Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 131 | Ano 14 | Mar 2009
FRAGA

Localizado no imaginário centro da Galáxia de Gutenberg, Loquaz apresenta mais crateras que qualquer outro corpo interplanetário. E asteróides e meteoritos não são a causa da superfície esburacada: ele foi escalavrado por descomunais escavadeiras e perfuratrizes, que o exploram da crosta à s profundezas. É que, na sua singular geologia, Loquaz oferece abundante matéria-prima, a mais rara em meio ao silencioso vácuo estelar: palavras.

Suas expressivas reservas vocabulares – estimadas em quarquiquantiquilhões de toneladas de palavras – têm elevado teor de inteligibilidade. Não há pobreza de linguagem, é como se o planeta inteiro fosse composto por metais nobres.

Tais jazidas provocam suspiros em linguistas internacionais.

O astro sem luz própria cintila de possibilidades: lá existem, como os elementos aqui na Terra, montanhas de verbos, vales com intermináveis veios de substantivos e adjetivos, planícies sem fim de preposições, advérbios, conjunções. As sondagens confirmam até um pré-sal, rico em locuções. Tudo em estado quase lapidar: a partir de um punhado do solo, se consegue o suficiente de palavras para um bom livro, diálogos proveitosos na ONU, aulas de todo tipo.

O peculiar, nesse dadivoso planeta, é a morfologia do solo, que ajusta a sua sintaxe à necessidade de expressão: misturam-se porções extraídas de diferentes minas, instruem-se as máquinas e o amálgama ocorre sem precipitações. Entram palavras soltas de um lado e saem textos fluentes do outro, para uso escrito ou oral. Tudo criativo, sem equívocos, como há muito não se lia e ouvia aqui na Terra.

A partir dos entusiasmantes testes em Loquaz, a esperança tomou conta da vida na Terra: seria a derradeira chance de entendimento entre os terrestres? Afinal, bastaria um fornecimento regular de melhores palavras e já não faltariam argumentos entre os povos, a harmonia mundial viria naturalmente. Também afetaria a produção cultural dos terráqueos, pois escritores, dramaturgos, roteiristas, poetas, até cronistas tipo eu, não poderiam mais se queixar de escassez de vocabulário.

O problema é que a humanidade não cala a boca.

Assim que os gigantescos cargueiros espaciais atracaram, todo o estoque foi logo contaminado pelo vírus da comunicação atual. Num ataque fulminante de logorreia e verborragia, tudo se esvaiu numa súbita explosão de algazarra bizarra, alarido sem sentido pra todo lado.

Agora, tal e qual Saturno, a Terra já tem um anel ao seu redor. É a loquacidade.

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