Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 068 | Ano 7 | Dez 2002
NEI LISBOA

Nei Lisboa

Essa é muito interessante, olha só: anuncia-se para o próximo ano o lançamento no mercado de uma droga eficaz no combate à timidez. Parece que finalmente inventaram o uísque em pílulas – caubói, por enquanto, que ainda está por resolver-se a questão do gelo. A nova droga, prima extrovertida do Prozac, promete mínimos efeitos colaterais, apoiada em novas tecnologias e descobertas da indústria farmacêutica. Ou seja, não produz ressaca orgânica aparente. Mas e como é que fica a ressaca moral? O sujeito de uma vida acanhada em nobre e bom comportamento subitamente passa a assediar a vizinha, a dar shows em festas do escritório, a freqüentar o Sofazão. A garotinha tímida da sala de aula, de uma hora para outra, descobre-se capaz de enfrentamentos impulsivos e loquazes. Onde foram parar as antigas identidades? E o que pode vir a acontecer a essas criaturas ao interromper um tratamento com tal substância?

Duvido que essas questões tirem o sono dos cientistas da farmacomania psiquiátrica e seus representantes médicos. Tal como no caso do Prozac, a receptividade a uma pílula mágica que suprima os sintomas de desajustamento social deve ser enorme. Estamos todos nos tornando ligados na tomada, agressivamente produtivos, ambiciosamente adornados pelo consumo e não é possível que um reles traço de caráter ou comportamento como a timidez interponha-se entre nós e nossos desejos. Torna-se demanda indispensável um remédio rápido e potente para lidar com esses estorvos atormentadores da vida: a psique, a consciência, a alma, quer dizer, a vida em si mesma.

Também não surpreende que essas novidades farmoquímicas surjam acompanhadas da enésima participação de falecimento da Psicanálise. Na visão da indústria, os clientes em potencial são atraídos também pelo descrédito em que se trata de lançar a concorrência de Mr. Freud. O que você prefere, dez anos em um divã cheio de incertezas, encucações, dificuldades e sofrimentos ou um vidrinho na farmácia da esquina com a solução imediata a preços infinitamente mais baratos? Bom, há que se relativizar aqui essas questões. Em primeiro lugar, esse raciocínio em termos de concorrência se parece com a idéia de que a aspirina veio abolir não apenas a dor de cabeça, mas a cabeça em si, ou as preocupações diárias que a levam a latejar.

Quanto ao preço, well, Mr. Hoestche, vamos poder calcular um custo-benefício a partir de observações e resultados mais prolongados do que o efeito de uma pílula a cada doze horas. Talvez em uma ou duas gerações de adictos, lá pelas tantas a perguntarem-se apavorados e convulsos como foram parar no Sofazão. Talvez com uma ressaca psicossocial do tamanho de um barril de Greenvalley, para a qual, evidentemente, a sua empresa vai apressar-se em produzir uma nova e infalível droga. Ou talvez com resultados mais tímidos, digamos assim, se a Psicanálise prosseguir como parece que vai, mais viva e necessária do que nunca, tratando com estima os monstros reais que nos habitam e, tal como eles, imune a tiroteios de videogame e venenos de mentirinha.

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