Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 105 | Ano 11 | Ago 2006
SAÚDE

Por Clarinha Glock

Identificar uma criança com déficit de atenção e/ou hiperatividade e encaminhá-la para tratamento pode evitar anos de sofrimento com repetências e o trauma de ser tachada de burra e bagunceira. Mas não é um diagnóstico fácil, reconhece o médico Luis Augusto Rohde, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Na reportagem “Obediência em pílulas” publicada no jornal Extra Classe no 103, de junho de 2006, profissionais da saúde e da educação discutiram a necessidade de se buscar diagnósticos cada vez mais precisos e questionaram o uso excessivo de medicamentos entre os estudantes. O tema é tão importante, que merece um novo espaço para esclarecimento. “Numa perspectiva de saúde pública, pode-se dizer que o problema ainda é subdiagnosticado e subtratado no Brasil”, avalia Rohde.

Preocupado com a possibilidade de um mal-entendido na reportagem sobre o que é o Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a importância de dar alívio a quem sofre com esse problema, Rohde, que é coordenador do Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, lembra: diferentemente de outros diagnósticos – como gravidez, por exemplo, em que se está ou não grávida e não há meio termo –, os transtornos desse tipo têm variáveis dimensionais. Isso quer dizer que há pessoas com mais dificuldade de concentração, outras com menos. Essa dificuldade é considerada uma doença dependendo da intensidade e dos prejuízos que causa à vida do indivíduo (veja quadro de sintomas). “De nenhuma forma o TDAH deve ser tratado apenas como resultado de aspectos culturais e sociológicos da modernidade”, salienta Rohde.

Existem três tipos de déficit de atenção: o combinado é o mais facilmente identificável em sala de aula e em casa porque a criança apresenta também impulsividade e hiperatividade. Como ela incomoda pais e professores, eles buscam ajuda. No segundo tipo, quando há o predomínio do déficit de atenção somente, as crianças ficam “viajando”, “saem do ar”, e isso pode passar despercebido. O terceiro tipo é aquele em que predomina a hiperatividade. “Os professores precisam ter sensibilidade para identificar um caso em potencial e encaminhar para a análise de um especialista”, recomenda Rohde.

Essa avaliação deve ser criteriosa, porque não existe um marcador biológico (um exame bioquímico, por exemplo) de que se trata de TDAH, apesar de ser uma condição médica reconhecida na Classificação Internacional das Doenças da Organização Mundial de Saúde. “Diariamente somos procurados por famílias que ficam à mercê de tratamentos sem evidência científica de sua eficácia, por longos anos a fio, sem quaisquer resultados”, observa o médico. Por isso, ele recomenda: um tratamento após um ano ou 18 meses em que não haja nenhum tipo de sinalizador de resultados merece que os pais ouçam uma segunda opinião, de preferência de um profissional de uma área diametralmente oposta – se a criança está consultando com um psiquiatra, os pais poderão buscar um psicólogo, um psicoterapeuta, fazer uma avaliação com um neurologista.

Como nem todos os casos são diagnosticados, é possível que 50% dos pacientes que apresentam TDAH desde a infância ou a adolescência continuem tendo prejuízos na vida adulta. Os portadores de TDAH têm mais riscos de, quando crianças, sofrerem acidentes domésticos, como fraturar uma perna ou ingerir medicamentos ao acaso. Nos jovens e adultos, há mais possibilidade de acidentes de trânsito e de menor satisfação nas relações conjugais e profissionais.

Entre os jovens, o TDAH pode também estar associado ao uso de drogas. A médica Claudia Szobot realizou uma pesquisa sobre a associação entre TDAH e o uso de substâncias psicoativas (maconha, cocaína, inalantes) entre 968 adolescentes masculinos com idades entre 15 e 20 anos de quatro vilas na Grande Porto Alegre, entre 2003 e 2005. Do total, foram selecionados 61 jovens com uso comprovado de substâncias ilícitas e outros 183 não-usuários. Os dois grupos passaram por avaliações psiquiátricas e cognitivas. A prevalência de TDAH foi de 44,26% entre os usuários e de 7,7% nos demais.

O resultado do projeto, desenvolvido pelo Programa de Déficit de Atenção/Hiperatividade e pelo Centro de Pesquisas em Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas/Ufrgs, sugere fortemente que as crianças com TDAH que não receberam nenhum tratamento estão em maior risco para o uso regular de drogas ilícitas. “Este achado é importante para a prevenção ao uso de drogas, porque o TDAH se inicia antes dos sete anos de idade e apresenta bons tratamentos disponíveis”, analisa a médica.

Outro fator importante que deve ser considerado, segundo Rohde, é o transtorno ter uma alta participação genética. Pais portadores podem transmitir a doença, e um lar desorganizado, com dificuldades de impor limites, pode ser um sintoma de que eles também têm o problema.

Como identificar o problema

Se os pais ou professores identificarem seis ou mais sintomas nas crianças, a orientação é procurar a ajuda de um especialista:

Meu filho é hiperativo

Tenho um filho com TDAH que hoje freqüenta uma escola particular normal e a escola diferencia sua avaliação. Se não contarmos com isso, essas crianças não chegarão a lugar algum, mesmo com o melhor médico! Tem de estar junto uma família estruturada. No caso do meu filho, o tratamento é mais difícil, pois, além do TDAH, há uma comorbidade: junto vem a ansiedade, a compulsividade e a impulsividade.

Minha luta é com os professores que desconhecem o transtorno e generalizam o aluno como relaxado, sem motivação. Eles não interagem com ele, acham que é assim por malandragem. Mas agora a escola está dando o suporte. Venho nesta luta há cinco anos. Meu filho está na sétima série e não repetiu o ano. Tem no turno inverso professores particulares para ajudar a aumentar sua auto-estima. E a cada dia se sente melhor.

Depoimento de Andréa Quintino, mãe de um adolescente de 13 anos com TDAH. Os primeiros sintomas começaram aos seis anos de idade.

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