Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 098 | Ano 10 | Dez 2005
LUIS FERNANDO VERISSIMO

De Paris

Tínhamos perdido o filme Crash aí e fomos vê-lo aqui. É, entre outras coisas, sobre o racismo no cotidiano americano, tratado com inédita honestidade. No filme, um dos personagens negros expõe a outro sua teoria conspiratória sobre o hip-hop, que seria uma criação dos guetos negros espertamente cooptada pelos brancos para neutralizá-los politicamente. O “gangsta rap”, que prega toda espécie de violência, escandaliza as famílias, testa os limites da liberdade de expressão e enriquece suas estrelas, é um pobre substituto para o protesto bem-articulado de líderes negros como Huey Newton (citado no filme) nos anos 60. Em vez de ser um aprimoramento da expressão de revolta, é uma degradação da linguagem, uma redução da raiva ao expletivo e a um ativismo que se esgota na agressão verbal, muitas vezes ininteligível, ou a atos de vandalismo gratuito que só confirmam o pior que se diz dessa gentalha, conforme o Sarkozy. A violência que a linguagem degradada inspira é igual a ela, sem sentido político, domável, no fim conveniente para os donos do poder – como está se vendo na França, onde a cultura americanizada dos guetos ajudou a mobilizar os jovens dos banlieues e a atiçar sua revolta, e onde o mais provável resultado de carros queimados e de tanta confusão será o fortalecimento da direita xenófoba. Talvez a crise de discurso da esquerda, na França e no resto do mundo, tenha algo a ver com isso. Estaríamos todos condenados a substituir a relevância política pelo rap dos ressentidos, pequenas revoluções rancorosas que não se arriscam a nada – salvo a serem eventuais sucessos artísticos. O que se precisa é, literalmente, rearticular o que desarticularam. Ou pelo menos reavivar algumas melodias.

A tal teoria do hip-hop aparece numa cena sem muita importância de Crash, e é de um personagem que não deve ser levado muito a sério, embora acabe sendo um dos mais simpáticos do filme. E alguém poderia argumentar que o próprio filme é uma prova de como o discurso politicamente relevante de Huey Newton e outros, há tantos anos, não teve muito efeito contra a danação do racismo.

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