AMBIENTE

Brasil é o sexto maior responsável pelo efeito estufa

Se todos os países tivessem a mesma atitude que o Brasil tem com relação ao clima a gente já estava sem esperanças, é o que afirma o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 10 de agosto de 2021

Brasil terá que se posicionar sobre os acordos globais para redução de gases de efeito estufa

Foto: Divulgação

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O “alerta vermelho para a humanidade” apresentado segunda-feira, 9, pelo secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, mostra que o Brasil tem forte responsabilidade na conclusão chegada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Se as consequências do efeito estufa são irreversíveis, conforme o relatório apresentado, a situação poderia estar ainda pior caso outros países seguissem o exemplo do governo Bolsonaro. “Se todos os países tivessem a mesma atitude que o Brasil tem com relação ao clima a gente já estava sem esperanças”, afirma o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini.

O Brasil é o sexto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. Os principais vilões à frente do Brasil são China, Estados Unidos, Índia, Rússia e Indonésia. O país está ajudando o planeta a ir para o precipício por falta de controle em sua agropecuária e, em especial, devido ao desmatamento.

Segundo Claudio Ângelo, coordenador de comunicação da ONG, só o desmatamento no Brasil corresponde a quase 45% das emissões nacionais. Levando em conta que boa parte desse desmate é para ampliação da agropecuária, “essa é a contribuição do Brasil para o problema”, diz.

“Em 2019, último ano que temos dados, o Brasil emitiu algo em torno de dois bilhões e cento e setenta milhões de toneladas brutas de gases de efeito estufa. Algo bastante relevante”, complementa.

O Brasil está fazendo tudo errado

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Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

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Marcio Astrini entende que o problema, do Brasil, na realidade, não é só a posição que ocupa. É o que o país está fazendo em relação ao que foi detectado pela ONU e que deve comprometer as metas do Acordo de Paris.

“O que se tem feito na realidade é piorar o problema. Se todos os países tivessem a mesma atitude que o Brasil com relação ao clima a gente já estava sem esperanças de atingir os 1,5 graus”. Astrini se refere ao acordo referendado por 195 países, entre eles o Brasil, de se manter a temperatura média da Terra abaixo de 2 graus celsius, acima dos níveis pré-industriais. Além de esforços para limitar o aumento da temperatura até 1,5 graus acima dos níveis pré-industriais.

“Estamos fazendo tudo errado. O problema do Brasil é desmatamento e o governo está incentivando o crescimento dele”, denuncia o secretário-executivo do Observatório do Clima.

E o erro não fica só na questão desmate. Astrini lembra a recente decisão tomada na licença de privatização da Eletrobrás dada pelo Congresso. Foi condicionado a contratação de térmicas a gás de forma fixa, espalhando usinas por um país que tem um potencial enorme para a geração de energia mais sustentáveis como eólicas e solar.

Outro ponto é o recuo do governo ao prometido em 2015, ocasião em que foi firmado o Acordo de Paris. “No update das promessas à ONU, em 2020 o governo disse que vai poluir mais. Diz agora que vai chegar em 2030 poluindo mais do que constava nas promessas do Brasil em 2015”, lamenta.

“Se todos os outros países tivessem esse comportamento; de piorar o problema das suas emissões, se comprometer em fazer menos, de sujar a sua matriz energética, aí o mundo estava perdido. Esse relatório do IPCC não seria só um alerta vermelho. Seria um relatório de desesperança”, reafirma Astrini que, apesar dos problemas, ainda vê possibilidades de arrumar uma solução.

Impactos já ocorrem no Brasil

“Na verdade, tudo o que o IPCC está dizendo que vai acontecer é o que a gente está vendo acontecer no Brasil. Só que vai ficar muito pior”, fala Claudio Ângelo.

Segundo o coordenador de comunicação do Observatório do Clima, as regiões Norte, Oeste e Centro-Oeste, “o miolo, um pedaço de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, entrando na Bolívia e subindo ali pelo Sul da Amazônia, serão lugares que vão ter temperaturas duas vezes maiores do que a média mundial. É muita coisa”, ressalta.

O Nordeste também, segundo o Atlas do IPCC, será castigado. “Deve ter um aumento nas secas, outra coisa preocupante porque é um problema crônico que deve ser agravado. Uma região semiárida tende a ficar árida”, diz Ângelo.

O Sul, lembra, já está com ciclones bombas e micro explosões. “Essas coisas aí que não faziam parte do vocabulário dos gaúchos e começaram a fazer”. A região também terá a tendência de aumentar as chuvas e de tempestades severas.

Pouca margem de manobra

Para o Observatório do Clima, o que o relatório do IPCC mostra e que está nas manchetes é que não existe mais uma janela para estabilizar o clima em 1,5 graus. “A gente tem uma fresta. A janela de oportunidade que nós tínhamos está se fechando muito rapidamente”, reflete Ângelo.

Hoje, dos cinco cenários que o IPCC analisou, somente um garante, mesmo assim de forma relativa, terminar o século abaixo de 1,5 grau de aquecimento, que é uma temperatura que deve ser ultrapassada na próxima década.

Para o Observatório do Clima, se a comunidade internacional fizer tudo muito bem-feito é possível se chegar a 1,5 grau e depois vir descendo aos poucos para 1,4 até o final do século.

No entanto, os fortes impactos de 1,5 graus agora “já estão contratados”, na opinião de Ângelo e Astrini.

Assim, o mundo está sujeito a eventos extremos sem precedentes. Para a ONG, cada governo estadual, cada prefeitura, cada governo federal do mundo precisam tomar providências para se adaptar e aumentar a “resiliência” a fenômenos que virão.

“Já não é, parafraseando o Eduardo Bolsonaro, uma questão de se, mas uma questão de quando”, ironiza Ângelo ao lembrar uma frase do filho 03 do presidente Jair Bolsonaro a se referir tempos atrás a uma possível intervenção militar.

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