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Nº 122 | Ano 13 | Abr 2008
CULTURA

Por Caren Mello

Com local definido e patrocinadores já comprometidos com a construção do novo teatro, a Ospa depende apenas de uma postura decidida do poder público. Em junho, a Orquestra deverá abandonar a sede que ocupou por 24 anos.

Na música, o arco de um violino é tocado de baixo para cima quando seu instrumentista quer leveza. A mão contrária – de cima para baixo – é escolhida pelo violinista para reproduzir um som afirmativo. É o peso do braço que definirá o efeito. Do lado de cá, fora do palco, vale o mesmo princípio. Ações precisas, determinadas, geram produtos decisivos. É o que esperam funcionários, músicos e regentes da Ospa, nessa nova fase: atitude e determinação. O arco está com os entes públicos.

Depois de anos de debates, resistências e manifestações em relação à construção de sua nova sede, o imbróglio parece estar sendo encaminhado com movimentos afirmativos. Mesmo assim, a perspectiva é de um longo e difícil período. Caso todas as pendências já estivessem resolvidas, a Ospa ainda teria dois anos pela frente para ocupar sua casa definitivamente. Até lá, vai depender do empréstimo de instituições para ensaios e guarda dos instrumentos.

A concepção da sala que seria junto ao Shopping Total sofreu alterações para a nova área, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, cedida pela Prefeitura. O projeto passou a dialogar com a orla do Guaíba, além de adotar o conceito “Green Building”. Ele será o primeiro prédio verde de Porto Alegre, com reaproveitamento de água pluvial e da água das pias, energia solar e reutilização de energia através do chamado processo termoacumulativo, que sustenta o sistema de ar-condicionado. Os vidros e as esquadrias serão todos com material certificado. “Sem a derrubada de nenhuma árvore”, sublinha o presidente da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Fospa), Ivo Nesralla.

Impacto

O projeto do prédio verde mais os estudos de impacto ambiental e de trânsito serão enviados ainda em maio para a Secretaria do Meio Ambiente, onde, por um período indefinido, passarão pela avaliação do corpo técnico. “O processo vai depender muito da boa vontade dos órgãos públicos em acelerar as questões burocráticas, mas vai depender muito mais da comunidade que deve se engajar nesta luta, já que a Ospa é de todos nós”, diz o maestro Isaac Karabtchevsky. Para o regente, a orquestra encontra-se num momento delicado por ter que abandonar o teatro onde atuou por 24 anos. “Tivemos que desistir de um belo local e começar tudo novamente”.

A análise de impacto ambiental, na avaliação do presidente da Fundação, não dever ser feita com “olhos convencionais”. “Estamos muito agradecidos ao prefeito José Fogaça. Não fosse por ele, ainda estaríamos sem rumo. Agora, precisamos agilizar as questões burocráticas. Espero que considerem o projeto como sendo um patrimônio dos gaúchos”. Para a construção, Nesralla diz que baterá “na porta de cada gaúcho, se for preciso”. Os recursos – estimados em R$ 20 milhões – devem sair de duas fontes: Lei Rouanet e iniciativa privada. O Estado não contribuirá na construção.

“A Cultura é a prima pobre das secretarias”, admite a secretária Mônica Leal. À frente da Sedac, pasta à qual está vinculada a Ospa, Mônica diz que a doação do terreno foi uma das duas bandeiras de quando era vereadora. A outra foi a luta por armar a guarda municipal. Agora, admite, não há o que fazer. O Estado não tem como ser parceiro. “A questão da Ospa me preocupa muito. Gostaria, inclusive, de estar presente a mais concertos”, diz, lembrando do dia em que assistiu a Orquestra tocar, durante um evento em Gramado.

“A Ospa é uma das melhores sinfônicas do país. Ela tem todos os direitos de ter um teatro só dela. Merece ter seu sonho transformado em prioridade”, avalia Luis Fernando Verissimo, filho de Erico, que divulgou Porto Alegre no exterior e o seu orgulho de ter saído de uma cidade que tem uma Orquestra.

Patrocínio

Realidade bem diferente foi a da Orquestra Sinfônica de São Paulo. No final do ano de 1996, a idéia de transformar uma antiga Estação Ferroviária em sala de espetáculos foi levada ao governador Mário Covas que, prontamente, abraçou a causa. A maior e mais moderna sala de concertos da América Latina foi concluída em julho de 1999, transformandose em um marco da cidade. O apoio do governador não parou por aí. Mário Covas triplicou o salário dos músicos. “A Osesp adquiriu o status em que se encontra, principalmente pelo apoio do governo, que acreditou na proposta da orquestra e levou o Estado de São Paulo ao Brasil e ao mundo”, avalia Karabtchevsky.

A nova casa da Ospa já tem indústrias patrocinadoras comprometidas e conta com a Lei Rouanet. Do Estado, a Fundação espera tão somente a nomeação de menos de uma dezena de professores. A escola de música Pablo Komlós, responsável pela formação de muitos dos instrumentistas que tocam hoje na orquestra e de outros tantos que se apresentam pelo mundo, não acolhe mais do que 50 alunos. Em outras épocas, o conservatório abrigou mais de 400. Isso porque em 2006 os professores que haviam sido chamados através de contratos emergenciais no governo passado foram afastados. “Vejo com tristeza. A escola nessa situação e a Orquestra, sem dinheiro, sempre dependendo da boa vontade do poder público. Nossa esperança é que a avaliação na Smam não se estenda por muito tempo, para que eu possa começar a bater na porta dos gaúchos”, diz Nesralla.

Questionado sobre a postura dos gaúchos e das autoridades em comparação com outras comunidades, Karabtchevsky relata o ocorrido no Teatro La Fenice, em Veneza. Em 1996, um incêndio deixou apenas as paredes da frente e as laterais. “Imediatamente foi feito um projeto de reconstrução chamado com’era, dove’ra (como era e onde era), com ajuda que chegou desde a Presidência da República até pessoas que não se identificaram. Foi um movimento comunitário. Acho que isso responde sua pergunta”.

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