oito desaparecer na caçapa, para espanto de todos ao redor. — Tudo acontece — explicou.
O terceiro milagre foi numa outra ocasião. Tínhamos firmado um acordo, eu e ele: eu tentava largar a cocaína e ele tentava largar o crack. Mas estava difícil para nós dois. Uma noite, na fissura, ele me pediu dez reais. Dei. Ele caminhou até o outro lado da rua, parou, conversou com o contêiner de lixo, voltou, me devolveu o dinheiro.
— Não preciso disso.
E trabalhou a noite inteira sem usar nada.
Tínhamos, ainda, um segundo acordo. Depois dos dois volumes que preciso escrever sobre masculinidade tóxica para completar a trilogia iniciada com Vera, ele me contaria toda a sua epopeia, para que eu pudesse escrevê-la.
Mas não deu tempo. O Marquinhos morreu no dia 26 de março de 2026, às 10h48 da manhã. Tinha caído e batido com a cabeça no ferro-velho onde andava trabalhando nos últimos dias, e a causa da morte oficial foi traumatismo craniano. Mas eu sei que não foi disso que o Marquinhos morreu. Ele morreu foi de Brasil.
Fica aqui a minha singela homenagem, querido. Pode saber: quando os “santos” vierem me atacar, como te atacaram a vida inteira, conto contigo: o teu nome estará entre os invocados pela minha voz, a tua alma estará entre as iluminadas pela vela que vou acender. Olha por mim, aí de cima, que, aqui em baixo, jogo uma ficha de vez em quando, em tua memória. Fica sendo o nosso terceiro acordo.
Até pra sempre.
José Falero é escritor e roteirista, autor dos livros Vila Sapo, Os Supridores, Vera e Mas em que mundo tu vive? e, desde março de 2026, escreve mensalmente para o Extra Classe.