Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 113 | Ano 12 | Mai 2007
ESPECIAL

Por Naira Hofmeister, de Havana, Cuba

Há nove meses afastado do poder, depois de quase meio século à frente do governo cubano, Fidel Castro ainda é mais popular do que o próprio regime. Um emblemático cartaz (foto ao lado) pende nas paredes de casas, estabelecimentos comerciais e escolas. Tendo ao fundo o azul, branco e vermelho da bandeira insular, traz, em primeiro plano, um perfil que dispensa legendas explicativas.O boné militar e a barba longa de Fidel Castro encerram em seus contornos imagens de cidadãos cubanos com bandeiras nas mãos. Ao pé do folheto, a inscrição: Somos Uno. A importância do Comandante em Chefe para os habitantes da Ilha é motivo suficiente para crer que o delicado estado de saúde de Fidel Castro e sua eventual morte significam uma nova era em Cuba e, com ela, o capitalismo.

Desde 31 de julho de 2006, quando foi afastado do poder para se recuperar de uma cirurgia, Fidel não se mostrou mais em público. E até a sua rápida aparição na TV, em conversa com o presidente da Venezuela Hugo Chávez, no final de janeiro, o cotidiano do cubano assemelhava-se ao de um órfão que tem de sustentar a casa após a morte do pai.

Choravam a ausência de Fidel, mas o dever com a família – e as escassas e desencontradas informações sobre seu real estado de saúde – dispersavam o pensamento. “Vamos bien”, era a expressão repetida nas ruas, seguida invariavelmente de um palpite positivo sobre o retorno do Comandante em Chefe.

A frase tinha como inspiração um outdoor que estampava um sorridente e incentivador Chávez, que cumpriu seu papel de “padrasto” com maestria. Na manhã de 31 de janeiro, sua exclamação após o encontro com o líder cubano foi manchete dos principais jornais da Ilha: “Aqui está Fidel, de pé, completo”.

Os diários Granma e Juventud Rebelde noticiaram o encontro entre ambos com destaque. As fotos de Fidel Castro sorridente e ativo conversando com Chávez foram motivo de comemoração em todos os cantos de Cuba. O diálogo também foi transmitido por rádio, e as televisões do mundo inteiro repercutiram o fato.

“Ele está 10 quilos mais gordo”, observou Félix Contreras. Além das imagens da TV, o bem-relacionado jornalista tirou sua conclusão pelas informações confidenciais da guarda pessoal do Comandante em Chefe a que teve acesso.

Desde essa aparição meteórica, Fidel mantém-se recluso. Mas lentamente volta ao cotidiano político da Ilha. Entre o final de março e a primeira quinzena de abril, escreveu três artigos para os jornais locais.

“É o novo colunista da imprensa cubana”, ironiza o escritor e ex-ministro das Relações Exteriores do México, Carlos Castañeda. O biógrafo de Che Guevara esteve em Porto Alegre participando do ciclo Fronteiras do Pensamento e criticou a tese de Fidel sobre o biocombustível.

É que no texto “Condenados à morte prematura por fome e sede mais de 3 milhões de pessoas no mundo”, o líder cubano atacou os planos de Brasil e Estados Unidos para a produção massiva de etanol.

Fidel critica a extensão das lavouras de milho e de cana-de-açúcar para produção do insumo energético. “Acho que reduzir e reciclar todos motores que consomem eletricidade e combustível é uma necessidade elementar e urgente de toda a humanidade. A tragédia não consiste em reduzir esses gastos de energia, mas sim na idéia de converter os alimentos em combustível”, escreveu.

Para Raúl, Fidel é insubstituível

A publicação de textos assinados por Fidel tranqüilizou o povo cubano, que teme uma ruptura com a morte de seu líder. Mas o fato é que, durante os meses de afastamento, nem mesmo o cargo de Comandante em Chefe mudou de dono. O posto segue sendo de Fidel Castro, apesar de seu irmão Raúl ter assumido o papel na prática. “Não pretendo substituir Fidel, porque ele é único”, declara sempre que faz uma aparição pública. Quatro anos mais novo do que Fidel, Raúl tem o aval da população, mas não é capaz de mobilizar os cubanos da mesma maneira como o primogênito da família Castro.

“Raúl não possui a personalidade nem o carisma de Fidel”, alega Jose Artiles, artesão da cidade de Matanzas, capital da Província vizinha a Havana. Artiles e sua família rendem glórias ao comandante – o filho dele, Alex, confecciona bonés com a bandeira de Cuba bordada e vende para os turistas da praia de Varadero.

Como Artiles, a dona de casa Nancy Rodríguez, de Havana, reconhece o valor da gestão de Fidel Castro e argumenta que Fidel foi escolhido em uma eleição legítima. “A cada 100 anos nasce um homem com a inteligência e a perspicácia dele. Se temos um desses, porque escolheríamos outro?”, questiona.

Ainda que não seja festejado como Fidel, Raúl conta com manifestações a seu favor. Nas cercas das casas e lojas, já são encontrados cartazes e placas incentivando o substituto. “Viva Raúl” passou a figurar entre as frases que há um ano se resumiam a “Viva Fidel” e “Viva a Revolução”.

No livro Biografia duas vozes, editado a partir de mais de 100 horas de entrevista de Ignácio Ramonet com Fidel, o próprio Comandante em Chefe diz que seu substituto natural é o irmão mais novo. “Se amanhã me acontece alguma coisa, com toda a certeza a Assembléia Nacional se reúne e o elege, não resta a menor dúvida.”

A ilha sem o seu comandante

Assim que a carta de afastamento de Fidel, assinada de próprio punho, começou a circular pelo mundo, os “analistas” iniciaram suas previsões. Uma das teses mais fortes era de que Raúl era ainda mais radical do que irmão. O posicionamento duro dificultaria as relações internacionais da Ilha.

“É uma interpretação da formação política dos dois. Todo mundo sabe que Raúl já era comunista na época em que estavam na Universidade, enquanto Fidel estava ligado ao Partido Ortodoxo, que apenas se opunha ao general Batista”, explica Élio Peña Martinez, historiador do Museu da Revolução, em Havana.

Se na política externa nada mudou de lugar, Raúl parece ter exercido sua radicalidade no comando do cotidiano de Cuba. “Agora as leis estão mais rígidas”, opina Noel Gomez, carroceiro na cidade turística de Viñales, na Província de Pinar del Río – o lado mais ocidental de Cuba.

Na verdade, Noel não se refere ao incremento legislativo, mas sim à fiscalização que se intensificou nos últimos meses. Desde a assunção de Raúl ao comando do país, Noel já não pode mais circular sem um equipamento providencial para sua carroça.

Uma lona esticada entre a traseira do cavalo e o banco dos passageiros apara a sujeira do animal, que antes adubava as plantas que crescem na estrada de chão batido. Se a lei parece brincadeira, a multa não é.

No outro lado do país, em Santiago de Cuba, a fiscalização chegou ao extremo. No central Parque Céspedes, o interesse de turistas pelos museus, igrejas e casarios do século XVI e XVII atraía também cubanos em busca de dólares.

Os nativos costumavam indicar restaurantes para os estrangeiros em troca de uma comissão recebida na “entrega” dos clientes ao dono da casa. Desde que Raúl assumiu, Juan Almeida aborda os turistas nas ruas que circundam o parque, para fugir das câmeras eletrônicas que o vigiam do alto dos postes. “Está muito difícil conseguir um dinheiro extra”, reclama. Se não for cauteloso, pode tomar uma multa e “inclusive ir preso”.

Foi também depois de agosto de 2006 que os taxistas de Havana começaram a abrir o olho. Apenas as empresas públicas podem carregar turistas. Os chamados taxistas particulares, que trabalham como autônomos em carros próprios, só estão autorizados a prestar serviço para os cubanos.

Pancho tentou burlar a regra e se deu mal. “Fui levar uns turistas ao aeroporto, e a polícia me parou”. O cubano só pôde reaver seu Chevrolet depois de pagar uma pesada multa em dólares. Desde então, nenhuma oferta em moeda estrangeira o seduz. “Desculpe, moça, mas da próxima vez eles não devolvem o carro.”

Ocupada em fiscalizar, a polícia cubana acaba pecando na vigilância. Nas ruas de Cayo Hueso, na divisa de Centro Havana com o bairro turístico de Vedado, os assaltos têm sido freqüentes.

“Já denunciei dois que ocorreram no mesmo lugar, mas os guardas ficam todos sentados na delegacia, em vez de fazer a ronda”, denuncia Caridad, proprietária de uma casa particular (espécie de pousada), que começa a ver a insegurança passar em frente à sua porta.

As duas faces da moeda

Miguel, na Sierra Maestra, Juan Almeida em Santiago de Cuba, Artiles em Matanzas e Pancho, que mora em Havana, são emblemas da atualidade cubana. Miguel tem dois diplomas da Universidade de Havana. Juan Almeida fez um curso técnico para aprender a profissão que ama, mecânica. Artiles é engenheiro, mas trabalha fabricando redes artesanais. Pancho dirige um táxi cujo proprietário tem que madrugar para chegar de ônibus ao Centro Cirurgico onde trabalha. Optaram pelo abandono (ou prejuizo) da profissão que escolheram para rabahar em torno da rica indústria do turismo.

Diante da quebra da URSS, em 1991 – que subsidiou o socialismo na Ilha por 30 anos – Cuba buscou na atividade uma maneira de superar a crise. Fidel Castro nunca escondeu que a aposta no turismo colocava em risco a sociedade igualitária que o regime havia desenvolvido, mas não havia outra alternativa. “Foi uma decisão para salvar o que desse, não para manter como estava”, pensa Félix Contreras.

A entrada de dólares americanos incomodou o líder cubano que, no principio dos anos 2000, proibiu a circulação das verdinhas na Ilha. Para substituí-las, criou uma moeda chamada Peso Convertible, ou simplesmente CUC – utilizada somente por turistas.

O dinehrio antigo, no entanto, não deixou de circular. Mercadorias e serviços pagos pela população da Ilha eram cobrados em Peso Cubano, ou Moeda Nacional (MN). Mas, como a separação entre turístas e nativos é impossível – mesmo com todas as dificuldades impostas pelo governo – as trocas financeiras viraram corriqueiras.

Miguel, por exemplo, prefere não ter salário ficado pela autoridade cubana e viver da contribuição espontânea dos turistas. A explicação é simples: cada 10 CUC que recebe do turista (valor sugerido antes do passeio começar) equivalem aos 240 MN estipulad como salário mínimo na Ilha. Ou seja, se atender a dois turistas ou grupos (o valor solicitado é pelo serviço de guia, não importa o tamanho do público) por mês, Miguel já estara recebendo o dobro do que oferece o Estado.

Mesmo conhecendo os prejuízos que a dupla moeda traz ao país, Fidel segue defendendo a dolarização temporária da economia. A idéia é valorizar o Peso Cubano até o patamar de 10 MN por 1 CUC, quando então, vai extinguir o Peso Convertible. “Essa relação já foi de 1 para 180”, lembra Nancy.

Enquanto essa realidade não chega, proliferam-se negócios nas mais importantes cidades com permissão para vender produtos em duas moedas. Alguns restaurantes possuem dois menus e há uma rede inteira de padarias – a Sylvaim – com entradas distintas. Uma bela fachada e a vitrine coberta de doces e pães especiais anuncia que essa é a porta de entrada das divisas. Aos cubanos que não a possuem, resta a porta ao lado, onde nada mais há que pão d’água.

Fidel é mais popular do que o regime

“Antes de ser socialista, sou um fidelista”, bate no peito Armando, que trabalha em um açougue em Havana. Assim como o carniceiro, a imensa maioria dos cubanos defende seu líder antes da própria continuidade do regime.

Aqueles que estão em desacordo com o socialismo, no mínimo, respeitam sua figura. “Eu sei o que Fidel fez pelo povo cubano, mas estou cansada de ouvir que temos educação e saúde de graça. Eu quero poder tirar férias e levar meus filhos à praia”, protesta Maria Pérez Sadurni, moradora de Santiago de Cuba, que se declara “uma mulher de direita”.

Miguel, 42 anos, é guia turístico na Sierra Maestra. Graduado pela Universidade de La Habana em Artes Plásticas e Economia, mudou-se para Villa Santo Domingo, na Província de Granma, em busca do dinheiro no turismo.

Autônomo, Miguel não desfruta dos benefícios trabalhistas costumeiros na Ilha. Não tem salário fixo no final do mês nem recebe almoço no serviço. Preocupado com o exame de inglês a que vai se submeter no meio do ano – e cujo resultado pode interromper a carreira –, Miguel pede subsídios aos turistas para praticar a língua. “Já consegui um CD Player e alguns discos com músicas para melhorar a fluência”, enumera.

Mesmo insatisfeito com a precariedade da vida que leva (ele divide uma quitinete com um colega de trabalho e faz apenas uma refeição completa por dia), não pensa duas vezes quando questionado sobre uma possível invasão norte-americana em Cuba. “Eu seria o primeiro a pegar em armas.”

Se Miguel, que não era nascido quando a Revolução triunfou, está disposto a “dar a vida pela pátria”, é possível imaginar o pensamento de alguém que tenha participado da batalha.

“Essa é uma Revolução que tem a característica especial de ser feita com as idéias de Fidel e aprovada pelo povo, por isso é indestrutível”, acredita Conrado Moreno, combatente na Sierra Maestra em 1959.

A opinião é ratificada pelo próprio Fidel Castro, na longa entrevista a Ignácio Ramonet. Baseando suas análises na correlação de forças entre as milícias do General Batista e o Exército Rebelde – 40 mil contra 3 mil homens, um número quase 25 vezes superior –, o Comandante em Chefe afirma que se “o exército ianque, para liquidar esse país, tivesse de empenhar dois militares para cada combatente nosso, eles necessitariam de uma força de não menos do que 5 milhões de soldados”.

E complementa a resposta com uma ameaça. “Qualquer homem ou mulher de Cuba prefere a morte a viver sob a bota dos Estados Unidos. Podemos garantir que aqui temos todas as condições para que Cuba se torne, para eles, um inferno, uma armadilha letal.”

Garantir a segurança do país é uma obrigação cidadã em Cuba. Por isso, todo cidadão cubano é convocado a cada quatro meses, para fazer uma “atualização militar”, como explica José Amador Brito, que também integrou o grupo de barbudos que venceu o potente exército de Batista, em 1959.

“A maioria freqüenta algumas palestras, mas há pessoas que vêm para o centro de treinamento praticar técnicas de guerrilha.” Uma cidade cenográfica na beira da estrada entre El Pedrero e Santa Clara, no centro do país, é um desses lugares.

O imaginário do cubano está sempre prevendo uma invasão. E todos parecem estar preparados para defender a soberania do país. Ainda assim, é um cartaz na fachada de uma escola, no bairro de Havana Velha, que resume o sentimento do país. A verdadeira esperança dos cidadãos está depositada na frase que diz: “Viva Fidel, 80 más”.

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