Investigação no Paraguai expõe guerra por controle de esquema de diplomas falsos

Ação do MP paraguaio amplia investigações sobre registros irregulares e mostra como a guerra entre grupos rivais alimenta a insegurança de milhares de estudantes brasileiros

Investigação no Paraguai expõe guerra por controle de esquema de diplomas falsos

Foto: cookie_studio/Freepik-Magnific

O Ministério Público do Paraguai realizou, na última sexta-feira, 26, uma operação de busca e apreensão na sede do Instituto Superior Interamericano de Ciencias Sociales (ISICS). Na eclosão de um escândalo de titulações acadêmicas fraudulentas naquele país, no último mês, a instituição de ensino superior (IES), regularizada em 2025, sete anos depois depois de intervenção do governo, agora figura em nova denúncia de suposta emissão irregular de 313 diplomas de licenciatura. A ação recai sobre uma “marca” que tem mobilizado autoridades também no Brasil, em meio a uma série de diplomações falsas.

Na recente operação, os títulos do ISICS teriam sido registrados em apenas 17 dias, volume que, segundo as autoridades, “não guardaria relação com a duração dos processos formativos”. Para o MP paraguaio, é incompatível que o instituto, com menos de um ano de regularização, diplomasse estudantes cujos cursos exigem período de três a quatro anos para conclusão.

A ação, coordenada pelo promotor Carlos Acuña, da Unidade Penal nº 2 de Fernando de la Mora, teve como foco a atual administração do ISICS: Christian Elpidio Acevedo Alvarenga, diretor-geral, e Brígida Raquel Rodríguez Galeano, secretária-geral. Eles integram o grupo Calidad Educativa, que trabalhou pelo retorno da IES ao mercado educacional após intervenção do Conselho Nacional de Educação Superior (Cones), em 2018. Naquele ano, a imprensa paraguaia registrou Ricardo Antar Morel e o brasileiro Ismael Fenner à frente do instituto.

Além de suspeitas de falsificação de documentos, o caso revela uma disputa muito mais complexa. Há, no Paraguai, uma guerra entre grupos que lutam pelo controle da instituição, que se tornou peça-chave em um esquema de comercialização de títulos acadêmicos stricto sensu irregulares para estudantes brasileiros.

Com a alegação de usar o “nome fantasia” do ISICS, Ismael Fenner inundou, nos últimos anos, o Brasil com diplomas de mestrado e doutorado da Facultat Interamericana de Ciencias Sociales (FICS). De norte a sul, os títulos foram reconhecidos na Plataforma Carolina Bori, ferramenta do Ministério da Educação (MEC) para o registro de diplomações obtidas no exterior, mediante validação por IES nacionais.

Ele só não dizia que, 12 anos após a criação do ISICS, o Cones interveio na instituição por causa de operações irregulares. Determinou o encerramento das atividades e suspendeu o registro de todos os títulos emitidos pela instituição após 2013. A razão: o ISICS só tinha autorização legal para atuar na área de Relações Internacionais e vinha oferecendo e registrando diplomas em áreas como Ciências da Educação, Educação Infantil e até Neurociências.

Mas a sorte do brasileiro, que circula entre Foz do Iguaçu e Assunção há anos, mudou com a revelação das investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) para desbaratar esquemas de supostas IES estrangeiras no Brasil. Todas voltadas a facilitar a progressão remunerada na carreira de servidores públicos ou mesmo a obtenção de pontos em concursos.

Em processo, a confissão de atividade irregular

Investigação no Paraguai expõe guerra por controle de esquema de diplomas falsos

Em vídeo, Radamese Lima comemora “regularização”do ISICS. Conforme acontecimentos, representante de Fenner passa a ser só estudante da organização

Foto: Reprodução de vídeo/Redes Sociais

Foi de Fenner e de seu advogado, Richard Rojas, a denúncia que desencadeou a operação. Ele se apresenta como “legítimo proprietário” do ISICS ao lado de Ricardo Antar Morel e afirma ter identificado irregularidades desde 2018. No ano passado, após a Calidad Educativa promover, junto às autoridades paraguaias — Congresso, Ministério da Educação e Ciências e Cones —, a regularização do instituto, Fenner, que até então sustentava suas operações no Brasil com a documentação de criação do ISICS, em 2006, passou a bradar ter sido vítima de “usurpação institucional”.

A disputa de Fenner com os atuais dirigentes do ISICS, que receberam, no dia 26, agentes do MP paraguaio e da Polícia Nacional, correspondente à PF brasileira, rendeu, no entanto, a confissão de atuação irregular da própria pessoa que se apresenta, no Brasil, como diretor-geral da FICS.

Em um pedido de Amparo Constitucional à Justiça paraguaia contra o Cones, Fenner e Antar Morel afirmam que não promoveram a regularização do ISICS após a intervenção de 2018 porque não tinham condições financeiras e estruturais para cumprir as exigências do órgão à época. O Amparo Constitucional, na legislação daquele país, guarda semelhanças com o mandado de segurança previsto no ordenamento jurídico brasileiro.

Curiosamente, após o grupo Calidad Educativa conseguir reverter a intervenção, ampliar o campo de atuação do ISICS junto ao Congresso paraguaio e aprovar novas carreiras no Cones, Fenner e Antar Morel declararam, na solicitação de Amparo Constitucional, estar em plenas condições de reassumir os trabalhos.

Esse movimento, contudo, foi acompanhado por episódios igualmente dignos de nota, como a divulgação, nas redes sociais da FICS, de um doutorado em Ciências da Educação voltado ao público brasileiro; a comemoração efusiva da suposta regularização da IES em grupos criados por representantes da FICS; e as manifestações entusiásticas de membros da organização, a exemplo de Radamese Lima, do Ceará.

Paralelamente, enquanto o grupo ligado à Calidad Educativa obtinha aprovações e habilitações de cursos junto ao Estado paraguaio, Fenner se apropriava dessas conquistas em sua comunicação com alunos no Brasil e as apresentava como fruto de sua própria atuação. É essa apropriação de atos administrativos praticados por terceiros que tem contribuído para ampliar a confusão entre os estudantes brasileiros da FICS.

A suposta regularização, segundo especialistas ouvidos pelo Extra Classe, mesmo que seja verdadeira, não confere legalidade às titulações cursadas até então, em razão do vício de origem.

Em janeiro de 2026, a Justiça paraguaia rejeitou o pedido de Amparo Constitucional de Fenner e Antar Morel. O entendimento foi de que a ação não era o instrumento jurídico adequado para decidir a disputa pelo controle do ISICS e, por isso, o mérito não foi analisado.

Registros relâmpago

O cerne da investigação atual é o que o MP paraguaio chamou de “registro massivo”. Entre 5 e 22 de maio de 2026, um intervalo de apenas 17 dias, o ISICS, sob a administração de Acevedo, registrou 313 diplomas: 242 de Licenciatura em Educação Escolar Básica, 57 de Licenciatura em Educação Inicial e 14 de Licenciatura em Ciências da Educação.

As autoridades questionam como isso foi possível. As carreiras só obtiveram nova habilitação em 27 de fevereiro de 2026, por meio da Resolução nº 120 do Cones, que autorizou a oferta dos cursos. As licenciaturas, conforme a legislação paraguaia, devem ter duração de quatro anos.

Os denunciantes argumentam que seria “impossível que os supostos alunos completassem os planos de estudo em tão pouco tempo”.

A defesa do ISICS, por sua vez, apresentou uma versão diferente. Afirmou que os 313 diplomas correspondem a “estudantes de outras instituições de ensino superior que solicitaram processos de validação de acordo com os regulamentos vigentes”. Segundo Acevedo, a Resolução nº 622/2017 do Cones permite a convalidação de até 90% das disciplinas em cursos da área de ciências sociais, e os alunos teriam realizado apenas a defesa de seus trabalhos de graduação no instituto.

Cortina de fumaça

Investigação no Paraguai expõe guerra por controle de esquema de diplomas falsos

Mandado de Segurança de Fenner e sócio confirma que Instituto usado no Brasil estava irregular

Foto: Reprodução

Os documentos reunidos pela reportagem indicam que a realidade é mais complexa e que a investigação do MP paraguaio, por si só, não resolve a disputa sobre a titularidade do ISICS.

Apesar disso, a operação realizada na sexta-feira passou a ser utilizada pelo grupo de Fenner no Brasil como argumento para reforçar sua narrativa de que seriam os legítimos representantes do ISICS e de que tudo o que foi noticiado até agora no Brasil não passa de um desserviço que prejudicou a FICS, o ISICS e os estudantes.

Radamese Lima, que ora se apresenta como representante da FICS no Ceará, ora como simples “estudante” da organização, publicou ao menos três textos em um veículo eletrônico que tem se colocado na defesa de Fenner e de outras organizações com atuação suspeita no Brasil.

Fontes policiais ouvidas pela reportagem afirmam que, além de a promoção da confusão ser um método utilizado por estelionatários para manter seus golpes, ou mesmo uma forma de “escapar pela tangente”, há um clima de apreensão entre os que operam o “conto do mestrado e doutorado falsos” no Brasil.

Não é por menos. Nos últimos anos, a PF intensificou sua atuação para desbaratar grupos criminosos que atuam nessa seara. Das duas pessoas detidas entre o ano passado e este ano, nossa reportagem já confirmou o método de atuação, os antecedentes e a identidade de uma delas.

Uma constatação que tem se confirmado é a existência de uma atuação conjunta, com elementos que, embora concorram em um mercado nebuloso, nos momentos em que a situação aperta se apoiam mutuamente. Segundo um experiente criminalista, “há união no crime”.

Para saber mais sobre este tema leia a série de matérias Fábrica de Diplomas.

Edição executiva: César Fraga

 

Comentários