Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 065 | Ano 7 | Set 2002
NEI LISBOA

Nei Lisboa

Marca da campanha eleitoral deste ano, o uso e abuso de namoradas, esposas e congêneres na caça ao voto feminino aponta também para uma busca de afirmação da masculinidade dos candidatos. No imaginário popular, querem crer os marqueteiros, o macho com uma vice-loira à disposição para agrados e adulações é potente e esperto o bastante para merecer o cargo que pleiteia. É uma pena que não se reserve esse tipo de julgamento exclusivamente para o pódio da Expointer, qualificando a administração pública e o legislativo por outros critérios.

Numa versão local e diferenciada, mas de similar apelo ao eleitor, o candidato Antônio Britto parece preocupado em fixar uma imagem de paternidade que lhe sublinharia o discurso, sempre afeito a lirismos e votos de reconciliadora união da família riograndense. Quero deixar claro que dispenso, nessa matéria, especulações sobre a intimidade de quem quer que seja, em geral a reboque da boataria vil que oportunamente se instala em períodos eleitorais e a qual, de resto, todos os concorrentes estão sujeitos. Ao contrário, interessa examinar aquilo que publicamente está posto, em sua dimensão política e midiática.

E aí, diga-se, é o próprio candidato ao Governo do Estado que conjuga o anúncio de filhos por nascer com cerimônias partidárias, programas eleitorais com referências à neta querida, o amor que nutre por seus rebentos com o equivalente que teria por aquele a quem pede seu voto. À parte o gosto duvidoso de tais sentimentalismos em dois turnos, o paralelo é sintomático e condizente com uma concepção centralizada da administração pública, que se vê ou se anuncia como carinhosa e benevolente, mas a quem não ocorre a idéia de que àqueles a quem trata como filhos – já aliás bem crescidinhos na democracia –, à população como um todo, caiba o papel de verdadeiro pai da criança. Paternidade e paternalismo, eis a confusão, ou ato falho, em que incorrem a imagem e a proposta de Antônio Britto.

Nada de inédito, dentro de uma perspectiva histórica do poder associado a feudos familiares e seus compadrios financeiros e empresariais. Mas já experimentamos coisa diferente por aqui, em que mesmo os equívocos e percalços são vividos e discutidos no âmbito de uma participação direta, como frutos de nossas próprias decisões e responsabilidades. Difícil retroceder o povo à platéia depois de ele sentir o gostinho do palco. Ainda mais quando se sabe o que pretendem – e para tal fim prestam-se as eleições tornadas concursos de testículos – e já tentaram fazer alguns com o Estado, aquela preliminar indispensável, digamos, ressalvadas as inseminações artificiais, para engravidar alguém ou, como no caso, deixá-lo em grave estado.

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