Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 117 | Ano 12 | Set 2007
MOVIMENTO

Por Clarinha Glock

Neste exato momento, uma mulher é estuprada, uma criança escravizada e um homem decapitado em Darfur. Nessa região localizada no noroeste do maior país da África do Sul, o Sudão, centenas de pessoas morrem também de fome nos campos de refugiados em Chad. E, ao contrário do que se poderia pensar, o mundo inteiro tem algo a ver com isso, especialmente grandes potências como China e Estados Unidos, que têm interesses econômicos na região. As estimativas são de que cerca de 400 mil pessoas morreram devido à violência, fome e doenças, desde 2003, em Darfur. Outras 2,5 milhões foram tiradas de seus lares e mais de 200 mil estão em campos de refugiados onde sofrem com a fome, falta de saneamento e de moradias. Três grupos étnicos não-árabes estão sendo dizimados: Zaghawa, Fur e Massaleit. As milícias, com apoio do governo, matam aos milhares, atacam as vilas, envenenam poços de água e destroem as fontes de alimentos, além de impedirem que a ajuda humanitária chegue ao local.

Um livro recém-lançado nos Estados Unidos, intitulado Not on our watch (Não sob nossos olhos), pretende chamar a atenção e mobilizar o mundo para impedir que continue a acontecer mais um holocausto. A banalização da violência nos noticiários e sua incorporação ao dia-a-dia, até em músicas e em filmes, parece ter eliminado a capacidade de indignação da população nos Estados Unidos, no Brasil, na China, em toda parte. O ator Don Cheadle e o ativista social John Prendergast, autores do livro, tentam reverter esse quadro. Convencidos de que a ação do governo norte-americano é fundamental para pressionar o governo do Sudão a parar com o genocídio, eles mantêm a campanha Enough (Basta). E ensinam como estudantes, professores, políticos, atores e donas de casa podem ajudar a mudar a realidade e efetivamente dar significado à expressão “Nunca mais”, que se tornou conhecida depois do Holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial.

Cheadle se deu conta da tragédia de Darfur após fazer o filme Hotel Ruanda, em que interpretou Paul Rusesabagina. Considerado um herói por ter salvo ruandenses da morte, Rusesabagina abrigou-os no hotel em que era gerente em 1994, quando o governo extremista de origem étnica Hutu decidiu dizimar os Tutsi e seus simpatizantes. Em cem dias foram assassinadas 800 mil pessoas. Depois do filme, Cheadle foi convidado a participar de um grupo em visita a Darfur e não abandonou mais a causa. Ativista e batalhador dos direitos humanos, Prendergast é conselheiro do International Crisis Group e havia participado do governo Clinton nos anos 90 como diplomata para os assuntos da África.

A principal razão para o governo norte-americano não se envolver no conflito, explicam Prendergast e Cheadle, é o fato de o presidente George W. Bush ter substituído a antiga Guerra Fria pela campanha antiterrorismo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. E ter feito um acordo com oficiais do Sudão, que passaram a fornecer informações à CIA na luta contra o terror. Os mesmos oficiais responsáveis pelo genocídio em Darfur.

Alguns países não se envolvem porque têm interesse econômico na região. É o caso da China, cujas empresas exploram o petróleo no Sudão. Há uma campanha para que o governo chinês revise suas relações com os sudaneses até que parem com o genocídio. As Olimpíadas de Beijing, na China, em 2008, poderiam ser o marco simbólico da mudança. No dia 9 de agosto, um grupo formado pela atriz Mia Farrow, embaixadora da Unicef, jogadores, representantes do Enough e atores acendeu uma tocha olímpica simbólica próximo à fronteira de Darfur. A tocha deverá viajar pelos países historicamente associados a genocídios e massacres até chegar à China, em dezembro.

Outros países também estão em risco: Congo, norte de Uganda, Somália – onde não há genocídio, mas a população vive em condições de extrema miséria e violência. Mas, ao contrário de Ruanda e da Bósnia, em que as mortes aconteceram sem que o mundo se mobilizasse, em Darfur e em outros lugares ainda é possível fazer algo para acabar com o sofrimento das populações. No dia 16 de setembro, uma manifestação em vários países lembra isso. É o Dia Mundial de Darfur.

As origens do conflito

O Sudão é o maior país da África. Até o século 20, a região noroeste de Darfur era o reino próspero e independente do povo Fur (em árabe, “Dar” significa “lar” – portanto, Darfur era o “lar dos Fur”).

Em 1899, a Grã-Bretanha assumiu o poder no sul e o Egito passou a controlar o norte do Sudão. Cada região passou a desenvolver características culturais e religiosas específicas. O norte, com valores islâmicos. O sul, com a presença de missionários cristãos que promoveram a língua inglesa. Em 1916, o governo britânico estendeu seu controle para Darfur, anexando o sultanato que mandava ali.

Em 1º de janeiro de 1956, o Sudão se tornou independente, mas os conflitos internos já eram grandes. Dois anos depois, o exército nacional tomou o poder à força e começou um processo para islamizar o sul através de violento proselitismo. Nos anos 60, Moscou passou a financiar as armas para o governo do norte e os rebeldes receberam apoio de Israel e países vizinhos, como Congo, Uganda e Etiópia. Sucessivos tratados de paz não foram suficientes para acabar com as disputas.

Brasileiros podem ajudar, diz ativista

Somente em agosto de 2006 uma resolução das Nações Unidas autorizou o envio de tropas para Darfur. Graças à pressão feita pelos inúmeros adeptos da campanha, em fevereiro de 2006 o presidente Bush resolveu se manifestar, pedindo o envio de mais tropas. Mas o presidente norte-americano ainda não assinou o tratado internacional que dá apoio à Corte Criminal Internacional criada para punir os perpetradores de genocídios, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. “Nem vai assinar”, alerta Prendergast. “ Esperamos que o próximo presidente o faça”.

Em entrevista feita por meio de um Blackberry (espécie de telefone e computador portátil), Prendergast respondeu a algumas perguntas sobre Darfur. Disse que os brasileiros podem ajudar, criando consciência e informando sobre ações práticas. Aliarse ao esforço global para pressionar a China, neste período préolimpíadas, é um exemplo.

Os “três Pês” que menciona no livro (proteger a população, punir os perpetradores e promover a paz) são um guia para o ativismo, não somente em casos de genocídio, observou, e podem ser aplicados em outras situações – inclusive no Brasil.

Iniciativas originais mobilizam jovens

Para pressionar o governo, divulgar o tema e conquistar novos adeptos na luta contra os genocídios valem a criatividade e a perseverança. Uma destas iniciativas é a Harry Potter Alliance (www.thehpalliance.org), criada por Andrew Slack para motivar os fãs do jovem bruxo a se posicionarem contra a tirania, o genocídio e o aquecimento global, usando paralelos com os livros da série.

O mtvU (www.mtvu.com) – canal da rede MTV dedicado a estudantes universitários –, oferece bolsas de estudo para alunos interessados em fazer documentários sobre o assunto. No site é possível jogar o videogameDarfur está morrendo e entender o que é o conflito e todas suas terríveis implicações.

Students Taking Action Now: Darfur (STAND – Estudantes em ação agora: Darfurwww.standnow.org) reúne alunos de 600 universidades e escolas nos EUA e Canadá para informar, angariar fundos e lutar por uma solução política para o conflito.

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