SAÚDE

Mosquito da dengue infesta mais de 80% do Rio Grande do Sul

Aedes aegypti toma conta de 346 dos 431 municípios gaúchos. Rodeio Bonito vive condição de surto de dengue. Enfermidade é a nova ameaça de epidemia no país
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 4 de março de 2022

Imagem: Redes Sociais/ Reprodução

Rodeio Bonito já teve mais de 300 casos de dengue neste ano: no município, 89% dos infectados contraíram a enfermidade em casa

Imagem: Redes Sociais/ Reprodução

Dos 431 municípios gaúchos, 346 apresentam infestação do Aedes aegypti, mosquito que através da sua picada pode transmitir dengue, zika, chikungunya e até a versão urbana da febre amarela. Isso equivale a 80,27% do território gaúcho dominado pelo vetor.

Em Porto Alegre, dos 34 bairros mapeados, 25 já se encontram qualificados na cor vermelha que indica alta presença do inseto transmissor da dengue, segundos dados da prefeitura municipal.

A cidade de Rodeio Bonito, localizado na região do Médio Alto Uruguai, vive uma situação inusitada: registra 89% de enfermos autóctones, os que são infectados em sua própria área de moradia. Os dados são do último Informativo Epidemiológico de Arboviroses da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS).

Foto: PMRB/ Divulgação

Mutirão de combate à dengue no município de 5,7 mil habitantes, no Alto Uruguai

Foto: PMRB/ Divulgação

A secretária de Saúde de Rodeio Bonito, Daniela Stratazzon, informa que até este verão, os últimos casos haviam sido verificados na cidade “há sete, oito anos atrás”.

Para Daniela, o município, que segundo o último censo contabilizava 5.743 habitantes, passa por um verdadeiro surto de dengue. “Hoje a quantidade de infectados ativos é de 80 pessoas, mas já tivemos mais de 300 nesses primeiros meses do ano”, revela.

Segundo a secretária, sempre teve muita presença do Aedes aegypti na região. O que houve, além das altas temperaturas que estão sendo verificadas desde o início do ano, é que possivelmente pessoas que visitaram Rodeio Bonito chegaram infectadas neste verão. “Ao serem picadas pelos mosquitos, desencadearam o processo. A gente tinha a arma, só faltava a munição”, compara.

Contágio no estado

Arte: SES/RS

Arte: SES/RS

Conforme os últimos números da SES/RS que foram consolidados entre os dias 13 e 19 de fevereiro, o Rio Grande do Sul registrou 573 casos suspeitos de dengue e 194 casos confirmados. Deste, 173 são autóctones.

Os sintomas são semelhantes aos verificados no restante do Brasil. Prevalência de mialgia, cefaleia e febre na maioria dos casos.

Foto: Diego Leonhardt/ PM Feliz

Prefeitura de Feliz, no Vale do Caí, realiza mutirões para combater proliferação do mosquito vetor da dengue

Foto: Diego Leonhardt/ PM Feliz

Em 2021, o estado contabilizou 10.156 casos confirmados de dengue que levaram à morte 11 pessoas. Um em Passo Fundo, três casos em Erechim, um em Mariano Moro, cinco em Santa Cruz do Sul e um caso em Bom Retiro do Sul. Até o momento, nenhuma morte foi registrada pela SES/RS esse ano.

O informativo da SES/RS ainda registra que 2021 apresentou o maior número de casos autóctones na série histórica. Se em 2010, 3.340 casos foram confirmados, 2021 apresentou 9.806.

Concentração demográfica e estiagem

Arte: SES/RS

Arte: SES/RS

Em 2021 ainda foi verificado um aumento considerável diante o período anterior (2020), que contabilizou 3.296 casos de dengue autóctones.

Carmen Gomes, bióloga e coordenadora do Programa Estadual de Vigilância e Controle do Aedes (PEVCA), diz que casos de dengue são notificados em todos os meses do ano, mas que existe um aumento significativo durante a sazonalidade da doença que ocorre entre os meses de novembro a maio.

De acordo com a coordenadora, 8% dos 346 municípios que apresentam a presença do Aedes aegypt se qualificam como de alta infestação. “Entre o que se espera e o que está indo para uma situação de alta, o índice chega a 32%”, completa.

A maioria dos casos, segundo Carmen, são verificados nas regiões Metropolitana de Porto Alegre e Noroeste do estado. A primeira, pela alta concentração populacional e a segunda, devido a seca que fez da armazenagem da água das chuvas um hábito. Também contribui para a infestação da região Noroeste a proximidade com a Argentina, um país que tem forte presença da enfermidade em suas fronteiras.

Tendência de crescimento

Foto: Fiocruz

A fêmea do mosquito Aedes aegypti é a principal transmissora da dengue no país. A enfermidade teve um acréscimo de 48% no contágio em janeiro

Foto: Fiocruz

Diferentemente dos anos anteriores, a região Sul é indicada pelo InfoDengue como uma das principais áreas de atenção em 2022. Existe, segundo o portal de monitoramento criado pelas fundações Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Getúlio Vargas (FGV), uma tendência de expansão da presença da dengue.

A SES/RS também observa isso em uma série histórica que vai de 2000 até este ano. Segundo a secretaria, o aumento de municípios infestados pelo mosquito Aedes aegypti foi na ordem de 87%.

Concretamente, os últimos dados apresentados pelo Ministério da Saúde apontam para um grande risco de o Brasil vir a enfrentar uma epidemia de dengue este ano.

Boletim do governo federal relata que já no primeiro mês deste ano foram registrados 40.127 casos de dengue no país. O número é 48,1% superior ao do mesmo período do ano passado. A região Centro-Oeste foi a que apresentou a maior taxa incidência da doença, seguida das regiões Norte, Sudeste, Sul e Nordeste.

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