Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 084 | Ano 9 | Ago 2004
POLÍTICA

José Luís Fiori

“O desenvolvimento de uma estratégia anti-sistema definitiva para esta era de esfacelamento vai levar pelo menos 20 anos.”

Uma certeza percorre a América Latina: a década liberal foi um retumbante fracasso e deixou o Continente sem rumo. Por isto, se assiste neste momento ao retorno cada mais intenso do debate sobre o que estará passando no mundo e o que pode e deve ser feito para retomar o caminho da esperança. Inscreve-se nessa discussão o livro de Immanuel Wallerstein, que analisa as transformações globais das últimas décadas do século 20, propondo uma estratégia para o que chama de “nova esquerda mundial”. Uma visão extremamente original e que merece ser discutida, sobretudo num país onde as forças de esquerda mal escondem suas grandes divergências teóricas e estratégicas.

Aos 71 anos, Wallerstein é um dos intelectuais mais importantes da esquerda norte-americana, e um verdadeiro precursor dos movimentos sociais anti-globalitários. Nos anos 1960, escreveu vários livros sobre o desenvolvimento africano, mas sua principal contribuição foi escrita nos anos 1970: sua teoria sobre o que chamou de Modern World System, um sistema em expansão contínua, que se formou no século 16, na Europa, composto de uma “economia-mundo capitalista” e por um “sistema inter-estatal” sob a batuta sucessiva – nos últimos 500 anos – de três grandes potências he-gemônicas: as Províncias Unidas, no século 17; a Grã-Bretanha, no século 19; e os Estados Unidos, no século 20. Mais recentemente, na década de 1990, Wallerstein escreveu uma série de ensaios e artigos em que diagnosticou a “crise terminal da hegemonia norte-americana”, e discutiu os caminhos da nova era de caos e transição que já estaríamos vivendo. O livro Após o Liberalismo reúne vários desses ensaios, em que Wallerstein combina sua teoria histórica com sua análise da conjuntura internacional e conclui pela tese do declínio do poder mundial dos Estados Unidos, que teria começado na década de 1970 com a derrota do Vietnã e a crise do Sistema de Bretton Woods. Além disso, defende que essa crise americana já não é só de um caso de “transição hegemônica”, normal dentro do Sistema Mundial, é uma crise terminal do próprio Modern World System, que deverá se prolongar até 2050. Por isto, acredita que, depois do caos e após 2050, não nascerá um novo hegemon, e sim um novo Sistema Mundial absolutamente diferente, e, portanto, o que estamos vivendo seria uma espécie de mudança de Universo. Segundo Wallerstein, a hegemonia americana teria seguido o curso normal de suas três antecessoras, mas, nesta última fase, seu declínio foi acelerado pelos efeitos ideológicos e culturais da Revolução de 1968, que se prolongaram e culminaram com a queda comunista de 1989, contabilizando hoje 22 anos da completa desintegração da “geocultura do sistema mundial moderno” – dominante a partir da Revolução Francesa – e sua ideologia global, o liberalismo. O liberalismo, tanto na sua versão anglo-saxã quanto na sua versão leninista, foi para Wallerstein apenas uma forma radical da mesma crença na possibilidade do “reformismo racional” e na capacidade dos Estados como agentes das transformações econômicas e sociais. Uma espécie de “pensamento único” do século 21 – que ele chama de “ideologia wilsoniana-leninista” – comum às estratégias político-econômicas dos liberais e socialistas que se bateram pela construção do Welfare State e por todas as formas de “desenvolvimentismo econômico”. Ideologia que, ao ter sido enterrada pela queda dos regimes comunistas, deixou atrás de si um grande vazio utópico, ocupado de forma precária, depois de 1968, pelo conservadorismo neoliberal e pela “nova esquerda” dos movimentos sociais e das lutas anti-globalitárias. Ambos avessos a tudo que tenha a ver com o Estado, as políticas públicas e o desenvolvimentismo.

Não se pode negar que o livro de Wallerstein é um verdadeiro balaio de heterodoxias apoiado sobre uma boa causa, mas com vários conceitos imprecisos e com muito poucas evidências concretas. Com relação à sua tese sobre o colapso do poder mundial americano, depois de 1970, por exemplo, Wallerstein resiste em ver o que hoje é um consenso: que, a partir da década de 1980, os Estados Unidos recuperaram a vanguarda tecnológica em quase todos os setores decisivos da economia, e não apenas no campo estratégico-militar, impondo, ao mesmo tempo, o dólar como a moeda de um novo sistema monetário internacional, sem base metálica ou padrão de referência que não seja o próprio poder americano. Na direção contrária, as evidências que ele apresenta, favoráveis à tese do declínio, são dispersas, heterogêneas e extremamente impressionistas, passando pela demografia, pela ecologia, pela cultura, etc., etc. Muito mais difícil ainda é aceitar sua previsão de que o próprio sistema econômico capitalista será destruído por uma crise terminal, provocada por uma contração dos lucros (profit squeeze) em escala planetária, isto dito num momento em que se reduz urbi et orbi o “trabalho necessário”, aumenta a exclusão dos trabalhadores e cai a participação dos salários na renda nacional de quase todos os países do mundo. A própria hipótese sobre a existência de uma “geocultura” que tenha sido responsável pela legitimação do Sistema Moderno é extremamente interessante. Mas fica difícil aceitar a tese de Wallerstein de que, entre 1789 e 1989, a luta entre socialistas, conservadores e liberais teria sido apenas “uma pseudobatalha da modernidade” entre várias versões da mesma coisa. Tudo isto simplesmente porque as três grandes ideologias modernas defenderam, em algum momento e por razões diferentes, uma posição favorável ao fortalecimento do Estado. E isto, mesmo se sabendo que o conflito central dessa mesma geocultura moderna não se travou em torno da defesa ou não do desenvolvimento, e sim em torno de “como” e “para quem” desenvolver a riqueza das nações. Por fim, não fica claro no livro de Wallerstein por que estaríamos vivendo uma crise terminal do sistema capitalista e interestatal moderno, e não apenas uma crise de transição ou reafirmação hegemônica.
Todos esses são problemas que transcendem a discussão puramente teórica, porque Após o Liberalismo é um livro que tem forte conotação programática. E cada uma destas teses tem importância decisiva para o desenho da estratégia proposta por Wallerstein para a “nova esquerda” mundial. Em síntese: ela deveria romper, definitivamente, com a estratégia dos partidos políticos da “velha esquerda”, de luta pela transformação social, por meio da conquista do poder estatal; deveria abdicar da própria formação de partidos e da definição de prioridades estratégicas; deveria descentralizar-se na forma de múltiplos movimentos e grupos sociais de todo tipo, avançando em todas as frentes simultaneamente e lutando pela democratização radical das relações sociais e pela igualdade de direitos entre todos os indivíduos e grupos; e sobretudo deveria se recusar, intransigentemente, a administrar o sistema em qualquer dos seus níveis, não devendo temer o colapso político e econômico dele, concentrando-se na criação de uma nova ligação social entre os níveis de luta local e mundial e desconsiderando o nível intermediário dos estados nacionais.

Não fica muito claro, nesta estratégia defendida por Wallerstein, o que as forças anti-sistêmicas ou de esquerda deveriam fazer durante os próximos 50 anos de “transição” com relação às necessidades materiais dos “condenados da terra” que forem incapazes de se globalizar, ficando “recluídos” dentro dos atuais estados nacionais, sobretudo quando se tem em conta que, apesar da tendência polarizante do desenvolvimento mundial do capitalismo, houve casos de desenvolvimento nacional bem-sucedidos depois da Segunda Guerra Mundial. Este é um ponto delicado dessa discussão, mas é fundamental distinguir claramente entre o que é a natureza seletiva dos desenvolvimentos nacionais de uma defesa da inexistência ou impossibilidade do próprio desenvolvimento capitalista fora do núcleo central do sistema, assim como se deve separar o que foi a insatisfação dos revolucionários de 68 de uma avaliação realista do sucesso do Welfare State na construção dos sistemas de proteção social universal dos países desenvolvidos.

Por fim, tampouco fica claro a maneira de se lutar pela democratização fora de um sistema de poder que dê sentido à idéia de cidadania como o modo de ser conquistado ou democratizado. Esta é uma dificuldade que sempre se colocou no caminho de todos os internacionalismos “anti-sistêmicos”. A globalização atual não alterou algumas condições e contradições básicas do capitalismo, e seguem existindo algumas coisas que jamais serão globalizadas. Ou seja, as redes de dominação imperial e das altas finanças se globalizam, mas os espaços de luta dos trabalhadores, dos pobres e dos excluídos seguem delimitados pelas fronteiras dos estados nacionais. As “causas” são internacionalistas, mas as lutas e conquistas fundamentais se dão território por território, estado por estado, onde os pobres da terra são “estocados” e onde se geram e acumulam os recursos capazes de alterar a distribuição desigual da riqueza e do poder entre os grupos sociais.

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