Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 091 | Ano 10 | Mai 2005
IDEIAS

Cleo Fante

Atualmente, um dos temas que mais desperta a atenção dos educadores em todo o mundo, é, sem dúvida, o da violência escolar. Entretanto, quando falamos em violência escolar imaginamos uma gama de situações, onde alunos discutem, brigam, amontoam-se, ferem-se e, logo, algum adulto interfere “para separar os briguentos”; ou imaginamos situações onde “gangues” compostas por “alunos” ou “ex-alunos-problemas”, munidos de armas ou drogas, invadem a escola, depredam o patrimônio ou deixam rastros de sangue.

Na tentativa de prevenir a violência, escolas de todo o mundo vêm adotando as mais variadas estratégias como medidas de segurança. Muros e grades altas, detectores de metais, monitoramentos dos alunos através de câmeras de vídeo e seguranças particulares, dentro e fora da escola. Chega-se ao ponto de montarem blitz, com cães farejadores e aparelhos de raios X para vistoriar as mochilas dos alunos, transformando todos em suspeitos. Esta é a forma de violência que, normalmente, empenham-se em combater: a violência explícita. Todavia, existe uma outra forma de violência que deve despertar a atenção e a preocupação de todos os profissionais de educação, uma vez que essas estratégias preventivas adotadas não conseguem alcançá-la, por se manifestar velada e sutilmente, sendo interpretada, muitas vezes, como “brincadeiras próprias da idade”.

Referimo-nos ao Fenômeno Bullying, termo encontrado na literatura psicológica anglo-saxônica, que conceitua os comportamentos agressivos e anti-sociais nos estudos sobre o problema da violência escolar. Sem termo equivalente na língua portuguesa, define-se universalmente como um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, adotado por um ou mais alunos contra outro(s), sem motivação evidente, causando dor, angústia e sofrimento. É caracterizado por sua natureza repetitiva e por desequilíbrio de poder. Insultos, intimidações, apelidos cruéis e constrangedores, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos, psíquicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do comportamento bullying.

O conceito

O bullying é um conceito específico e muito bem definido, uma vez que não se deixa confundir com outras formas de violência. Isso se justifica pelo fato de apresentar características próprias, dentre elas, talvez a mais grave, a propriedade de causar traumas ao psiquismo de suas vítimas e envolvidos. Possui, ainda, a propriedade de ser reconhecido em vários contextos: nas escolas, nas famílias, nas forças armadas, nos locais de trabalho (denominado assédio moral), nos asilos de idosos, nas prisões; enfim, onde existem relações interpessoais.

Estudiosos do comportamento bullying identificam e classificam os tipos de papéis desempenhados pelos seus protagonistas: “vítima” (aquele que serve de bode expiatório para um grupo), “vítima agressora” (aquele que reproduz os maus-tratos sofridos), “agressor” (aquele que vitimiza os mais fracos), “espectador” (aquele que presencia os maus-tratos, porém não o pratica e nem sofre).

Trata-se de um problema mundial, encontrado em todas as escolas, que vem se disseminando largamente nos últimos anos. Em todo o mundo, as taxas de prevalência de bullying revelam que de 5% a 35% dos alunos estão envolvidos no fenômeno. No Brasil, através de pesquisas que realizamos no interior do estado de São Paulo, em estabelecimentos públicos e privados, com um universo de quase dois mil alunos, comprovamos índices elevados quanto ao número de envolvidos. Nas escolas pesquisadas, encontramos a média de 22% de alunos que figuravam somente como “vítimas”, 15% como “agressores” e 12% como “vítimas agressoras”.

As causas

As causas desse tipo de comportamento abusivo são inúmeras e variadas: desde a carência afetiva, a ausência de limites aos maus-tratos e explosões emocionais violentas desempenhadas pelos pais. Entretanto, em nossos estudos constatamos que 80% daqueles que foram identificados como “agressores” disseram ter necessidade de reproduzir contra outros os maus-tratos sofridos. Em decorrência desse dado extremamente relevante, identificamos uma doença psicossocial que denominamos de SMAR – Síndrome de Maus-tratos Repetitivos.

O portador dessa síndrome possui necessidade de dominar, subjugar, de impor sua autoridade sobre alguém mediante coação; de ser aceito e pertencer a um grupo; de auto-afirmação, de chamar a atenção para si. Possui ainda a inabilidade de expressar seus sentimentos mais íntimos, de se colocar no lugar do outro e de perceber suas dores e sentimentos.

Esta Síndrome apresenta rica sintomatologia: irritabilidade, agressividade, impulsividade, intolerância, tensão, explosões emocionais, raiva reprimida, depressão, estresse, sintomas psicossomáticos, alteração do humor, déficit de concentração e de aprendizagem, pensamentos de vingança e suicídio.

O bullying é uma dinâmica psicossocial expansiva que envolve um número cada vez maior de alunos. Estudos indicam que as conseqüências para as “vítimas” desse fenômeno são graves e abrangentes, promovendo no âmbito escolar o desinteresse pela escola, o déficit de concentração e aprendizagem, a queda do rendimento, o absentismo e a evasão. No âmbito da saúde física e emocional, a queda do sistema imunológico, da auto-estima, o estresse, os sintomas psicossomáticos, alguns transtornos psicológicos, a depressão e o suicídio. Para os “agressores”, ocorre o distan-ciamento e a falta de adaptação aos objetivos escolares, a superva-lorização da violência como forma de obtenção de poder, o desenvolvimento de habilidades para futuras condutas delituosas, além da projeção de atitudes violentas na vida adulta. Para os “espectadores”, que são a maioria dos alunos, estes podem se sentir inseguros, ansiosos, temerosos e estressados, comprometendo o seu processo de aprendizagem e socialização.

A abrangência

Este fenômeno comportamental atinge a área mais preciosa, íntima e inviolável do ser, a sua alma. Envolve e vitimiza a criança, na tenra idade escolar, tornando-a refém de ansiedade e de emoções, que interferem negativamente nos seus processos de aprendizagem, devido à excessiva mobilização de emoções de medo, de angústia e de raiva reprimida. A forte carga emocional da experiência vivenciada poderá traumatizar e aprisionar sua mente a construções de cadeias de pensamentos desorganizados, que interferirão no desenvolvimento da sua autopercepção e auto-estima, comprometendo sua capacidade de auto-superação na vida.

Dependendo do grau de sofrimento vivido pela criança, ela poderá conceber pensamentos de vingança e de suicídio, ou manifestar determinados tipos de comportamentos agressivos ou violentos, prejudiciais a si mesma e à sociedade, isto se não houver intervenção diagnóstica, preventiva e psicoterá-pica, além de esforços interdiscipli-nares conjugados por toda a comunidade escolar. Nesse sentido podemos citar as recentes tragédias ocorridas em escolas, como por exemplo, Columbine (EUA), Taiuva (SP), Remanso (BA), Carmen de Pata-gones (ARG) e Red Lake (EUA).

A identificação

Esta forma de violência é de difícil identificação por parte dos familiares e da escola, uma vez que a vítima se vale da “lei do silêncio”, por medo de sofrer represálias e por vergonha de admitir que está apanhando ou passando por situações humilhantes na escola ou, ainda, por acreditar que não lhe darão o devido crédito. Sua denúncia ecoaria como uma confissão de fraqueza ou impotência de defesa.

Observando os próprios filhos, os pais podem detectar alguns sinais que indiquem a vitimização: mudança de humor de maneira inesperada, explosões de irritação, dores de cabeça e de estômago, tonturas, pouco apetite, hipersensibi-lidade (chora à toa), aspecto contrariado, triste, deprimido, aflito ou infeliz, insônia ou pesadelos, além de dificuldades de relacionar-se, de concentração e de aprendizagem. Quanto aos agressores, os sinais mais evidentes são: irritabilidade, agressividade, impulsividade, ar de superioridade, atitude desafiante e hostil a ponto de atemorizar, porte de objetos ou dinheiro sem justificar sua origem, atitudes de dominação e imposição de autoridade.

Quanto à escola, seus profissionais devem estar conscientes sobre essa forma de violência e serem capacitados para diagnosticar, intervir e preveni-la. O papel da escola é de fundamental importância, devendo disponibilizar espaços para que as crianças possam falar de suas emoções e sentimentos, que discutam, reflitam e encontrem soluções para as diversas situações da vida.

A prevenção

Algumas iniciativas bem-sucedidas vêm sendo implantadas em escolas dos mais diversos países, na tentativa de reduzir esse tipo de comportamento. Nesse sentido, implantamos de forma pioneira no Brasil, um programa antibullying, denominado de “Programa Educar para a Paz”, por nós elaborado e desenvolvido, em uma escola de São José do Rio Preto. Como resultado, obtivemos índices significativos de redução: o que antes foi detectado em torno de 26%, após dois anos de execução do programa, nos deparamos com uma outra realidade, os índices caíram para 4% de vitimização.

O “Programa Educar para a Paz” é um conjunto de estratégias psicopedagógicas que se fundamenta sobre princípios de solidariedade, tolerância e respeito às diferenças. Recebeu esse nome por acreditarmos que a paz é o maior anseio das crianças envolvidas no fenômeno, bem como de toda a sociedade. Envolve toda a comunidade escolar, inclusive os pais e a comunidade onde a escola está inserida. As estratégias do programa vão desde o trabalho individualizado com os envolvidos em bullying – visando à inclusão e ao fortalecimento da auto-estima das “vítimas” e a canalização da agressividade em ações proativas do “agressor” – até as estratégias gerais, envolvendo todos da escola, inclusive os pais e a comunidade.

Grupos de “alunos solidários” atuam como “anjos da guarda” daqueles que apresentam dificuldades de relacionamento, dentro e fora da escola. Grupos de “pais solidários” auxiliam nas brincadeiras do recreio dirigido, junto aos “alunos solidários”. A interiorização de valores humanistas e a discussão de situações-problema de cada grupo-classe são estratégias que visam à educação das emoções, sendo desenvolvida toda semana, durante o encontro entre os tutores e suas turmas. Ações solidárias em prol de instituições filantrópicas são objetivos comuns a serem alcançados pela escola e comunidade.

Acreditamos que se existe uma cultura de violência, que se dissemina entre as pessoas, podemos também difundir uma con-tracultura de paz. Se conseguirmos plantar nos corações das crianças as sementes da paz – solidariedade, tolerância, respeito ao outro e o amor –, poderemos vislumbrar uma sociedade mais equilibrada, justa e pacífica. Construir um mundo de paz é possível, para isso, deve-se primeiramente construí-lo dentro de cada um de nós.

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS