Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 124 | Ano 13 | Jun 2008
PALAVRA DE PROFESSOR

Daniela Favero Netto e Enelise Arnold

No Modernismo, período da Literatura Brasileira em que a crítica à s instituições e às práticas estabelecidas era constante, Oswald de Andrade, por meio de uma poesia denominada Pronominais, ressalta a diferença entre a língua falada e a língua escrita. Atualmente, é comum ouvirmos críticas a respeito da qualidade dos textos produzidos por alunos – sejam eles da rede pública ou privada – a qual, na maioria das vezes, decorre da diversidade ressaltada pelo poeta.

A comunicação escrita necessita de um retorno do interlocutor que, ao contrário do que ocorre na comunicação falada, estabelece uma relação indireta com o escritor. Esse retorno diz respeito à compreensão do texto, que se dá por meio da sua interpretação, que tem relação direta com a qualidade da produção no que diz respeito a sua estrutura, ao seu conteúdo e à sua qualidade expressiva.

A aprendizagem da língua falada é um processo natural, que é estimulado desde cedo pelas pessoas que nos cercam. A língua escrita, ao contrário, não é aprendida através do mesmo processo. Utilizando-se uma analogia, podemos dizer que, assim como acontece quando fazemos algum esporte, a aprendizagem da língua escrita somente pode ser aperfeiçoada por meio de treinos e orientação constantes. Por essa razão, o ensino de Leitura e Produção de Textos deve ser devidamente trabalhado em sala de aula. É somente através de acompanhamento e de exercícios regulares que será possível se ter um bom domínio da habilidade escrita.

É preciso que as produções dos alunos sejam socializadas, isto é, os colegas devem ter acesso aos textos uns dos outros. Quando só o professor assume o papel de interlocutor, a única habilidade que o educando desenvolverá será a escrita de textos para o professor e, assim, sua aptidão será limitada à produção de textos para apenas um tipo de leitor.

Frente à legislação vigente, que permite um número elevado de alunos por turma, torna-se inviável um trabalho qualitativo em que os textos sejam socializados. Em salas de aula desse tipo, é impossível que cada aluno desenvolva suas potencialidades e habilidades relacionadas à produção escrita, pois não lhe é oferecido um ambiente adequado, no qual possa compartilhar seus textos e ter retorno do seu interlocutor para poder aperfeiçoá-los por meio das críticas do professor e, inclusive, dos seus colegas. O ambiente ideal para o trabalho com Produção de Textos é um local onde o aluno possa falar, pois esse deve ser o objetivo do professor: estimular o aluno a produzir conhecimento e compartilhá-lo com as outras pessoas. E como, em um contexto escolar desfavorável, todos os alunos poderão expor seus textos e falar sobre eles?

A linguagem escrita tomou uma proporção tamanha com o advento da Internet. Assim, podemos imaginar que essa habilidade se tornará imprescindível para praticamente todas as áreas de atuação profissional e, também, para a formação de um cidadão inteirado com o mundo contemporâneo. Portanto, levando em consideração as evidentes diferenças entre língua falada e língua escrita, já apontadas por Oswald de Andrade, não podemos ignorar que, em função da necessidade de se dar uma atenção especial ao trabalho com a língua escrita (que é muito menos praticada do que a língua falada), deve ser compromisso de toda a sociedade batalhar por uma sala de aula condizente com as necessidades de nossos alunos. A Leitura e a Produção Textual realizadas por nossos estudantes merecem um espaço para um trabalho de qualidade.

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