Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 072 | Ano 8 | Jun 2003
NEI LISBOA

Prezado gerente,

Não se mova, não diga nada que chame a atenção dos outros funcionários e não erga os olhos até o término da leitura desta carta. Posso lhe garantir que o Rex foi bem treinado para essa operação. Ou não teria passado incólume pela porta giratória e pelos seguranças da agência, como pode observar. Nesse momento, depois de lhe alcançar o envelope (desculpe se estiver ensopado, os rothweilers salivam bastante), ele já terá sentado em posição estratégica entre as suas canelas, longe do alcance das câmeras de vídeo e atento a qualquer movimento seu. Se seguir rigorosamente as minhas instruções, nada de mal irá lhe acontecer.

Essa situação também não é do meu agrado, acredite. E não tenho nada pessoal contra o senhor. Mas não me restou outra alternativa. Enquanto era apenas o cheque especial, tudo bem. A gente empurra aqui e ali, atrasa o aluguel, pede algum pro cunhado, essas coisas. Até que acaba o limite do especial e a paciência do cunhado. E sobram os juros, vencendo todo mês. Junto com o cartão de crédito, claro, que rapidinho também se vai. Aí a gente faz um empréstimo pessoal pensando em quitar o especial e o cartão, mas termina mesmo é com três dívidas empilhando juros sobre juros. Mesmo assim, nunca me passou pela cabeça assaltar um banco, detesto armas de fogo, esse tipo de coisa. Até que a ração do Rex acabou, e a cara faminta dele me encorajou e inspirou o resto desse plano. O Rex, aliás, continua faminto. Se tiver qualquer coisa à mão, pode ser uma bolachinha ou o seu grampeador, por favor ofereça a ele.

Mas vamos ao que interessa, é uma operação bem simples. Pode chamar de homebanking, se quiser. Quero que acesse aí do seu terminal um fundo fraudulento, uma subsidiária nas ilhas Cayman, qualquer caixa dois do banco, ou pode ser a poupança do Eduardo Jorge. Não tem a senha? Está achando difícil? Então dê uma olhada no que sobrou do grampeador. Muito bem. Transfira para a minha conta o valor exato de todas as dívidas, entre cheque especial, cartão, empréstimos, ioéfes, cepeemeéfes, taxas, multas e o que mais for. Depois encerre a conta. Daqui pra frente vou guardar dinheiro embaixo do colchão, sempre que tiver dinheiro e colchão.
Ah, também imprima um comprovante e alcance para o Rex, por favor.

Com cuidado. Com um sorriso, que continuaremos sendo bons amigos apesar de tudo. Podemos até fazer uma visitinha a sua casa, de vez em quando, ele gosta muito de passear. É isso. Foi um prazer ser cliente dessa instituição, quem sabe um dia voltaremos a ser parceiros de negócios, nunca se sabe. Se os juros baixarem, ligue pra mim. Mas quando o próprio Presidente diz que não vão baixar só porque ele quer, o que se pode esperar dos bancos, não é?

Atenciosamente, seu (ex) correntista.

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