Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 130 | Ano 13 | Dez 2008
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não revela a idade, mas insiste que todas as especulações a respeito são exageradas. Diz que é verdade que carregou Getúlio Vargas no colo, mas ele já era presidente na ocasião. Dorinha decretou que nas reuniões do grupo que lidera, as Socialaites Socialistas, que lutam pela implementação no Brasil do socialismo soviético no seu estágio mais avançado, a volta ao tzarismo, todas usem crachás com seus nomes, pois com o botox ninguém reconhece mais ninguém. O grupo acompanhou atentamente as eleições presidenciais americanas e torceu por Barack Obama, cuja vitória, todas concordaram, representou o ápice da emocionante luta dos negros americanos contra a discriminação racial. Tatiana (Tati) Bitati era a mais entusiasmada com a vitória de Obama e declarou que aquilo deveria servir de exemplo para todas e ser imitado pelo grupo, só havendo um problema: ninguém conhecia um negro americano, ainda mais depois que o Ron Carter deixou de vir com tanta freqüência ao Brasil. Foi quando a… Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta lilás em papel turquesa perfumado, com um aviso para não aspirar demais o perfume, “Mange Moi”, o que poderia levar a cenas de furor sexual e a embaraço público.

“Caríssimo! Beijos centrifugais. Amo minhas colegas das Socialaites Socialistas mas elas costumam duvidar do que eu digo, embora eu nunca minta. Nunca acreditaram no meu caso com Randolph Scott e Marguerite Duras – ao mesmo tempo! A inveja, hélas, é um ácido social que tudo corrói. Foi assim quando convidei-as para conhecer o Picasso que acabara de comprar. Custaram a acreditar que era mesmo um sobrinho-neto do Picasso que estava pendurado na minha sala, apesar da certidão de nascimento e do Jean-Paul, que era como se chamava o rapaz, jurar que era autêntico. E foi assim quando, durante a discussão sobre a lição que a eleição do Barack Obama nos trouxera e como aproveitá-la, revelei que conhecia um negro americano a quem poderíamos demonstrar a mesma ausência de discriminação. Não vem ao caso como conheci o antropólogo Gideon ou qual foi o grau do nosso relacionamento, só posso dizer que ele aprendeu muitos costumes tropicais exóticos comigo e me ensinou a correta pronúncia da palavra ‘Uau!’. Pelo que eu sei, Gideon ainda está no Brasil, tentando nos compreender. Apesar da incredulidade de Tati e das outras, anunciei que o trarei para a nossa próxima reunião, quando poderemos fingir que ele é o Obama e nós somos americanas. Agora só tenho uma preocupação. Preciso avisar ao Severino, meu porteiro, que o Gideon é americano. Senão ele pensa que é brasileiro e manda subir pelo elevador de serviço. Da tua democrática Dorinha”.

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