Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 125 | Ano 13 | Jul 2008
FRAGA

Quem tem dicionário leva uma vida bastante segura e ordenada. É como se o volumão na estante influísse nos fluidos do indivíduo e a vida fluísse na confluência das certezas. Algo parecido com andar em montanha-russa plana.

Sem o livrão na prateleira, o cotidiano se torna cheio de transtornos no entorno. É o que acontece com quem leva para casa palavras ouvidas a esmo, como gatos extraviados. Em vez de formar uma gataria, vira um vocabulário estropiado. Como a sala de espelhos nos parques de diversões, onde os sons e os sentidos se entortam.

Por causa de pontos volumosos na sola dos pés, o sujeito liga para uma pedicure:

– Queria marcar uma hora. Tenho calopsitas nos pés.

A profissional logo se livra do engraçadinho:

– Senhor, seu caso é para atendimento especializado na Austrália.

Na loja macrobiótica, ele solicita um quilo de açúcar mascate.

Um risinho disfarçado percorre o balcão. Assim que sai porta fora com sua doçura escura, a gargalhada ressoa no templo natureba.

Em meio a uma discussão sobre o sexo dos anjos, ele argumenta que pode muito bem haver uma diferença entre ourelas angelicais.

Ao redor, seus interlocutores se indagam sobre a grife grafada nas auréolas das cuecas dele.

Uma linda mulher de cabelos negros cruza com os instintos dele na calçada, que sussurra um galanteio na direção dela:

– Que morena cor de tambo!

Transformada em albina pela expressão, a moça dardeja um olhar de rejeição. Ele volta à vaca fria.

Ao assistir na tv um programa sobre o mundo animal, onde esclarecem que antas e elefantes são proboscídeos, conclui:

– Ah, então os homens probos não descendem dos primatas!

Quando o maitre o consulta sobre o vinho para acompanhar o jantar a dois, seu domínio da enologia transparece na escolha.

Não quer nem riesling nem sauvignon:

– Traga um clarinete, por favor.

Para prevenir e combater resfriados com vitamina C, recorre a certas bancas do Mercado Público, onde costuma pedir as melhores frutas cínicas. O pessoal até dá desconto para tão bemhumorado cliente.

Difícil haver alguém mais involuntariamente engraçado: para ele, batique é um ritual de tambores na Índia; elipse é quando a Lua tem nuvens na frente; enxaimel é uma colméia de abelhas alemãs; gáudio é o nó górdio depois de desatado; corruptela é uma propina insignificante. Etc.

Não vivo sem estes ensinamentos. Muito dos meus conhecimentos lingüísticos adquiri através dos tímpanos. Sou um alto ditado.

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