Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 129 | Ano 13 | Nov 2008
PALAVRA DE PROFESSOR

Maurício Martins Reis

A tecnologia está cada vez mais presente em nossa vida. E com ela advêm questões de ordem prática dignas de reflexão. Uma delas diz respeito ao direito à espontaneidade, ou, para abordar este novo fenômeno, o direito ao instante, ou, ainda, para efeitos gerais, o direito ao momento presente. Para bem explicar os recentes comportamentos das pessoas diante do arsenal de utensílios eletrônicos à sua disposição, tomaremos em conta a sala de aula, ambiente onde cada vez menos se estuda e se aprende, exatamente em virtude das potencialidades oferecidas pelos equipamentos de última geração.

Os alunos não copiam mais os conteúdos ministrados pelos professores. Eles os gravam, fotografam ou filmam em seus respectivos “materiais escolares” (telefones celulares, gravadores, máquinas fotográficas, computadores portáteis). A ocasião futura de poder revisar a matéria, num argumento concessivo, porque percentual significativo dos alunos acessa as lições pela primeira vez ao tomarem contato (quando tomam) com o produto da captação eletrônica, torna o ambiente em sala de aula um mero espaço de convivência onde não se oportunizam mais interações construtivas pedagógicas entre mestres e discentes. O que se dizer das pesquisas e dos trabalhos a serem realizados nas bibliotecas e em casa? O computador aniquilou qualquer pretensão de genuína pesquisa, pois a procura e a leitura foram substituídas pela mera digitação de palavras nos bancos de dados dos difusos acervos da rede mundial de computadores.

Para ilustrar essa aleatória pesquisa, os comandos direcionados aos domínios da internet apenas perscrutam o somatório de caracteres contidos nos termos digitados, quando Sócrates, o filósofo, se torna equivalente ao jogador de futebol da seleção brasileira. Ir à escola, comparecer à universidade, assim parece, significam compromissos de benefício duvidoso ou cujo tempo merece ser vertido para outras atividades, exatamente em função de sua (aparente) única valia presencial, pelo fato de os componentes tecnológicos banalizarem a devida compenetração durante a experiência da aula, tornando os alunos, em sua boa parte, mera aparência de corpo presente. A tecnologia, nesse sentido, nos surrupia o instante, tanto para educandos, quanto para educadores, no correlato fluxo do saber compartilhado em sala.

Ao invés de ganhar tempo, a tecnologia nos subtrai, pelo menos, duas oportunidades de bem aproveitarmos o tempo presente: uma, durante a própria aula, por nos sonegar a dialética vital de ensinamentos que, quando meramente reproduzidos e “gravados”, mantêm-se amorfos tais quais nos livros onde se encontram; e outra, quando se reservam novos momentos para simplesmente registrar aquilo que já o poderia ter sido no seu devido (e adequado) contexto. Sem falar, ainda, das indevidas “licenças poéticas” produzidas livremente, sem qualquer crivo crítico, com o objetivo de condenar professores, sob o escudo mentiroso de um fiel registro específico que faz esquecer o pano de fundo do qual parte e para o qual faz sentido. Fato inevitável é que qualquer um pode gravar, muitos sabem difamar a partir do que se gravou, mas poucos podem interpretar e efetivamente apreender com base naquilo que foi ministrado.

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