Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 090 | Ano 10 | Abr 2005
DEBATE

Stela Rosa

Soldada, carteira, sargenta, goleira são palavras que não existem na língua portuguesa para designar cargo ou função. Se no mercado de trabalho as mulheres, mesmo desempenhando funções iguais, ganham até 30% menos que os homens (IBGE 2005), na língua, elas parecem ficar invisíveis quando o que está em jogo é denominar alguns cargos e funções no gênero feminino do substantivo. Machismo? Regras gramaticais? Opção dos falantes? Estas são algumas das questões levantadas e também razões apontadas para tal predominância masculina. O tema divide as opiniões de estudiosos e das próprias mulheres, inclusive das que atuam no exército e em empresas federais, por exemplo. Uns argumentam que deve ser mantida a forma neutra, visto que do ponto de vista da Lingüística, ciência que estuda a linguagem, só o gênero feminino é marcado, portanto o que se denomina masculino geralmente é comum-de-dois. Outros avaliam que é uma questão de tempo para a sociedade aderir cada vez mais à distinção de gênero.

O gramático Paulo Flávio Ledur é dos que defendem que prevalecerá a opção pelo feminino, visto que a função da linguagem é produzir significados que dão vida às relações. “No momento em que a mulher ingressa no mercado de trabalho onde ela não estava presente antes, a linguagem precisa acompanhar. Qual é o problema de chamar de sargenta. Feio? É que nós não estamos acostumados”, avalia. O fato de mulheres exercerem funções que eram ocupadas exclusivamente por homens é apontado por Ledur como uma das razões para predominar a forma tradicional. “A linguagem reflete a resistência, os tabus da sociedade”, explica o gramático, acrescentando que, além disso, há todo um conceito de fragilidade ligada ao feminino e que a demora faz parte do processo natural da linguagem de se acomodar à realidade social. Porém, ele ressalta que a não-aceitação é de ambos os lados. “A própria mulher, às vezes, não assume”, frisa.

A questão do gênero feminino não ser usado para designar determinados cargos não está relacionado com o machismo, segundo a pós-doutara em sociolingüística e professora da Unisinos, Ana Maria Zilles. “Seria precipitado afirmar que é machismo, porque o inverso poderia ser verdadeiro. Falaríamos de feminismo?”, questiona. Segundo ela, caso essas novas posições femininas se consolidem, receberão designações se os falantes sentirem necessidade de fazer distinção. “Acho que é mais um assunto de atitudes de valores sociais do que gênero gramatical”, enfatiza. A escritora gaúcha Claudia Tajes também não liga esses fatos a nenhum tipo de preconceito. Ela acha que é mais uma questão de estilo e estética. “Seria muito feio chamar uma mulher de ‘caba’, assim como me parece feio falar ‘presidenta’, palavra que existe na nossa língua”, diz.

No entanto, na prática, o que se verifica é que se muitos são os tabus para designar algumas ocupações no feminino, o mesmo não acontece quando a situação é inversa. Ninguém questiona, por exemplo, que o uso correto é professor, bibliotecário, cabeleireiro, faxineiro, empregado doméstico, secretário, profissões que também por muitos anos foram do domínio feminino. Para o gra-mático e especialista em Redação Técnico-Administrativa, Adalberto Kaspary, tal fato deve-se à predominância do domínio masculino. “O homem comandava a civilização, esta é uma característica de toda cultura ocidental”, avalia. No entanto, ele ressalta que muitos preconceitos relacionados às mulheres já estão ultrapassados, principalmente no judiciário, executivo e legislativo, realidade que ele vem acompanhando nos últimos 25 anos. Nas funções públicas, a denominação de gênero mais do que uma adequação à entrada da mulher nesse mercado foi garantida legalmente. Desde 1956, a Lei º 2.749 institui que nesses espaços quando se tratar de gêneros variáveis deve adequar-se ao sexo, ou seja, masculino ou feminino. Em 1976, Adalberto Kaspary resolveu incluir a lei na gramática Português para Profissionais (Editora Edita, 244 págs.), para orientar as pessoas sobre as normas designativas das funções públicas.

A língua pertence a quem fala

O ponto de consenso entre as mais variadas visões é que a língua pertence aos falantes e pelo que parece, sem se preocupar com as regras ditadas pela gramática, eles estão optando pelo feminino. Áurea Ramos Soares, carteiro por profissão, raramente escuta alguém falar a sua função no masculino. Sempre que as pessoas na rua querem chamá-la ou quando ligam para os correios usam expressão “a carteira”. “Isso acontece o tempo todo e nas mais diversas classes, independente das pessoas serem mais cultas ou não. Às vezes, eu é que digo que não existe a palavra no feminino, mas não adianta, só me chamam de carteira mesmo”, relata. Áurea Ramos revela não se incomodar com o termo masculino; encarou com naturalidade, mas confessa que é pouco utilizado no dia-a-dia. Mesmo entre os colegas de trabalho, o tratamento é pelo nome próprio e quando, por exemplo, repassam recado de algum cliente, o que prevalece é a opção de quem fala.

Segundo a sargento feminino Angela Denise Beschorner Gonsalves, do 17º batalhão da Brigada Militar, as pessoas nem sequer têm dúvidas ao chamá-la de sargenta. “Mesmo aqui dentro da Brigada, principalmente, os mais antigos sempre me chamaram de sargenta”, conta. Já ela prefere sargento feminino e muitas vezes explica para as pessoas que o correto é usar no masculino, já que não existe feminino. Gozando de prestígio junto aos superiores, acredita que o melhor é ser designada da mesma forma que os colegas de trabalho. Durante a entrevista, ela pára e pronuncia várias vezes a palavra sargenta. “Até que não achei muito estranho, a gente é que não usa, mas capitã acho tranqüilo”, diz.

A preferência de Angela é a mesma da soldado feminino Marieli Vanessa Hermes. Porém, o desejo dessas mulheres e dos falantes caminham por lados opostos. “De soldado ninguém me chama na rua. As pessoas sempre ficam na dúvida. É soldada? Perguntam. Quando eu explico a forma correta, imediatamente optam por bri-gadiana.” A busca por espaços iguais é um dos pontos levantados por Vanessa para preferir a forma convencional. Ela acredita que utilizar uma denominação igual a dos homens contribui para a equivalência entre homens e mulheres e para o reconhecimento da população. Ela conta que diariamente o fato de ser mulher é encarado com preconceito. “Tem gente que não aceita as minhas ordens da mesma forma quando é abordada por um homem”, conta.

Dicionários politicamente corretos

Contrariando a teoria de que a sonoridade estranha ou um significado um tanto quanto esquisito cause resistência ao uso de determinadas palavras, algumas expressões venceram as barreiras do som e da estranheza e já foram dicionarizadas, como presidenta, mestra, hóspeda. Talvez, como pondera Adalberto Kaspary, influência do politicamente correto. Ele lembra que o então presidente José Sarney foi um dos primeiros homens públicos a referir-se aos brasileiros e às brasileiras, estabelecendo uma prática de incluir nos discursos as designações femininas. Para Kaspary, palavras como presidente, amante, estudante são algumas das que podem ser vistas como agenéricas, neutras, como define a Lingüística, mas acha que marcar distinção faz parte do processo de mudança. “É natural. Para mudar, às vezes, é necessário radicalizar”, pondera. Já Ledur analisa o fato como um reflexo da presença da mulher nos mais diversos espaços da sociedade. “A posição da mulher na sociedade é outra. A linguagem acompanha, é um processo natural. Se o processo de formação da língua portuguesa iniciasse hoje, ela seguramente seria diferente”, finaliza Ledur.

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