Opinião
Tela Brasil: uma boa ideia que deve ser mantida e expandida
Plataforma pública amplia o acesso ao audiovisual brasileiro, mas ainda levanta dúvidas sobre curadoria, financiamento…

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Flávio Bolsonaro rasga a fantasia de “moderado” já na pré-campanha eleitoral, retornando dos EUA após uma conspiração internacional com Trump, consegue a decretação do PCC e do CV como organizações terroristas, além da ameaça ao Pix e do tarifaço sobre o Brasil. Sua atitude, que abre espaço para interferências jurídicas, políticas e econômicas no país, alinha-se à doutrina Donroe (recriação da doutrina Monroe, América Latina como quintal dos americanos).
Este modus operandi das elites não é novidade. Carlos Lacerda, nos anos 1950, buscou os americanos contra Getúlio. A UDN, no pré-golpe de 1964, apostava no respaldo político americano contra adversários domésticos. Como argumentava o velho Darcy Ribeiro: “o Brasil nunca foi um país que viveu pra si, sempre para os outros”; eu acrescentaria: sob o patrocínio de uma elite que achava que era francesa, hoje tem certeza de que é americana.
O bolsonarismo é um movimento político antidemocrático, como já argumentei em artigo anterior, mas, sobretudo, anticapitalista, antipatriótico e familista.
A família Bolsonaro pode ser compreendida em sua inserção no contexto institucional do Rio de Janeiro, uma espécie de “cidade oriental”. Weber argumentava que as sociedades orientais, desenvolvidas na China e na Índia, são estruturadas de cima para baixo, ligadas a uma autoridade central, como um Imperador ou Sultão.
A economia, os negócios, tudo gira em torno do Estado, onde as relações são pessoais, familistas e religiosas. Trata-se de uma sociedade dependente do aparato estatal, tal qual o Rio como sede da Coroa portuguesa. Ao contrário das sociedades ocidentais, de tradição greco-romana, que são criadas de baixo para cima: há autonomia da sociedade em relação ao Estado, e as relações são impessoais.
Os Bolsonaros construíram suas carreiras inteiramente no interior desse tipo de “configuração oriental”: como parlamentares locais, estaduais, até serem catapultados ao nível federal.
Diversas reportagens apontam práticas da família de apropriação privada de dinheiro público (patrimonialismo) e controle territorial por grupos armados (milícias e o crime organizado). Há uma completa ausência de um “espírito capitalista” nesses funcionários públicos cariocas. A maior ousadia empresarial de que se tem notícia dos Bolsonaros é uma loja de chocolates num shopping onde as pessoas compram apenas com dinheiro vivo.
O bolsonarismo é um movimento anticapitalista no sentido sociológico, dada sua inserção estrutural em um padrão de dominação que se sustenta na dependência do Estado, na violência paramilitar, na fragilidade democrática e na completa submissão dos negócios do Estado e da nação à família.
Daí seu caráter antipatriótico e familista. Ao atacar instituições, tensionar a economia e flertar com soluções externas, o bolsonarismo não só desmonta as bases mínimas de qualquer ordem capitalista funcional, como demonstra seu pouco apreço pelo aprendizado histórico, segundo aquele filósofo grego: “a virtude está no meio-termo”.
Se observarmos o cenário pós-redemocratização, dos três presidentes eleitos à direita no sistema político, o êxito obtido foi apenas com a moderação de um FHC. A radicalização de Collor levou-o ao impeachment, e o extremismo de Jair Bolsonaro levou-o à prisão.
Verdade seja dita: nós, brasileiros, nunca tivemos um grande apreço pelo capitalismo, nem pelo Brasil. Foram quase quatro séculos de escravidão contra pouco mais de um século de país formalmente livre.
Não à toa que, tardiamente, abolimos um dos últimos resquícios do trabalho escravizado no país, aprovando a PEC das domésticas somente em 2015.
Nossa modernização capitalista se inicia mesmo com a ditadura do Estado Novo, nos anos 1930, feita, ironicamente, por um estancieiro lá de São Borja (Getúlio).
Para quem teve a sua independência proclamada por um português (D. Pedro I) e a Proclamação da República por um monarquista (Deodoro), é um sindicalista (Lula) que vai se colocando como o maior administrador do capitalismo brasileiro neste início de século 21 pela completa incompetência da direita em oferecer uma alternativa democrática, nacional e razoável para milhões de brasileiros.
Everton Rodrigo Santos é cientista político e professor titular da Universidade Feevale. Pesquisador e consultor Capes/Cnpq/Fapergs/WVS. Autor de “Ciência Política: Lições sobre o jogo do poder”, escreve mensalmente no Extra Classe.