Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 129 | Ano 13 | Nov 2008
ELISA LUCINDA

A brisa delicada me chama
para ver a beleza da tarde
caindo pela janela.
Meu coração está feridinho.
Longe de ser de morte,
o golpe me tirou, muito rente
da carne, a crosta de ilusão
que o encobria.
Uma foda animal
fez uma poda radical
na árvore do meu
amor, uma foda de
rua deu-me chifres
no telhado do lar e
eu não sei agora
aonde achar uma ética
única e geral que reja as relações do amor.
Cada qual é uma, cada qual com seu valor.
Um calor molha a minha blusa, revela os bicos assustados dos
peitos acostumados à devoção.
Mas espera ! Penso que tenho intimidades com as escadarias do
perdão, conheço a estrada, aliso há anos esse corrimão. A brisa
delicada me beija o rosto, me reconhecendo, me flagrando pensando
estes versos no meio da sala.
A brisa encontra-me desarmada, embora triste.
Vê o nome do amor na árvore frondosa, sofrendo de uma poda
mal dada, desferida sem cuidado num importante galho.
Aceito no entanto seu convite, (ai de quem recuse convite de
brisa).Senti seus dedos refrescantes me levando até a janela.
Seu sopro, seu bafo alegre, e lá estava firme e bela, a tarde caindo
para dar passagem à noite, talvez nublada, talvez estrelada.
Anoiteceria, mas para a tard e não importava .
Na hora certa, lá estava a tarde me ensinando a cair,
sem sofrer, me ensinando a pôr-me bela.
Como quem larga um pouco as rédeas da vida e deixa a vida jogar
o seu jogo, tantas vezes grandioso,e tantas vezes minúsculo. O
convite da brisame deu foi lição de crepúsculo.

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