Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 107 | Ano 11 | Out 2006
IDEIAS

Por Ricardo Timm de Souza

O que talvez caracterize mais precisamente o ser humano, contemporaneamente, é sua permanente inquietude, suas contínuas transformações, suas crises em um mundo em crise, um mundo que exige ser, de algum modo, recriado a partir de parâmetros socioecológicos mais saudáveis. O ser humano atual, vivendo agudamente o “pesadelo de sua liberdade” (H.-G. Flickinger), ou seja, tendo que continuamente escolher seus próximos passos em todos âmbitos de sua vida, em uma exacerbação pós-moderna da máxima de Sartre, encontra-se a cada momento confrontado com a tentação de renunciar a essa dolorosa busca, a essa construção diuturna, abrindo mão de sua diferença, de sua individualidade, mergulhando no indiferenciado da massa, ou seja, abstendo-se de transformar a crise em crítica: optando pela quantidade em detrimento da qualidade. De todas as escolhas, esta é provavelmente a mais difícil e a mais decisiva: ser um número a mais, viver inercialmente, deixar-se levar – abrir mão, pela expectativa do conforto, de decisões graves e fundamentais para sua autocompreensão como sujeito e sua inserção sociocultural diferenciada –, ou ser ele mesmo, ousar nadar contra a corrente, imunizar-se ao canto de sereia da inércia e da indiferença pelo assumir pleno de seus próprios atos e de suas possíveis conseqüências.

Por outro lado, se isso é verdade em cada momento da vida, é especialmente verdade na adolescência; aí, nessa etapa da vida, solidificam-se os valores centrais que orientarão propriamente o futuro do indivíduo. O adolescente, em meio às suas características socioexistenciais, é chamado implicitamente a escolher o seu “time”: o de “todo mundo”, das identificações confortadoras, semi-automáticas, ou o de “algo mais” em que todo mundo, assume seu diferencial existencial e prepara-se para exercer plenamente a condução de sua própria vida. A escolha é, igualmente, entre a diferença e a indiferença.

Nesse sentido, tudo o que possa efetivamente contribuir para a formação ético-subjetiva de nossas crianças e jovens é de fundamental importância. A filosofia – arte de, enraizado no aqui e agora, penetrar existencial-temporalmente além das meras aparências – e a sociologia – arte de compreender a complexidade das relações ecológico-sociais de todos e de cada um – constituem-se em aliadas valiosíssimas para apoiar o adolescente nesta etapa absolutamente decisiva da vida, em que se semeia o futuro não apenas individual. Bem conduzidas, essas formas especiais de fundamentar o agir podem, exatamente, fazer a diferença nos momentos de opção.

Bem-vindas, portanto, Filosofia e Sociologia ao currículo obrigatório do Ensino Médio. E, quando for o caso, bom retorno ao lugar de onde nunca deveriam ter saído.

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