Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 095 | Ano 10 | Set 2005
DEBATE

Renato Dalto

Há menos de três anos – período curtíssimo em se tratando de um ciclo histórico – soprava Brasil afora o sentimento de que a esperança havia vencido o medo. O inimaginável seria que, em tão curto espaço de tempo, a decepção soterrasse a esperança com um golpe nunca antes imaginado: a corrupção num governo onde a ética e a justiça social prometiam uma divisão de águas na história política brasileira. O Partido dos Trabalhadores, referência da esquerda latino-americana que elegeu Lula presidente, sucumbiu aos encantos do poder. O PT sucumbiu em si mesmo. Na noite de 16 de agosto, durante o debate “Crise e Perspectivas da Esquerda”, num auditório lotado na Assembléia Legislativa Gaúcha, o deputado estadual Flávio Koutzii sentenciou. “Nas origens mais próximas do colapso atual nós temos claramente o que eu caracterizaria como uma orfandade pro-gramática, uma desorientação da mili-tância, uma falta de modelo, uma ausência de paradigma, uma crise no partido e uma perda de referência.” E arrematou, ironicamente: “Não temos problema!”.

Este inventário de perdas, apesar de centrado na crise política brasileira, repercute em outros sentimentos pessoais dilacerantes. “A minha sensação é de ter ficado em carne viva. Mas isso não é o fim da esquerda, nem das utopias. Pode ser uma desilusão, mas só se desilude quem teve ilusão. Alimento sonhos e utopias. E estes, garanto, não chegaram ao fim”, afirma Jeferson Miola, um dos fundadores do PT e coordenador executivo de um evento planetário que acendeu o sentido da utopia: o Fórum Social Mundial, um lugar que congrega redes mundiais de movimentos como ONGs, ambientalistas, grupos de livre orientação sexual, indígenas, sindicatos, universidades, enfim, gente comprometida com a possibilidade de um novo mundo.

Um novo mundo que, parece, passa distante da janela do governo Lula. E essa é, talvez, a maior ausência de paradigma do qual fala Koutzii. Intrinsecamente, para alguns petistas históricos como Plínio de Arruda Sampaio e o sociólogo Cesar Benjamin – fundador do partido que se desfiliou em 1995 antevendo o desastre –, a decepção é o fim de um ciclo e de uma ilusão: a de que as vias institucionais e a aliança com setores conservadores mudariam o país. É essa mistura indigesta de pragmatismo político rasteiro e pensamento mágico que se esgotou em si mesma.

A crise política traz à tona um antigo debate: chegar ao governo é chegar ao poder? Os escândalos de corrupção, o descolamento da realidade, o desencanto da sociedade e dos movimentos sociais, reacendem de novo esse debate. Como pano de fundo, os mitos de uma cultura que espelha na política real uma mistura de pensamento mágico, messianismo e passividade, esperando que um governo mude o que só a sociedade pode mudar. A medida da decepção causada pelos escândalos pode ser aferida pelos números do Ibope. Pesquisa divulgada no final de agosto mostra que se houvessem eleições hoje, chegaria a 40% o índice de votos brancos, nulos e abstenções se somados. Isso equivale a 50 milhões dos 120 milhões de brasileiros em condições de votar.

O fim da inocência

A antropóloga Cláudia Fonseca alerta para uma espécie de inocência coletiva que também constrói referências mágicas – e portanto irreais. “Nossa maneira de ver as coisas é muito inocente. Ou acreditamos num santo que vem nos salvar ou não tem nada de santo. E assim se criam vários mecanismos de defesa para não enxergar a realidade. Espero que a gente consiga ver os problemas com mais maturidade e continue andando.” Cláudia, especialista em Antropologia do Direito e da Família, pesquisadora entre as classes populares, detecta ao lado dessa ingenuidade uma desconfiança permanente. “Faz parte da nossa cultura achar que quem está no poder está sempre roubando, isso acontece até mesmo em relação às associações comunitárias.”

O historiador Voltaire Schilling é mais ácido. “No Brasil existe um substrato cultural messiânico que envolve, ao mesmo tempo, a aristocracia e os pobres. Os intelectuais da USP se converteram ao Lulismo, toda a inteligência nacional capitulou. O Lula é uma modernização do Antônio Conselheiro, a promessa de redenção da sociedade cabocla onde o sertão vai virar mar e o mar virar sertão”, compara. Para ele, a esperança é um mito cristão de redenção futura. “Por que as pessoas não podem viver uma vida normal, cotidiana, sem promessa de redenção?”, questiona.

Mitos com pé de barro

É um momento de extrema ebulição, onde o poder e seus desdobramentos acendem a necessidade de repensar o país. As CPIs de Brasília viraram um circo em espetáculo nacional. Jogos de proselitis-mo parlamentar julgando a moral alheia, verborragias espoucando sob os holofotes televisivos, a super-exposição sem limites de algo que já se chama de “big brother político”. Mas na planície da vida cotidiana, segue pulsando a sociedade e suas necessidades. E aí o tempo é outro.

O povo que perde a esperança com o governo Lula terá que passar por alguns desafios. “Minha esperança é que a sociedade não espere mais um salvador da pátria, mas entenda que ela é que vai ter que salvar a pátria”, adverte Mário Lill, da coordenação estadual do Movimento Sem Terra (MST). O MST, o movimento social mais organizado do Brasil, vem emitindo claros sinais de descrença no governo.

Houve, antes de tudo, o entendimento de que o jargão da “governabilidade” era um outro mito com pés de barro: em nome dela, fez-se o vale-tudo de qualquer acordo, uma armadilha ainda regada pela sedução do poder. Ao lembrar do depoimento do deputado federal José Dirceu à Comissão de Ética do Congresso, quando insinuou que o governo não insistiu em investigar os esquemas de corrupção para não ferir a “governabilidade”, José Arbex Jr. faz uma dolorosa constatação no artigo “E agora, José?”, publicado na revista Caros Amigos. “Triste réquiem: conduzido aos salões dos patrões, o servo, deliciado com as luzes, os tapetes e as orgias, não quis estragar a festa. Mas a festa não era para ele, o pobre-diabo. Só que ele não sabia.”

Para o MST, que não caiu nessa armadilha, a constatação é óbvia. “O governo Lula, esse da esperança de mudar, acabou”, afirma Mário Lill. É como se tocasse o despertador da realidade. “As nossas instituições estão falidas há muito tempo e a gente faz que acredita nelas. Não podemos mais ficar bestializados”, pondera Cláudia Fonseca.

Governo não é poder

Porque antes de perder a esperança, há um acúmulo histórico de um partido que se construiu com a força dos movimentos sociais, com os sonhos de várias gerações. Plínio de Arruda Sampaio lembra que o PT não herda uma história de 25, mas de 500 anos de espera do povo humilde para chegar ao poder. Mas o poder não é, necessariamente, o governo. Esta é a grande lição histórica que precisa ser aprendida segundo o economista Paul Singer. “O PT já nasce meio anarquista, embalado pelos movimentos sociais, e sempre teve a visão de que não precisava chegar ao governo para mudar o país. Está aí a luta pela reforma agrária, a participação popular e outras conquistas. Nós mudamos o Brasil muito antes de chegar à presidência”, constata.

Na noite de 16 de agosto, o veterano Paul Singer, 72 anos, também falou sobre crise e perspectivas para o auditório lotado, em silêncio, ouvidos atentos. De certa forma, a retomada de uma antiga tradição que parecia já fora de moda na esquerda: o debate, a escuta respeitosa, o falar e ouvir. É a lógica deste momento: espoucam textos, idéias, análises, encontros, no sentido de reconstruir uma identidade perdida no deslumbramento do palácio. O que restar disso tudo pode reconstruir – ou enterrar – os sonhos de justiça e igualdade de um país.

Um caráter para a utopia

Macunaíma é o herói sem caráter, trans-mutável a situações e sotaques, que um dia recusa a casar-se com a filha da deusa-sol para desposar uma portuguesa. Obra-prima que desvenda traços da alma brasileira, escrita pelo modernista Mario de Andrade, reflete nessa situação do casamento do anti-herói uma situação de incômodas semelhanças reais. Macunaíma representa o abandono das possibilidades de construir uma grande civilização tropical para enveredar pelos caminhos europeus. A falta de caráter é também a falta de projeto.

Há séculos não há um projeto de país. Há governos que têm assumido o Estado e se submetido a acordos e práticas onde a maior justificativa é a vala comum da idéia de que os fins justificam os meios. Ou seja, as transformações políticas seguem a ordem de interesses de ocasião. Não é à toa que o historiador Sérgio Buarque de Hollanda constata em “Raízes do Brasil”, obra cuja primeira edição remete a 1936:

“Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir. Os decretos dos governos nasceram em primeiro lugar da necessidade de se conterem e de se refrearem as paixões particulares momentâneas, só raras vezes com a pretensão de se associarem permanentemente às forças ativas”.

As “forças ativas” deste momento apontam para um refluxo da esquerda. “Temos um cenário em aberto que pode ser a transição do modelo neoliberal”, constata Miola. Este cenário, com desdobramentos internacionais, mostra o avanço de movimentos da sociedade civil. “Há um campo contra-hegemônico que obstruiu, por exemplo, a implantação da Alca, prevista para janeiro de 2005”, lembra. Portanto, mesmo que a cena da hora seja de decepção com um governo alicerçado num partido de esquerda, a energia da mudança segue seu curso. Como será canalizada? Ainda é cedo para fazer prognósticos.

O certo é que no turbilhão da crise, os velhos mitos brasileiros vêm à tona. Temperadas pelo velho “jeitinho”, CPIs viraram sinônimo de pizza. E o estigma de Macunaíma segue governando: sem caráter, sem projeto, deixando-se levar pela correnteza da esperança perdida. Porque repetir velhos vícios e reacender antigos mitos é remar permanentemente contra a utopia. Num texto ousado, produzido para o caderno Idéias, do Jornal do Brasil, o psicanalista Édson Luiz André de Souza propõe um desafio que vai muito além da política de ocasião. “A utopia está tanto nos grandes movimentos sociais que a história já conheceu quanto nos pequenos atos que podem revolucionar o dia de qualquer um de nós. Superar o velho hábito confortável que nos conduz à mesma trilha no meio do deserto, dizer o que ainda não se disse, imaginar o que ainda não existe é o que alimenta a esperança.”

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