Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 103 | Ano 11 | Jun 2006
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Velhas certezas custam a morrer, e muitas sobrevivem ao seu desmentido mais fortes do que antes. Grande parte da população do mundo ainda vive, do ponto de vista das suas crenças e expectativas, num universo geocêntrico, como se Copérnico e Galileu nunca tivessem existido. O que é compreensível. Custamos a aceitar uma nova explicação para o que parecia óbvio e estava errado. Quatrocentos anos de ciência é muito pouco comparados com milhares de anos de engano, precisamos de mais tempo para nos acostumarmos com a idéia de que é a Terra que circunda o Sol. Eu acho que o sono humano é um remanescente do tempo em que não havia nem fogo e as noites eram irremediavelmente pretas. Dormia-se porque não havia mais nada a fazer na escuridão. Se continuamos precisando das mesmas horas de sono é porque o organismo humano ainda não absorveu a invenção da fogueira, o que dirá da luz elétrica. Da mesma maneira, nosso cérebro reptiliano ainda repelirá por muitos anos a idéia de que o universo não gira em torno de nós.

Li, não me lembro onde, uma frase: o longo hábito de viver nos indispõe para a morte. Essa indisposição para a morte está no princípio de todas as religiões, se não de toda a metafísica. O crescimento do fundamentalismo religioso, ou de uma volta aos fundamentos mais obscuros e obscurantistas das religiões, é uma reação radical ao desmentido das suas certezas, mas há outros longos hábitos ameaçados que reagem do mesmo jeito. Velhos comunistas se recusam a aceitar o fracasso do comunismo aplicado a não ser como uma anomalia russa, uma prática que sabotou a teoria. Neoliberais não param de entoar seus mantras como se sua repetição encantatória banisse todas as evidências que os contradizem. Não é fácil admitir que nosso universo não é nada do que estávamos pensando. Eleitores do PT conhecem a sensação.

Um exemplo pessoal de como os longos hábitos morrem devagar. A astrologia só faz sentido num mundo pré-Copérnico, mas me pergunta se eu não dou uma olhada no meu signo todos os dias.

Alguém com um senso de ironia histórica na Petrobras poderia sugerir que dessem o nome “Link” a alguma plataforma ou outra instalação da companhia. Em homenagem ao geólogo americano Walter (era Walter?) Link, contratado pelo governo para prospectar o solo brasileiro em busca de sinais de petróleo e que concluiu com um categórico “esqueçam”. Não havia petróleo no Brasil, disse Mr. Link. A tese de que ele já viera instruído a não encontrar nada, para sabotar a Petrobras, é atraente, mas parece que o americano palpitou que se houvesse petróleo por aqui, seria no mar, onde está mesmo a maior parte. De qualquer jeito, merecendo ou não, Link ficou como uma espécie de padroeiro de todos os que não acreditaram na Petrobras, ou a combateram. Merece ter seu nome em alguma coisa. Talvez uma torneira.

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